{"id":916,"date":"2020-06-14T13:56:16","date_gmt":"2020-06-14T16:56:16","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=916"},"modified":"2020-06-14T13:56:16","modified_gmt":"2020-06-14T16:56:16","slug":"triste-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/triste-fim\/","title":{"rendered":"Triste fim"},"content":{"rendered":"<p>No tempo do major Quaresma, viol\u00e3o n\u00e3o era coisa de gente s\u00e9ria. Quando a vizinhan\u00e7a descobriu que ele estava aprendendo como colocar os dedos para formar o acorde em r\u00e9 com o c\u00e9lebre artista Ricardo Cora\u00e7\u00e3o dos Outros, logo exclamou: \u201cMas que coisa? Um homem t\u00e3o s\u00e9rio metido nessas malandragens!\u201d.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a\u00ed a fama de maluco de Policarpo Quaresma, personagem de Lima Barreto, que defendia as modinhas como a mais genu\u00edna express\u00e3o da poesia nacional e, por tabela, o viol\u00e3o. Era um nacionalista extremado: frustrado por n\u00e3o conseguir servir o ex\u00e9rcito, estudou a p\u00e1tria de todas as maneiras para melhor amar seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Chegava ao ponto de diminuir a extens\u00e3o do rio Nilo em alguns quil\u00f4metros para favorecer o nosso Amazonas, se indignava quando algu\u00e9m dizia que gostaria de conhecer a Europa e n\u00e3o admitia comer frango com petit-pois porque \u00e9 culin\u00e1ria estrangeira. Mandava trocar por guando, para espanto da cozinheira, a irm\u00e3 Adelaide.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o piorou quando, j\u00e1 subsecret\u00e1rio do ministro da guerra nos primeiros anos da Rep\u00fablica, fez um of\u00edcio na l\u00edngua tupi. O escritur\u00e1rio Genel\u00edcio culpou a mania de leitura de Quaresma. \u201cDevia ser proibido \u2013 disse Genel\u00edcio \u2013 a quem n\u00e3o possu\u00edsse um t\u00edtulo acad\u00eamico ter livros. Evitavam-se assim essas desgra\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Quaresma foi al\u00e9m. Pediu que o Congresso Nacional decretasse o tupi-guarani com l\u00edngua oficial brasileira, em substitui\u00e7\u00e3o ao \u201cemprestado\u201d portugu\u00eas. Foi parar no manic\u00f4mio. \u201c\u00c9 raro encontrar homens assim, mas os h\u00e1 e, quando se os encontra, mesmo tocado de um gr\u00e3o de loucura, a gente sente mais simpatia pela nossa esp\u00e9cie, mais orgulho de ser homem e mais esperan\u00e7a na felicidade da ra\u00e7a\u201d, escreveu Lima Barreto.<\/p>\n<p>O fim de Policarpo Quaresma foi ainda mais triste, como adianta o t\u00edtulo do livro. Por excesso de patriotismo, depois de tanta dedica\u00e7\u00e3o para defender o governo Floriano Peixoto, foi acusado de trai\u00e7\u00e3o e condenado ao pelot\u00e3o de fuzilamento.<\/p>\n<p>Os autoproclamados patriotas de hoje est\u00e3o mais para Genel\u00edcio; bem menos rom\u00e2nticos. Tamb\u00e9m odeiam livros, imprensa, n\u00e3o sabem conviver com opini\u00f5es diferentes, s\u00e3o brutamontes covardes e usam a bandeira do Brasil como valhacouto. E curiosamente est\u00e3o em lados opostos. N\u00e3o h\u00e1 um pingo de inoc\u00eancia nos atos cometidos por eles e, ao contr\u00e1rio do que Lima Barreto sentiu pelo personagem de seu livro, esses s\u00f3 merecem desprezo.<\/p>\n<p>Patriotas verdadeiros de outros tempos narravam as belezas da terra que tem palmeiras, onde canta o sabi\u00e1, diziam que nosso c\u00e9u tem mais estrelas, nossas v\u00e1rzeas t\u00eam mais flores, nossos bosques t\u00eam mais vida, nossa vida mais amores. Diziam maravilhas da sua gente, do mulato inzoneiro, da terra boa e gostosa, da morena sestrosa de olhar indiscreto. A p\u00e1tria em chuteiras se ufanava do \u2013 apesar do anglicismo \u2013 escrete nacional<\/p>\n<p>O patriotismo exacerbado esconde um certo cinismo, como pensava Bernard Shaw \u2013 \u201cpatriotismo \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que o pa\u00eds da gente \u00e9 superior a todos os demais, simplesmente porque nascemos ali\u201d \u2013 mas pode ser tamb\u00e9m um sentimento virtuoso, como disse Joaquim Nabuco: \u201cO verdadeiro patriotismo \u00e9 o que concilia a p\u00e1tria com a humanidade\u201d.<\/p>\n<p>Esses \u201cpatriotas\u201d deveriam saber do fim de Quaresma. Mas eles n\u00e3o l\u00eaem.<\/p>\n<p><em>(Paulo Jos\u00e9, na foto com Giulia Gam, interpretou Quaresma no cinema)<\/em><\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 14 de junho de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No tempo do major Quaresma, viol\u00e3o n\u00e3o era coisa de gente s\u00e9ria. Quando a vizinhan\u00e7a descobriu que ele estava aprendendo como colocar os dedos para formar o acorde em r\u00e9 com o c\u00e9lebre artista Ricardo Cora\u00e7\u00e3o dos Outros, logo exclamou: \u201cMas que coisa? Um homem t\u00e3o s\u00e9rio metido nessas malandragens!\u201d. Come\u00e7ou a\u00ed a fama de maluco de Policarpo Quaresma, personagem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":917,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[25,470,471,472,473],"class_list":["post-916","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica","tag-cronica","tag-lima-barreto","tag-nacionalismo","tag-patriota","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/916","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=916"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/916\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/media\/917"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=916"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=916"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=916"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}