{"id":997,"date":"2020-10-03T19:58:03","date_gmt":"2020-10-03T22:58:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/?p=997"},"modified":"2020-10-03T19:58:03","modified_gmt":"2020-10-03T22:58:03","slug":"um-diva-no-botequim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/paulopestana\/um-diva-no-botequim\/","title":{"rendered":"Um div\u00e3 no botequim"},"content":{"rendered":"<p>Convenhamos que bar n\u00e3o \u00e9 lugar para discutir rela\u00e7\u00e3o. Mas como hoje ningu\u00e9m tem lugar para nada e a vida privada escorre pela latrina, l\u00e1 estava o casal tentando acertar os ponteiros. Antes, por\u00e9m, devo esclarecer que n\u00e3o ca\u00ed na tenta\u00e7\u00e3o de fazer fofoca; o que segue \u00e9 s\u00f3 um caso mundano, cheio de testemunhas involunt\u00e1rias.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a parecia confundir a cadeira de pl\u00e1stico vermelha com o s\u00edmbolo da cerveja com um div\u00e3. Confort\u00e1vel, n\u00e3o parava de falar; passou a vida \u00e0 limpo, falou mal do pai, dos irm\u00e3os, das falsas amigas \u2013 um jorro emocional. O rapaz era esperto: n\u00e3o retrucava, demonstrava interesse e soltava grunhidos em sinal de apoio.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve discuss\u00e3o. Nem quando ela mudou o sujeito das ora\u00e7\u00f5es e passou a se dirigir a ele, pobre coitado \u2013 pelo menos era o que parecia, j\u00e1 que tent\u00e1vamos n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o (temos nossos pr\u00f3prios problemas e ningu\u00e9m ia receber um tost\u00e3o pela sess\u00e3o). O casal ficou o tempo de consumir tr\u00eas cervejas e uma por\u00e7\u00e3o de pasteizinhos.<\/p>\n<p>Quando sa\u00edram, l\u00f3gico, viraram assunto. N\u00e3o exatamente o casal, mas o inc\u00f4modo demonstrado pelo rapaz, obrigado a ouvir aquilo tudo em p\u00fablico, ter alguns segredinhos revelados \u2013 coisas que ele mantinha como h\u00e1bito e que ela n\u00e3o gostava. Tivemos a certeza de que aquele rapaz nunca mais seria visto nas redondezas.<\/p>\n<p>Era uma mesa de homens casados \u2013 dois muito casados, j\u00e1 que est\u00e3o na terceira tentativa \u2013 e apenas um ficou calado, absorto pela conversa anterior. Parecia ruminar a conversa que ouvira, provavelmente mais atentamente que os demais.<\/p>\n<p>Reclamar do casamento \u00e9 coisa normal na confraria dos botecos. Numa outra roda um amigo passou apertado depois que a mulher ligou pela terceira vez na convoca\u00e7\u00e3o que todos, uns mais outros menos, obedecemos e, por engano, ligou o viva voz do telefone. Todos na mesa ouviram os berros e palavr\u00f5es que sa\u00edram do aparelho.<\/p>\n<p>Meio sem gra\u00e7a, ele disse: \u201cAlgumas vezes ela gosta de soltar os cachorros\u201d. E continuou ali, sem arredar o p\u00e9, para dizer que n\u00e3o era mandado. Mas desligou o telefone.<\/p>\n<p>Voltando ao amigo que ouvira a DR. Ele continuou bebendo seu u\u00edsque, sem participar da conversa, at\u00e9 que algu\u00e9m lhe perguntou alguma coisa e fez cara de quem n\u00e3o ouviu ou n\u00e3o entendeu. O que est\u00e1 havendo? Problemas? Podemos ajudar? \u2013 as perguntas vieram de todas as bocas, demonstrando aquela cumplicidade masculina que algumas mulheres tanto invejam.<\/p>\n<p>Disse que estava tudo bem, que n\u00e3o era nada no trabalho e que s\u00f3 estava abismado com a conversa do casal que se exp\u00f4s ao mundo \u2013 ao nosso mundo, pelo menos. Ao mesmo tempo, disse, achou bonita a coragem de explorar problemas que estavam enfrentando, como casal, achando bonito quando sa\u00edram de m\u00e3os dadas e se beijaram quando o rapaz dava partida no carro. E abriu o cora\u00e7\u00e3o: \u201cTem uma semana que minha mulher n\u00e3o fala comigo\u201d.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio durou segundos que pareceram eternidade, foi quebrado pela voz troante do Mauri\u00e7\u00e3o, que estava apartado: \u201cAproveita, amigo; esse \u00e9 aquele tal sil\u00eancio que vale ouro\u201d.<\/p>\n<p><strong>Publicado no Correio Braziliense, em 4 de outubro de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Convenhamos que bar n\u00e3o \u00e9 lugar para discutir rela\u00e7\u00e3o. Mas como hoje ningu\u00e9m tem lugar para nada e a vida privada escorre pela latrina, l\u00e1 estava o casal tentando acertar os ponteiros. Antes, por\u00e9m, devo esclarecer que n\u00e3o ca\u00ed na tenta\u00e7\u00e3o de fazer fofoca; o que segue \u00e9 s\u00f3 um caso mundano, cheio de testemunhas involunt\u00e1rias. 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