{"id":993,"date":"2020-09-26T09:44:33","date_gmt":"2020-09-26T12:44:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=993"},"modified":"2020-09-26T09:44:33","modified_gmt":"2020-09-26T12:44:33","slug":"o-homem-das-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/o-homem-das-flores\/","title":{"rendered":"O homem das flores"},"content":{"rendered":"<p>O colorido de Bras\u00edlia brota do ch\u00e3o e desafia a cidade feita em concreto r\u00edgido. Mas nem sempre foi assim. Nos primeiros anos da capital, o objetivo principal era plantar grama; por um motivo pr\u00e1tico: conter a poeira que subia da terra vermelha, impulsionada pelos lacerdinhas, como eram chamados os redemoinhos.<\/p>\n<p>A nova capital nasceu do cerrado desmatado por correntes amarradas a tratores, que erradicaram as esp\u00e9cies nativas. Havia quem sonhasse com uma vegeta\u00e7\u00e3o bem mais exuberante, desafiando a geografia, at\u00e9 que milhares de \u00e1rvores morreram de inani\u00e7\u00e3o em meados dos anos 1970 \u2013 v\u00edtimas do solo fraco em nutrientes.<\/p>\n<p>O conceito de cidade parque foi criado pelo urbanista L\u00facio Costa e o paisagismo dos monumentos \u00e9 fruto da imagina\u00e7\u00e3o e ci\u00eancia de Burle Marx, mas o jardim que extasia quem mora e visita o Distrito Federal hoje n\u00e3o \u00e9 obra de nenhum dos pais fundadores. As cores s\u00f3 se viabilizaram gra\u00e7as a um cearense da regi\u00e3o do Cariri, que chegou \u00e0 cidade sem saber direito o que veio fazer.<\/p>\n<p>Ozanan Coelho chegou em 1969, j\u00e1 formado engenheiro agr\u00f4nomo. Na \u00e9poca, os tornozelos e pesco\u00e7os precisavam ser esfregados com zelo para tirar a crosta de terra que n\u00e3o respeitava meias e colarinhos, tal a quantidade de poeira no ar. Era um desafio ao desejo de L\u00facio Costa, que queria que os pr\u00e9dios residenciais da cidade fossem erguidos \u201ccomo da clareira de uma floresta\u201d.<\/p>\n<p>Se Bras\u00edlia tem hoje o colorido dos ip\u00eas \u2013 de todos os matizes \u2013 a partir de agosto, a fartura de mangas em outubro, os jamel\u00f5es de novembro, as jacas de mar\u00e7o e as pitangas e amoras de setembro espalhadas pelas \u00e1reas verdes, deve a ele. Deve tamb\u00e9m os bal\u00f5es sempre floridos, que ele desenvolveu por encomenda, depois que o ex-governador Joaquim Roriz voltou de viagem, encantado com os jardins de Washington, capital norte-americana.<\/p>\n<p>Os viveiros mantidos pela Novacap foram formados depois que Ozanan e sua turma fizeram uma intensa pesquisa para saber quais \u00e1rvores e flores se dariam melhor com o clima radical \u2013 entre a seca absoluta e o aguaceiro dos finais de ano \u2013 do cerrado. E assim, a partir dos anos 1980, ele mudou \u2013 literalmente \u2013 a paisagem do Distrito Federal.<\/p>\n<p>Os jardins ainda est\u00e3o sendo cuidados e milhares de p\u00e9s de \u00e1rvores continuam sendo plantados em todas as cidades todo ano, mas ningu\u00e9m havia se lembrado de render qualquer homenagem ao homem que embelezou a cidade e nos fez respirar melhor. Morto v\u00edtima de enfarte fulminante em 2016, Ozanan Coelho parecia esquecido sob a mesma l\u00e1pide do descaso de outras figuras que ajudaram a construir a hist\u00f3ria e a cultura brasilienses.<\/p>\n<p>Mas a mem\u00f3ria dele n\u00e3o vai se apagar. Na entrada da pista da pen\u00ednsula do Lago Norte, onde ele morou por d\u00e9cadas, pertinho dos bares do Luiz\u00e3o e do Paulinho, que frequentava com muito comedimento, est\u00e1 sendo erguida uma pracinha com o nome dele. Nos pr\u00f3ximos dias, uma est\u00e1tua do \u2018seu\u2019 Ozanan ser\u00e1 colocada sentadinha num banquinho. Bem perto de um ip\u00ea amarelo que ele mandou plantar.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 27 de setembro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O colorido de Bras\u00edlia brota do ch\u00e3o e desafia a cidade feita em concreto r\u00edgido. Mas nem sempre foi assim. Nos primeiros anos da capital, o objetivo principal era plantar grama; por um motivo pr\u00e1tico: conter a poeira que subia da terra vermelha, impulsionada pelos lacerdinhas, como eram chamados os redemoinhos. 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