{"id":885,"date":"2020-02-29T07:54:56","date_gmt":"2020-02-29T10:54:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=885"},"modified":"2020-02-29T07:54:56","modified_gmt":"2020-02-29T10:54:56","slug":"o-cinema-e-o-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-cinema-e-o-poder\/","title":{"rendered":"O cinema e o poder"},"content":{"rendered":"<p>O primeiro l\u00edder pol\u00edtico a compreender o poder do cinema foi Adolf Hitler. A linguagem pict\u00f3rica e concisa dos filmes fascinava o f\u00fcher e ajudou a moldar os discursos que galvanizaram uma gera\u00e7\u00e3o, com mensagens curtas, diretas e mastigadas para a massa. Hitler via pelo menos um filme por noite e suas impress\u00f5es sobre eles foram registradas.<\/p>\n<p>Laloman\u00edaco, assim que a sess\u00e3o era encerrada ele fazia uma resenha sobre o que acabara de assistir, tudo reproduzido e arquivado pelos asseclas, sempre partindo de \u201cgut\u201d (bom) ou \u201cschlecht\u201d (ruim), para analisar atua\u00e7\u00f5es e at\u00e9 planos. F\u00e3 de Marlene Dietrich (e quem n\u00e3o era?) e Mickey Mouse, ele impulsionou a ind\u00fastria alem\u00e3 de filmes.<\/p>\n<p>Get\u00falio Vargas foi al\u00e9m: intimidou cineastas e criou a obrigatoriedade da exibi\u00e7\u00e3o de cinejornais \u2013 todos muito simp\u00e1ticos a ele \u2013 antes das pel\u00edculas, al\u00e9m de censurar filmes estrangeiros (<em>Por Que lutamos<\/em>, de Frank Capra, sofreu v\u00e1rios cortes, antes de Vargas abandonar seu namoro com as for\u00e7as do Eixo). Tamb\u00e9m criou leis de incentivo e prote\u00e7\u00e3o ao cinema nacional que atravessaram d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>\u00c9 desta \u00e9poca o primeiro filme sonoro brasileiro, o ufanista <em>Coisas Nossas<\/em>, de Wallace Downey, ironicamente um norte-americano. E ainda o cl\u00e1ssico <em>O Limite<\/em>, de M\u00e1rio Peixoto, <em>Amor e Patriotismo<\/em>, de Aquiles Tartari, o musical <em>Al\u00f4, Al\u00f4 Brasil<\/em> \u2013 que juntava outra ponta da propaganda varguista, com sucessos da m\u00fasica popular \u2013, e o <em>Descobrimento do Brasil<\/em>, de Humberto Mauro.<\/p>\n<p>Hollywood estava anos-luz \u00e0 frente e j\u00e1 dominava as telas do mundo \u2013 inclusive na Alemanha hitlerista e no Brasil varguista. \u00c9 deste per\u00edodo <em>&#8230;E o Vento Levou<\/em>, filme de Victor Fleming, que narra um caso de amor durante a guerra civil norte-americana e que levou quatro estatuetas do Oscar, inclusive as de melhor filme e diretor, ator (Clark Gable) e atriz (Vivien Leigh).<\/p>\n<p>Pois o presidente norte-americano Donald Trump usou exatamente este filme para reclamar da vit\u00f3ria do sul-coreano Parasita no Oscar \u2013 foram quatro pr\u00eamios, incluindo os de melhor filme e diretor. \u201cQue inferno foi esse?\u201d, perguntou o presidente \u2013 que ainda misturou quest\u00f5es comerciais bilaterais neste samba.<\/p>\n<p>Trump se sentiu pessoalmente humilhado porque foi exatamente sob sua administra\u00e7\u00e3o nacionalista que um filme falado em outra l\u00edngua venceu o mais prestigiado pr\u00eamio do cinema dos Estados Unidos. Lembrou a decep\u00e7\u00e3o de Hitler ao ver Jesse Owens, negro e norte-americano, conquistar quatro ouros nas Olimp\u00edadas de Berlim (1936), destruindo a teoria da superioridade da ra\u00e7a ariana, um pilar nazista.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m lembrar que <em>&#8230;E o vento Levou<\/em> \u00e9 um filme que n\u00e3o resistiria bem aos tempos de hoje por causa de seu tratamento leviano da escravid\u00e3o. Para Vivian Leigh, que faturou 25 mil d\u00f3lares s\u00f3 de cach\u00ea, foi um tormento, principalmente nas cenas de beijos com Gable, dono de um mau h\u00e1lito em cinemascope.<\/p>\n<p>No Brasil, duas pessoas de forte liga\u00e7\u00e3o com movimentos religiosos crist\u00e3os foram indicadas para a dire\u00e7\u00e3o da Ancine, a ag\u00eancia que regula o mercado audiovisual e que esteve amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o se n\u00e3o atendesse \u00e0s mudan\u00e7as pretendidas pelo presidente. Como se v\u00ea, o cinema continua dando as cartas da pol\u00edtica. Para o bem e para o mal.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 1 de mar\u00e7o de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro l\u00edder pol\u00edtico a compreender o poder do cinema foi Adolf Hitler. A linguagem pict\u00f3rica e concisa dos filmes fascinava o f\u00fcher e ajudou a moldar os discursos que galvanizaram uma gera\u00e7\u00e3o, com mensagens curtas, diretas e mastigadas para a massa. Hitler via pelo menos um filme por noite e suas impress\u00f5es sobre eles foram registradas. 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