{"id":14099,"date":"2020-06-09T12:00:56","date_gmt":"2020-06-09T15:00:56","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/?p=14099"},"modified":"2020-06-09T12:00:56","modified_gmt":"2020-06-09T15:00:56","slug":"hollywood-netflix-critica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/hollywood-netflix-critica\/","title":{"rendered":"Hollywood traz a hist\u00f3ria do cinema por uma lente romantizada"},"content":{"rendered":"<h3>Produ\u00e7\u00e3o da Netflix, <em>Hollywood<\/em> re\u00fane time de astros para contar importante momento da S\u00e9tima arte. Enredo otimista e rom\u00e2ntico atrapalha maior conex\u00e3o com a realidade<\/h3>\n<p>Guerras, momentos pol\u00edticos e mudan\u00e7as sociais. A hist\u00f3ria humana foi fonte de grandes enredos para o entretenimento, e, de certa forma, a metalinguagem \u00e9 tamb\u00e9m grande parte dessa ind\u00fastria. A biografia do cinema j\u00e1 foi abordada por diversos \u00e2ngulos \u2014 seja nas telinhas, ou nas telonas \u2014 e a mais nova aposta nesta vertente \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o <em>Hollywood<\/em>, da Netflix.<\/p>\n<p>A estreia da s\u00e9rie deu-se no come\u00e7o de maio e segue sob supervis\u00e3o da lenda da TV norte-americana, o showrunner Ryan Murphy \u2014 ao lado do n\u00e3o menos importante Ian Brennan. A dupla j\u00e1 emplacou v\u00e1rios sucessos, como <em>Glee<\/em>, mas <em>Hollywood<\/em> provavelmente n\u00e3o ser\u00e1 mais um exemplo de marca pop para Murphy.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie tem um apelo cinematogr\u00e1fico &#8212; marca de Murphy, desde <em>Nip\/Tuc<\/em>k, em 2003, at\u00e9 a atual <em>American horror story &#8211;,<\/em>\u00a0entretanto parece estar presa a uma conjuntura de eventos que a seguram na regularidade. Na sinopse original, a Netflix vende a produ\u00e7\u00e3o como a ousadia de um grupo de cineastas que luta pelo sucesso e pela fama na \u201cterra dos sonhos\u201d logo no p\u00f3s Segunda Guerra. Na pr\u00e1tica, entretanto, a organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouco menos evidente.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #ff0000\">Cuidado, spoilers a seguir!<\/span><\/h3>\n<p>O piloto apresenta o que pensamos ser o protagonista, Jack (David Corenswet). O rapaz, que est\u00e1 prestes a ser pai (algo que \u00e9 \u201cresolvido\u201d posteriormente), faz o mais perfeito tipo \u201call american boy\u201d, com o sorriso encantador e porte atl\u00e9tico. Contudo, a beleza de Jack, como o roteiro faz quest\u00e3o de ressaltar, n\u00e3o \u00e9 um passaporte garantido para o sucesso. Amargando fracassos, o rapaz se v\u00ea \u201cobrigado\u201d a entrar no time do dreamland, uma casa de gigol\u00f4s disfar\u00e7ada de posto de gasolina sob o comando de Ernie (Dylan McDermott).<\/p>\n<p>Para \u201cfugir\u201d dos programas com outros homens, Jack tem a ideia de convidar um \u201camigo\u201d abertamente gay, Archie (Jeremy Pope), que tamb\u00e9m passa por dificuldades financeiras e acaba aceitando o novo emprego. Em um dos programas, Archie acaba conhecendo, e se apaixonando, por Rock (Jake Picking).<\/p>\n<figure id=\"attachment_14101\" aria-describedby=\"caption-attachment-14101\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14101\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/4.jpg\" alt=\"Hollywood\" width=\"1200\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/4.jpg 1200w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/4-300x163.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/4-768x416.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/4-1024x555.jpg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/4-550x298.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/4-230x125.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14101\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Imdb (em imdb.com) &#8211; Ray, Archie, Jack e Rock<\/figcaption><\/figure>\n<p>Todos esses personagens t\u00eam alguma liga\u00e7\u00e3o forte com o cinema. Enquanto Jack sonha em ser ator, Ernie foi um int\u00e9rprete, que agora amarga o fracasso e o esquecimento. Archie sonha em ser um grande roteirista, algo dificultado pelo fato de ser negro e gay. Rock tamb\u00e9m sonha em ser um grande ator ap\u00f3s a inf\u00e2ncia complicada no interior norte-americano.<\/p>\n<p>Somado a esses, os epis\u00f3dios de <em>Hollywood<\/em> (sete no total) acrescentam ainda mais personagens. A come\u00e7ar por Ray (Darren Criss) \u2014 percebam como grande parte do elenco faz parte do \u201cclube Murphy\u201d de outras s\u00e9ries \u2014, um jovem e sonhador diretor que deseja fazer uma estreia de arromba em Hollywood. Branco, h\u00e9tero e bonito, Ray vive os privil\u00e9gios da d\u00e9cada de ouro da cidade (apesar de se sentir parte da minoria, gra\u00e7as a descend\u00eancia filipina). Ray namora a talentosa Camille (Laura Harrier), uma atriz negra que frequentemente sofre limita\u00e7\u00f5es na carreira pela cor da pele, e apostar\u00e1 tudo para ser a protagonista do novo projeto do namorado.<\/p>\n<p>Pelos est\u00fadios do marido de Avis (Patti LuPone) \u2014 o homem machista sofre um infarto e deixa a mulher no comando da empresa \u2014, Ray entra em contato com o roteiro que Archie escreveu sobre uma atriz que simplesmente n\u00e3o consegue o sucesso que Hollywood sempre prometeu e acaba cometendo suic\u00eddio no famoso letreiro. <em>Peg<\/em>, que depois vir\u00e1 <em>Meg<\/em>, \u00e9 o projeto que reunir\u00e1 todos os personagens da trama.<\/p>\n<p>\u00c9 importante citar ainda Henry (Jim Parsons), um agente completamente detest\u00e1vel que abusa sexualmente dos atores para emplacar grandes sucessos. O homem \u00e9 o agente de Rock e trava uma batalha contra Ellen (Holland Taylor) e Dick (Joe Mantello) \u2014 dois executivos do est\u00fadio \u2014 pela participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o do filme. Ainda h\u00e1 na narrativa Samara Weaving interpretando a jovem Claire, filha de Avis, que tamb\u00e9m sonha em ser atriz e disputar\u00e1 o protagonismo de <em>Meg<\/em> com Camille.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14102\" aria-describedby=\"caption-attachment-14102\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14102\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/5.jpg\" alt=\"Hollywood\" width=\"1200\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/5.jpg 1200w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/5-300x163.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/5-768x416.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/5-1024x555.jpg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/5-550x298.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/5-230x125.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14102\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Imdb (em imdb.com) &#8211; Henry \u00e9 um dos personagens mais detest\u00e1veis da hist\u00f3ria<\/figcaption><\/figure>\n<h3>Muita gente, poucos epis\u00f3dios<\/h3>\n<p>Sim, \u00e9 gente que n\u00e3o acaba mais, especialmente tendo em vista o pouco n\u00famero de epis\u00f3dios totais \u2014 e quem assistir perceber\u00e1 a presen\u00e7a de ainda outros personagens recorrentes. Mas isso n\u00e3o \u00e9 algo feito de forma desleixada. <em>Hollywood<\/em> vai apresentando cada personagem ao longo de toda a trama (Henry, por exemplo, \u00e9 muito importante, mas s\u00f3 aparece l\u00e1 para a metade da hist\u00f3ria). No fim das contas, \u00e9 como se cada personagem chegasse no momento certo para compor os \u201cgalhos\u201d de <em>Meg<\/em>, e por mais que sejam muitos, seria um erro dizer que todos esses personagens sejam superficiais, ou mal aprofundados.<\/p>\n<p>Contudo, a equa\u00e7\u00e3o sofre duras penas. O grande n\u00famero de personagens acaba tirando o protagonismo de Jack de forma brutal. Em determinados momentos, a hist\u00f3ria do homem parece ser apenas o de mais um figurante, especialmente com a chegada, e import\u00e2ncia, de Henry. Essa \u201cfalta\u201d de liga\u00e7\u00e3o com um protagonista deixa a s\u00e9rie mais morna.<\/p>\n<h3>O protagonismo negro<\/h3>\n<p>A grande sinopse da s\u00e9rie \u00e9 lan\u00e7ar foco sobre um importante momento da hist\u00f3ria do cinema: o primeiro protagonismo de uma mulher negra em um grande filme comercial de Hollywood. A gana de Ellen e Dick em tentar mudar a hist\u00f3ria do cinema para algo mais diverso encontra a vontade de Avis em mudar o comando mis\u00f3gino que o marido empreendeu no cinema norte-americano. Os desafios n\u00e3o ser\u00e3o poucos, pelo contr\u00e1rio. Mas o time de<em> Meg<\/em> segue firme no dever de fazer um filme que pode mudar a hist\u00f3ria de Hollywood.<\/p>\n<p>Dentro dessa biografia, as injusti\u00e7as da \u201ccidade dos sonhos\u201d s\u00e3o retratadas por meio do abuso sexual que cada pessoa com poder exercia sobre os novatos. Em <em>Hollywood<\/em>, o roteiro aposta quase 100% nos abusos praticados a homens.<\/p>\n<p>O \u201cestilo Ryan Murphy\u201d tamb\u00e9m \u00e9 um trunfo de <em>Hollywood<\/em>. O roteiro r\u00e1pido se transforma em tiradas bem divertidas e din\u00e2micas, ajudando a prender a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Soma-se a isso as boas atua\u00e7\u00f5es, com destaque gigante a Jim Parson.<\/p>\n<h3>Detalhe importante<\/h3>\n<p>Mesmo que adaptados, alguns dos personagens vistos em na s\u00e9rie de fato existiram em Hollywood. Henry e Rock, por exemplo, s\u00e3o reais (o segundo, inclusive, foi uma das primeiras grandes celebridades a morrer de Aids, ainda na d\u00e9cada de 1980).<\/p>\n<figure id=\"attachment_14103\" aria-describedby=\"caption-attachment-14103\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14103\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/2.jpg\" alt=\"Hollywood\" width=\"1200\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/2.jpg 1200w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/2-300x163.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/2-768x416.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/2-1024x555.jpg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/2-550x298.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2020\/06\/2-230x125.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14103\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Imdb (em imdb.com) &#8211; A conex\u00e3o dos personagens com a realidade \u00e9 ponto forte da produ\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O ponto \u00e9 saber dessas pequenas conex\u00f5es com a realidade deixa <em>Hollywood<\/em> mais viva e interessante de se acompanhar (especialmente no \u00faltimo epis\u00f3dio, com a cerim\u00f4nia do Oscar com trechos reais). O problema, entretanto, \u00e9 que uma parte muito pequena do p\u00fablico tem conhecimento dessas \u201cconex\u00f5es\u201d, e o roteiro simplesmente parece n\u00e3o se importar muito com isso.<\/p>\n<h3>Mais uma &#8220;Hollywood&#8221;<\/h3>\n<p>No final de<em> Hollywood,\u00a0<\/em>o p\u00fablico acompanha um triunfo narrativo quase infantil. <em>Meg<\/em> n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 conclu\u00eddo, como vira um grande sucesso. E se nos epis\u00f3dios iniciais a promessa era de muita briga entre os personagens, o final entrega todo mundo se amando e sendo pessoas melhores. Camille ganha o Oscar de melhor atriz e v\u00e1rios outros colegas de elenco a acompanham. O fim da s\u00e9rie deixa a promessa de uma Hollywood mais diversa e aberta.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, entretanto, isso beira a inverdade. Em mais de 80 anos de cinema, apenas uma mulher negra ganhou o Oscar de melhor atriz: Halle Berry, em 2002. Homens e mulheres homossexual ainda se escondem por medo de perderem pap\u00e9is importantes. O movimento #MeToo, em pleno 2017, mostrou que os ass\u00e9dios n\u00e3o s\u00e3o apenas hist\u00f3ria. Esse \u201cotimismo\u201d em rela\u00e7\u00e3o a Hollywood \u00e9 algo que poderia ser melhor trabalhado.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do cinema j\u00e1 foi enredo para muitas produ\u00e7\u00f5es, logo, o desafio de n\u00e3o ser \u201capenas mais uma\u201d \u00e9 maior ainda.<em> Hollywood<\/em>, no fim das contas, n\u00e3o consegue ultrapassar tal desafio. Tem momentos interessantes, mas ainda se encontra na m\u00e9dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Produ\u00e7\u00e3o da Netflix, Hollywood re\u00fane time de astros para contar importante momento da S\u00e9tima arte. 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