{"id":928,"date":"2020-07-05T19:39:34","date_gmt":"2020-07-05T22:39:34","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=928"},"modified":"2020-07-05T19:39:34","modified_gmt":"2020-07-05T22:39:34","slug":"o-velho-boteco-no-novo-normal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-velho-boteco-no-novo-normal\/","title":{"rendered":"O velho boteco no novo normal"},"content":{"rendered":"<p>Faz mais ou menos 12 mil anos que os homens decidiram parar de zanzar de um lado para outro e come\u00e7aram a se juntar em vilas. Nesta \u00e9poca algumas pessoas come\u00e7aram a exercer of\u00edcios: uns come\u00e7aram a produzir roupas, outros faziam armas e ferramentas, alguns cultivaram alimentos e domesticaram animais \u2013 nascia o com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Nenhum paleont\u00f3logo confirma, mas \u00e9 quase certo que ali no meio tinha uma birosca \u2013 ainda que n\u00e3o existisse bebida alco\u00f3lica nessa \u00e9poca, provavelmente j\u00e1 tinham inventado a conversa fiada e se contavam mentiras neol\u00edticas.<\/p>\n<p>O que se sabe, de fato, \u00e9 que os sum\u00e9rios, 3.500 anos antes de Cristo nascer, j\u00e1 se reuniam num local para beber cerveja, sempre servidos por uma mulher, a dona da taverna. Ou seja: \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o de pelo menos 5.500 anos e que alcan\u00e7ou etruscos, romanos, godos, visigodos, celtas; s\u00f3 piorou quando a administra\u00e7\u00e3o passou a ser masculina, criando outra tradi\u00e7\u00e3o: os bodegueiros homens-das-cavernas, que sobrevivem at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que pode mexer, sacudir e virar; o mundo pode ser outro depois dessa virose pand\u00eamica, mas certamente os bares v\u00e3o sobreviver \u2013 incluindo os propriet\u00e1rios neandertais \u2013 para, mais uma vez, exercer seu papel de despressurizar a sociedade.<\/p>\n<p>Os otimistas dizem que as pessoas v\u00e3o repensar o consumismo desenfreado, os luxos desmedidos, buscar a ess\u00eancia do ser (seja l\u00e1 o que for isso), exercitar a humildade. Duvido muito dessa remiss\u00e3o coletiva, mas posso garantir que, terminada a quarentena, as biroscas ser\u00e3o nova e alegremente ocupadas.<\/p>\n<p>Vamos matar a saudade do mau humor do propriet\u00e1rio, do copo imundo, da tripinha frita e adiposa, do banheiro cheirando a \u00e1gua sanit\u00e1ria, da vida alheia \u2013 convenhamos, fuxico pelo zap \u00e9 s\u00f3 meio-fuxico -, da camaradagem, da cerveja t\u00e3o estupidamente gelada que desce sem sabor, da boa conversa e, claro, das solu\u00e7\u00f5es que o mundo precisa para seguir girando em dois eixos, o que pode explicar a constante vertigem da natureza humana.<\/p>\n<p>No botequim, como no velho oeste, ganha quem saca primeiro. Piscou, leva bala. Hoje n\u00e3o acredito que ainda haja algum bar \u2013 pelo menos n\u00e3o em Bras\u00edlia \u2013 com um trabuco escondido sobre o balc\u00e3o para acabar qualquer furdun\u00e7o com um ou dois tiros para o alto, mas o dono do estabelecimento ainda tem que ficar de olho no comportamento do fregu\u00eas, com poderes para parar de servir e at\u00e9 de confiscar a chave do carro.<\/p>\n<p>O boteco \u00e9 o \u00fanico ramo do com\u00e9rcio em que o fregu\u00eas nunca tem raz\u00e3o; em alguns \u00e9 tratado como inimigo e deve ser por isso que os casados se sentem no pr\u00f3prio lar. Tanto que na volta ao reino dominado pela senhora muitas vezes se \u00e9 recebido com uma exclama\u00e7\u00e3o: \u201cAchei que n\u00e3o ia voltar mais!\u201d; ou, com a ainda mais cl\u00e1ssica, \u201cn\u00e3o tem mais casa, n\u00e3o !?\u201d.<\/p>\n<p>Hoje temos botequins fofos, que servem linguicinha com fio de ovos e isca de peixe frito sem \u00f3leo com geleia de goiabada como petisco, cadeiras com encosto ergom\u00e9trico, drinques coloridos e at\u00e9, pasmem, gar\u00e7ons educados. Esses n\u00e3o fazem falta. Os p\u00e9s-sujos nos acompanhar\u00e3o at\u00e9 o apocalipse.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense em 5 de julho de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz mais ou menos 12 mil anos que os homens decidiram parar de zanzar de um lado para outro e come\u00e7aram a se juntar em vilas. 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