{"id":983,"date":"2020-09-06T12:53:41","date_gmt":"2020-09-06T15:53:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=983"},"modified":"2020-09-06T12:53:41","modified_gmt":"2020-09-06T15:53:41","slug":"entre-leoes-e-urubus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/entre-leoes-e-urubus\/","title":{"rendered":"Entre le\u00f5es e urubus"},"content":{"rendered":"<p>As esparsas chuvas recentes lavaram o c\u00e9u de Bras\u00edlia. A n\u00e9voa seca formada por poeira, material org\u00e2nico flutuante e sabe-se l\u00e1 mais o qu\u00ea deu lugar a um azul anil viv\u00edssimo que tem tornado a secura dos \u00faltimos dias suport\u00e1vel; no m\u00ednimo, mais colorida. Como est\u00e1 dif\u00edcil ficar em casa, muita gente se arrisca pelos lugares p\u00fablicos da cidade, desafiando o v\u00edrus.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um batalh\u00e3o de gente que decretou feriado permanente nos chamados dias \u00fateis; o tal do teletrabalho virou passeio, transformando alguns funcion\u00e1rios p\u00fablicos em in\u00fateis que batem perna pela cidade. A situa\u00e7\u00e3o lembra aquela cr\u00f4nica do Stanislaw Ponte Preta, quando dois le\u00f5es fugiram do zool\u00f3gico; um foi para a floresta da Tijuca, outro se abrigou em uma reparti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que foi para o mato foi logo encontrado e recapturado. O outro continuou desaparecido e, para matar a fome, a cada dia comia um funcion\u00e1rio, at\u00e9 que foi encontrado e levado para a cela, onde se encontrou com o outro fugitivo e contou sua hist\u00f3ria. Perguntado se foi capturado porque acabaram-se os funcion\u00e1rios, ele respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Nada disso. O que n\u00e3o acaba no Brasil \u00e9 funcion\u00e1rio p\u00fablico. \u00c9 que eu cometi um erro grav\u00edssimo. Comi o diretor, idem um chefe de se\u00e7\u00e3o, funcion\u00e1rios diversos, ningu\u00e9m dava por falta. No dia em que eu comi o cara que servia o cafezinho&#8230; me apanharam.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era nada disso que eu ia escrever. Comecei falando no tempo seco e limpo, porque parece que tem sido do agrado dos urubus. J\u00e1 contei o caso do amigo que tem a cobertura de seu apartamento no Setor Sudoeste frequentada por abutres, porque um vizinho cismava de deixar carca\u00e7as de frango, como quem deixa alpiste para passarinho.<\/p>\n<p>Com isso os urubus fizeram ponto nas coberturas do pr\u00e9dio, deixando espalhadas todas as fedorentas necessidades, destruindo as plantas dos vasos e mexendo em tudo. Mas eles haviam sumido. E n\u00e3o por medo do estilingue que meu amigo comprou, lembrando seus tempos de ca\u00e7ar rolinhas quando elas ainda voavam pelas ch\u00e1caras de Vicente Pires; ruim de mira, nunca acertou um urubu. Avalie uma rolinha.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos se \u00e9 o c\u00e9u sem nuvens, se o tempo seco torna o ar mais prop\u00edcio para aquelas longas plainadas das aves de rapina ou se por nostalgia dos peda\u00e7os de frango, mas o fato \u00e9 que os urubus voltaram. E est\u00e3o mais folgados que nunca, se comportando como donos do peda\u00e7o e expulsando sabi\u00e1s e bem-te-vis.<\/p>\n<p>O urubu-da-cabe\u00e7a-preta, o mais comum, frequenta lix\u00f5es \u00e9 pequeno e veloz, enxerga de longe e voa em grande altitude; portanto, o sexto andar do pr\u00e9dio \u00e9 moleza. Antes era s\u00f3 um casal de p\u00e1ssaros, agora s\u00e3o mais e meu amigo acredita que s\u00e3o muitos mais.<\/p>\n<p>Urubu n\u00e3o se mata, \u00e9 crime. Ele j\u00e1 fez de tudo para tirar os bichos de l\u00e1, at\u00e9 comprou um aparelhinho que emite ultrassons, que o fabricante garante que espanta tudo. \u201cDevem ser surdos\u201d, disse. Agora ele voltou a fazer a alegria do balconista da loja de fogos e a disparar roj\u00f5es para tentar espant\u00e1-los, mas s\u00f3 ganhou uma certeza: definitivamente aqueles urubus s\u00e3o surdos.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 6 de setembro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As esparsas chuvas recentes lavaram o c\u00e9u de Bras\u00edlia. A n\u00e9voa seca formada por poeira, material org\u00e2nico flutuante e sabe-se l\u00e1 mais o qu\u00ea deu lugar a um azul anil viv\u00edssimo que tem tornado a secura dos \u00faltimos dias suport\u00e1vel; no m\u00ednimo, mais colorida. 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