{"id":873,"date":"2020-02-23T11:37:27","date_gmt":"2020-02-23T14:37:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=873"},"modified":"2020-02-23T11:46:02","modified_gmt":"2020-02-23T14:46:02","slug":"folia-na-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/folia-na-capital\/","title":{"rendered":"Folia na capital"},"content":{"rendered":"<p>O presidente Juscelino Kubistchek tinha acabado de completar um ano no Pal\u00e1cio do Catete quando pipocou o primeiro protesto musical contra a transfer\u00eancia da capital para o meio do pa\u00eds. Gravada dia 30 de agosto de 1956 e lan\u00e7ada em novembro pela RCA Victor, a marchinha <em>Nova Capital<\/em> foi a aposta de Linda Batista para o carnaval.<\/p>\n<p>Os autores, Aldaci Louro, Sebasti\u00e3o Mota e Edgard Cavalcanti, ainda tratavam a promessa de campanha como boato \u2013 \u201cDizem, \u00e9 voz corrente\/ Em Goi\u00e1s ser\u00e1 a nova capital\u201d, cantam os primeiros versos. E concluem, conformados: \u201cLeve tudo pra l\u00e1, seu presidente\/ Mas deixe aqui o nosso carnaval\u201d. N\u00e3o pediu pelos barnab\u00e9s.<\/p>\n<p>O estribilho deixava tudo mais claro: \u201cO carioca chora, da l\u00e1grima cair\/ Se o reinado de Momo\/ Tamb\u00e9m se transferir\u201d. N\u00e3o foi esse sucesso todo; a m\u00fasica estava esquecida, mas foi recuperada pelo livreiro Jorge Brito, que agora deu de coletar can\u00e7\u00f5es sobre Bras\u00edlia para organizar um musical, com a inef\u00e1vel consultoria de Renato Vivacqua e F\u00e1tima Bueno.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Linda Batista em 1956 cantando -- Nova Capital ( Goi\u00e1s )\" width=\"1440\" height=\"810\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PNv2Dyl9K3k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Um ano depois, a mudan\u00e7a continuava na pauta da folia, desta vez com Joel de Almeida, que gravou a marcha <em>Isso N\u00e3o se Faz<\/em> no dia 4 de dezembro de 1956, tamb\u00e9m com letra curta e incisiva. \u201cAh, Seu Presidente, isso n\u00e3o se faz\/ Levar meu samba, o meu pandeiro e a mulata\/ L\u00e1 pra Goi\u00e1s\/ Agora o que \u00e9 que eu vou dizer\/ Se por acaso o turista perguntar\/ Onde \u00e9 que est\u00e1 a mulata para eu dan\u00e7ar\u201d.<\/p>\n<p>E mais um ano se passou quando Herivelto Martins e Grande Otelo fizeram <em>Adeus Mangueira<\/em>, gravada pelo Trio de Ouro (j\u00e1 com Lourdes Bittencourt no lugar de Dalva de Oliveira) em 14 de novembro de 1957, lan\u00e7ada em janeiro do ano seguinte. Era uma despedida, da cidade e do samba: \u201cO home t\u00e1 chamando&#8230; Adeus meu samba\/ Adeus, capital federal&#8230; Bras\u00edlia me chamou pra trabalhar\u201d.<\/p>\n<p>Todos os que protestavam certamente n\u00e3o tinham ideia que a obsess\u00e3o de JK se transformaria numa cidade de foli\u00f5es. J\u00e1 h\u00e1 alguns anos Bras\u00edlia n\u00e3o depende mais de desfiles organizados, bailes em clubes e hot\u00e9is ou chancelas oficiais; a festa \u00e9 na rua. A ironia \u00e9 que as velhas marchinhas s\u00e3o reproduzidas nas ruas, ao lado de sambas, frevos e o que mais vier. N\u00e3o adiantou protestar: o carnaval veio.<\/p>\n<p>Falando nisso&#8230;<\/p>\n<p>Quarta-feira de cinzas \u00e9 dia de ressaca para uns e de contri\u00e7\u00e3o para outros. In\u00edcio da quaresma, \u00e9 per\u00edodo de reflex\u00e3o e sacrif\u00edcios para cat\u00f3licos, mas \u00e9 tamb\u00e9m o dia em que hepatovis, engov e gen\u00e9ricos batem recorde de venda nas farm\u00e1cias. Pois foi numa dessas quartas, em 1941, que M\u00e1rio Lago escreveu os versos de Aurora, uma das mais populares marchinhas, cantada at\u00e9 hoje, mostrando que a folia pode vencer a enxaqueca.<\/p>\n<p>O compositor Roberto Roberti tinha uma frase e uma onomatopeia na cabe\u00e7a \u2013 \u201cse voc\u00ea fosse sincera, \u00f4, \u00f4, \u00f4, \u00f4, Aurora\u201d \u2013 e um arremedo de melodia. M\u00e1rio Lago fez uma letra moderna, com elevador, ar refrigerado, e nasceu um sucesso que mostra que carnaval n\u00e3o acaba nunca e ainda ganhou uma curiosa grava\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas, das Andrew Sisters.<\/p>\n<p>Bom carnaval.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 23 de fevereiro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente Juscelino Kubistchek tinha acabado de completar um ano no Pal\u00e1cio do Catete quando pipocou o primeiro protesto musical contra a transfer\u00eancia da capital para o meio do pa\u00eds. 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