{"id":922,"date":"2020-06-28T13:49:25","date_gmt":"2020-06-28T16:49:25","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=922"},"modified":"2020-06-28T13:49:25","modified_gmt":"2020-06-28T16:49:25","slug":"letras-garrafais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/letras-garrafais\/","title":{"rendered":"Letras garrafais"},"content":{"rendered":"<p>O mundo perdeu muito de sua humanidade quando aposentou as letras garrafais. A luz do planeta se acendeu no fim da Idade M\u00e9dia, quando Guttemberg inventou os tipos m\u00f3veis, pelos idos de 1450, o que deu na imprensa e, por consequ\u00eancia, na irremedi\u00e1vel enxaqueca dos poderosos. Os tipos viraram tip\u00f5es, mas a indigna\u00e7\u00e3o que eles representavam vem sumindo.<\/p>\n<p>De uns anos para c\u00e1 estamos imersos numa era em que nem as letras garrafais, nem os pontos de exclama\u00e7\u00e3o, t\u00eam mais vez. Provavelmente, porque ningu\u00e9m mais se espanta com nada; as pessoas perderam a capacidade de se estupefar. Mas voltemos \u00e0 primeira linha: onde andam as letras garrafais, aquelas que anunciavam trag\u00e9dias, dramas, a vida em si?<\/p>\n<p>Os jornais s\u00e3o agora um po\u00e7o profundo de discri\u00e7\u00e3o, procuram apresentar tudo com uma sobriedade nobili\u00e1rquica, abandonaram o poder de fogo da exclama\u00e7\u00e3o, a eloqu\u00eancia do berro, representada pelas letras imensas que faziam as manchetes.<\/p>\n<p>Assim, o jornalismo deixou de se preocupar com os dramas comezinhos e com as hist\u00f3rias vicinais, provavelmente pela concorr\u00eancia representada pelos esc\u00e2ndalos pol\u00edticos e financeiros. Uma briga de vizinhos rendia linhas inspiradas nos vespertinos, uma alterca\u00e7\u00e3o no campeonato de v\u00e1rzea frutificava em par\u00e1grafos cheios de imagina\u00e7\u00e3o; e se houvesse um \u201cpresunto\u201d, que era uma g\u00edria para cad\u00e1ver, o inferno era o limite. Acabou.<\/p>\n<p>A indigna\u00e7\u00e3o e a surpresa eram a motiva\u00e7\u00e3o do jornalismo policial, hoje enterrado, e que assumia a forma direta \u2013 \u201cMatou a cunhada a pauladas!\u201d \u2013 ou mais misteriosa, que obrigava a leitura das linhas abaixo, o suti\u00e3 \u2013 \u201cUm tiro fatal\u201d trazia a manchete sem explica\u00e7\u00e3o. Outras eram quase um romance completo: \u201cEnteado mata pai para ficar com a madrasta\u201d.<\/p>\n<p>Era um mundo perverso, sem d\u00favida, com atos quase sempre cru\u00e9is, que, narrados com detalhamento s\u00f3rdido, mais do que informar, tinham a mesma fun\u00e7\u00e3o cat\u00e1rtica das antigas trag\u00e9dias gregas que purificavam a plebe por meio do sofrimento alheio. As hist\u00f3rias eram pe\u00e7as shakespearianas sem polimento, sem frases marcantes e palavras bonitas. Traziam a vida sem freio.<\/p>\n<p>O mundo continua perverso, os dramas continuam batendo na porta das delegacias, mas h\u00e1 hoje um consenso de moucos. E passamos a fingir uma c\u00ednica rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3ximo, em que o mandamento n\u00famero um \u00e9 a famosa lei de murici, que diz que cada um cuida de si. E a m\u00e3o foi invertida: a catarse foi para as ruas e virou o fato e n\u00e3o mais o reflexo.<\/p>\n<p>Como o pior do que a humanidade tem a nos oferecer n\u00e3o est\u00e1 mais estampada em letras que todos possam ler e, assim, conservar uma certa dist\u00e2ncia, ela brota em qualquer canto. As letras garrafais e as hist\u00f3rias que elas traziam foram abafados pelo crime sofisticado, que se limita aos pecados mais torpes, cerebrais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi aposentado um l\u00e9xico rico. N\u00e3o se ouve mais palavras como biltre, am\u00e1sio, libertino, aleive, rameira, fin\u00f3rio, proxeneta, calaceiro. Era um mundo mais rico, com nuances, em que s\u00f3 era preciso escolher lado no campo de futebol. N\u00e3o d\u00e1 para imaginar um mundo melhor sem a volta das letras garrafais.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 28 de junho de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo perdeu muito de sua humanidade quando aposentou as letras garrafais. A luz do planeta se acendeu no fim da Idade M\u00e9dia, quando Guttemberg inventou os tipos m\u00f3veis, pelos idos de 1450, o que deu na imprensa e, por consequ\u00eancia, na irremedi\u00e1vel enxaqueca dos poderosos. Os tipos viraram tip\u00f5es, mas a indigna\u00e7\u00e3o que eles representavam vem sumindo. 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