{"id":897,"date":"2020-03-13T22:15:50","date_gmt":"2020-03-14T01:15:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=897"},"modified":"2020-03-13T22:15:50","modified_gmt":"2020-03-14T01:15:50","slug":"a-redencao-do-cheiroso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/a-redencao-do-cheiroso\/","title":{"rendered":"A reden\u00e7\u00e3o do cheiroso"},"content":{"rendered":"<p>Agora que sabemos que flatul\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 cultura e, portanto, deve ser preservada, \u00e9 preciso discutir o assunto sem medo da escatologia que o cerca. At\u00e9 porque o pum foi tema de estudo recente feito por cientistas russos, e que esclarece todos os aspectos fisiol\u00f3gicos da manifesta\u00e7\u00e3o. \u00d3bvia conclus\u00e3o: todos n\u00f3s soltamos, n\u00e3o adianta negar. E poder\u00edamos completar: n\u00e3o deixa a palma da m\u00e3o amarela, como se acreditava na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>A origem culta vem do latim flatus, sopro; nos tempos escuros da idade m\u00e9dia foi considerado um sinal dos infernos, talvez por causa do cheiro de enxofre exalado pelos mais glut\u00f5es; e isso porque naquela \u00e9poca os europeus ainda n\u00e3o conheciam a batata-doce.<\/p>\n<p>Martinho Lutero, protestante que dividiu os crist\u00e3os ao se insurgir contra os apost\u00f3licos romanos, descobriu propriedades exorcizantes: chegou a recomendar que os fi\u00e9is soltassem bufas na cara do diabo para afast\u00e1-lo. N\u00e3o esclareceu bem como reconhecer o tinhoso nem como sentir a presen\u00e7a dele; o importante era o pum.<\/p>\n<p>O fedorento tamb\u00e9m j\u00e1 provocou guerras, como na \u00e9poca em que os romanos invadiram o oriente m\u00e9dio e, durante uma cerim\u00f4nia pascal em que os judeus foram impedidos de entrar, um legion\u00e1rio virou-se e soltou uma caprichada e barulhenta pernacchia, ofensa que provocou quatro anos de conflitos.<\/p>\n<p>Os italianos de hoje, mais comportados, continuam usando a pernacchia para ofender, mas agora pela boca, imitando o som de uma scoreggia.<\/p>\n<p>Sabe-se que um ser humano normal solta, em m\u00e9dia, 17 cheirosos por dia \u2013 afinal, s\u00e3o 1.400 ml acumulados. Ainda assim, uma solit\u00e1ria ventoinha foi o motivo para que a rainha Elizabeth, a primeira, deixasse de se casar, porque o pretendente deixou escapar um pufe quando se abaixou para os salamaleques de praxe.<\/p>\n<p>Logo essa rainha, conhecida por ter, supostamente, provocado um inc\u00eandio do pal\u00e1cio depois de se aliviar perto de uma lareira. Provavelmente achou que a uni\u00e3o gastrointestinal seria demais para os s\u00faditos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 assunto novo. Vem de 1751 o primeiro tratado erudito sobre o tema, registrado no livro <em>A Arte de Peidar<\/em>, de Thomas-Nicholas Hurtaud, ainda hoje \u00e0 venda nas boas casas do ramo (de livros, naturalmente).<\/p>\n<p>De uns tempos para c\u00e1, como lembrou nossa atriz-secret\u00e1ria, o pum passou a fazer parte do repert\u00f3rio dos humoristas, embora o traque n\u00e3o tenha nada de engra\u00e7ado, assim como n\u00e3o h\u00e1 nada de jocoso no arroto, contram\u00e3o da bombarda. Mas h\u00e1 quem ganhe dinheiro com isso, como Mr. Methane ou The Farting Man (traduzindo: o peidorreiro), que se apresenta, mascarado, solando can\u00e7\u00f5es como <em>Dan\u00fabio Azul<\/em> em audit\u00f3rios brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>O pum tamb\u00e9m \u00e9 um reconhecido elemento dram\u00e1tico usado no cinema, ainda que em par\u00f3dias. Pode ser ouvido contracenando com Meg Ryan e Billy Crystal em <em>Harry &amp; Sally<\/em> ou com Samuel L. Jackson, que mata um sujeito que abriu o g\u00e1s, em <em>Pulp Fiction<\/em>. Ou ainda em <em>O Poderoso Chef\u00e3o<\/em>, quando avacalha um jantar em fam\u00edlia.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m casos e piadas, essas aos montes. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 o que reclamar da nossa titular da cultura. O pum est\u00e1 entre n\u00f3s; o problema \u00e9 o hircismo.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 13 de mar\u00e7o de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora que sabemos que flatul\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 cultura e, portanto, deve ser preservada, \u00e9 preciso discutir o assunto sem medo da escatologia que o cerca. At\u00e9 porque o pum foi tema de estudo recente feito por cientistas russos, e que esclarece todos os aspectos fisiol\u00f3gicos da manifesta\u00e7\u00e3o. \u00d3bvia conclus\u00e3o: todos n\u00f3s soltamos, n\u00e3o adianta negar. 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