{"id":973,"date":"2020-08-17T16:08:56","date_gmt":"2020-08-17T19:08:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=973"},"modified":"2020-08-17T16:08:56","modified_gmt":"2020-08-17T19:08:56","slug":"boteco-a-distancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/boteco-a-distancia\/","title":{"rendered":"Boteco \u00e0 dist\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p>A noite ainda come\u00e7ava a cair quando nosso amigo entrou no bar reclamando que nasceu na \u00e9poca errada. Antes de prosseguir com o lamento, \u00e9 necess\u00e1rio dizer que no boteco n\u00e3o \u00e9 de bom tom \u2013 sim, h\u00e1 uma etiqueta \u2013 ficar inquirindo os parceiros, at\u00e9 porque quase sempre a amizade se limita \u00e0quele determinado local; fora dali, pessoas que riem, celebram e choram juntas s\u00e3o praticamente desconhecidas.<\/p>\n<p>A reclama\u00e7\u00e3o do companheiro ser\u00f4dio era da mulher. Por causa da pandemia, ficamos exatamente 115 dias sem bar com a alega\u00e7\u00e3o oficial que assim evitar\u00edamos cont\u00e1gio e propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. A maioria se comportou bem, ficou em casa nos primeiros dias ouvindo aquele monte de teoria, de que tudo seria diferente dali em diante. Ele desabafou: a mulher achou que o tal novo normal era um mundo sem boteco.<\/p>\n<p>Depois de tantos dias recolhido, ela achou que a cervejinha que o marido tomava sozinho no canto da varanda, enquanto via o jornal da noite, era o suficiente. Pois bastou ele avisar que, liberados os bares, iria papear com os amigos que a casa caiu.<\/p>\n<p>Mal sabe ela que muitas vezes o equil\u00edbrio do lar depende de algum tempo no bar. \u00c9 onde os maridos deixam escapar boa parte da press\u00e3o do dia-a-dia, evitando que a casa seja contaminada pela pestil\u00eancia e mau humor provocados por um chefe, um cliente, um sapo qualquer, engolido de mal jeito.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um t\u00f3pico que falta nesses cursos de noivos, onde nubentes recebem no\u00e7\u00f5es do que os espera quando se junta os panos. Ningu\u00e9m explica esse fundamento \u00e0 noiva. E que falta nos faz o Jornal das Mo\u00e7as, uma das primeiras publica\u00e7\u00f5es dedicadas \u00e0 mulher, que trazia conselhos muito \u00fateis \u00e0s jovens casadoiras do in\u00edcio do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>J\u00e1 no primeiro n\u00famero, de 1914, foi publicado o artigo <em>O Que a Mulher Deve Ser<\/em>, com v\u00e1rios t\u00f3picos de comportamento recomendando, entre outras coisas, mod\u00e9stia, al\u00e9m de deixar bem evidente a posi\u00e7\u00e3o da mulher no casamento.<\/p>\n<p>Na grafia da \u00e9poca, o n\u00famero quatro dizia: \u201c\u00c9 de bem que procure agradar ao homem, pois para isso nasceu, mas sem que tente deslumbral-o, affectando dotes e qualidades que n\u00e3o possue\u201d \u2013 isso para aconselhar que n\u00e3o se engane o homem com \u201ccadeiras posti\u00e7as\u201d e \u201cseios de algod\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m deixava claro que \u00e9 preciso estar sempre pronta, como aparece no s\u00e9timo t\u00f3pico: \u201cDeve procurar levantar-se mais cedo do que elle e sempre \u00e0s escuras ou sob a penumbra do aposento, para que o marido n\u00e3o a veja desgrenhada\u201d.<\/p>\n<p>No segundo n\u00famero do Jornal das Mo\u00e7as, o conselho \u00e9 que a mulher deve ser um pouco instru\u00edda; \u201cPelo menos, os rudimentos de arithmetica e de leitura\u201d. E ainda amea\u00e7a: \u201cPor n\u00e3o saber dividir bem, algumas mulheres dividem os maridos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Mas os tempos s\u00e3o outros. O nosso extempor\u00e2neo amigo est\u00e1 com um problem\u00e3o para resolver em casa: convencer a mulher que n\u00e3o \u00e9 porque est\u00e1 em regime de trabalho a dist\u00e2ncia, que o mesmo tratamento deve ser dispensado ao boteco, com o sistema de telebar.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Coreio Braziliense em 16 de agosto de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A noite ainda come\u00e7ava a cair quando nosso amigo entrou no bar reclamando que nasceu na \u00e9poca errada. 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