{"id":22685,"date":"2023-04-16T06:15:16","date_gmt":"2023-04-16T09:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/?p=22685"},"modified":"2023-05-31T15:30:52","modified_gmt":"2023-05-31T18:30:52","slug":"naruna-costa-comenta-sobre-a-importancia-do-proprio-papel-em-todas-as-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/naruna-costa-comenta-sobre-a-importancia-do-proprio-papel-em-todas-as-flores\/","title":{"rendered":"Naruna Costa comenta sobre a import\u00e2ncia do pr\u00f3prio papel em Todas as flores"},"content":{"rendered":"<h3>A atriz explicou como Lila\u00a0impacta mulheres que vivem o mesmo drama da personagem.\u00a0Na novela, com segunda temporada no ar no Globoplay, Lila enfrenta o machismo do marido e outros tabus ligados ao desejo sexual<\/h3>\n<p><strong>Por Patrick Selvatti<\/strong><\/p>\n<p>A novela <em>Todas as flores<\/em> \u2014 que est\u00e1 com a segunda temporada no ar desde 5 de abril \u2014 \u00e9 um fen\u00f4meno de audi\u00eancia e repercuss\u00e3o. Produzida para o streaming e exibida no <strong><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/tag\/globoplay\/\">Globoplay<\/a><\/strong>, a obra de Jo\u00e3o Emanuel Carneiro \u2014 consagrado autor de Avenida Brasil \u2014 apresenta tramas densas, personagens repletos de camadas, reviravoltas inesperadas e um elenco robusto. Entre nomes consagrados como Regina Cas\u00e9, F\u00e1bio Assun\u00e7\u00e3o, Sophie Charlotte e Caio Castro, a produ\u00e7\u00e3o traz rostos novos e alguns nem tanto, mas, at\u00e9 ent\u00e3o, pouco conhecidos do grande p\u00fablico. \u00c9 o caso da atriz Naruna Costa, 40 anos, que tem na personagem, Lila, a oportunidade de estar em um papel de destaque em uma telenovela ap\u00f3s participa\u00e7\u00f5es menos destacadas em produ\u00e7\u00f5es como <em>Tempos Modernos<\/em> (2010), <em>Insensato cora\u00e7\u00e3o<\/em> (2022) e <em>Deus salve o rei<\/em> (2018).<\/p>\n<p>Integrante do n\u00facleo principal, a personagem de Naruna em Todas as flores \u00e9 uma mulher rica, casada e bem-sucedida que \u00e9 inserida em uma das principais vingan\u00e7as que movimentam a hist\u00f3ria. Lila \u00e9 seduzida pelo mocinho Diego (Nicollas Prattes), um rapaz bem mais jovem que envolve m\u00e3e e filha \u2014 Joy (Yara Charry) \u2014 em uma teia para atingir o marido e pai delas, Lu\u00eds Felipe (C\u00e1ssio Gabus Mendes). O romance de Lila e Diego, entretanto, vai al\u00e9m da motiva\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a do rapaz. Em entrevista \u00e0 Revista do Correio, a atriz descreve a pulada de cerca da personagem como um grito de liberta\u00e7\u00e3o da mulher que, no auge dos 40 anos, se v\u00ea oprimida sexualmente pelo marido machista. &#8220;Ela realmente enxerga a possibilidade de as mulheres serem ainda mais livres do que aparentam ser hoje em dia&#8221;, define a atriz, formada na Escola de Arte Dram\u00e1tica (EAD) da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo (ECA\/USP).<\/p>\n<p>Naruna tamb\u00e9m celebra o fato de sua personagem \u2014 uma advogada bem de vida, casada com um homem branco e poderoso \u2014 estar sob uma pele negra, contrariando o que rezava a cartilha da teledramaturgia at\u00e9 pouco tempo. &#8220;\u00c9 recorrente, na teledramaturgia, que uma mulher como ela (a personagem Lila) fosse interpretada por uma atriz branca&#8221;, observa a atriz, que tem no curr\u00edculo o fato de ter dado vida a dois grandes \u00edcones negros femininos: Elza Soares, no musical Garrincha, dirigido pelo estadunidense Bob Wilson no teatro, e Angela Davis, no especial Falas negras, com dire\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro Ramos, na Globo.<\/p>\n<p>Essas mulheres fortes n\u00e3o s\u00e3o raras na carreira da atriz. Na s\u00e9rie Rotas do \u00f3dio, exibida na Universal Chanel e dirigida pela documentarista Susana Lira, Naruna interpreta a perita Guerra, que atua na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intoler\u00e2ncia de S\u00e3o Paulo. J\u00e1 em Irmandade, na Netflix, ela \u00e9 a estrela das duas temporadas da produ\u00e7\u00e3o dirigida por Pedro Morelli. No drama policial situado nos anos 1990, Cristina \u00e9 uma honesta promotora do Minist\u00e9rio P\u00fablico que enfrenta um dilema moral ao descobrir que seu irm\u00e3o (interpretado por Seu Jorge) lidera uma fac\u00e7\u00e3o criminosa e, ao tentar ajud\u00e1-lo, \u00e9 obrigada pela pol\u00edcia a trabalhar como informante. A atriz tamb\u00e9m pode ser vista, novamente ao lado de Seu Jorge, no filme Marighella, sob a dire\u00e7\u00e3o de Wagner Moura.<\/p>\n<p>Naruna tamb\u00e9m \u00e9 cofundadora do Espa\u00e7o Clari\u00f4 Tabo\u00e3o da Serra, em sua cidade natal, e do Grupo Clari\u00f4 de Teatro, refer\u00eancia da milit\u00e2ncia negra de cultura perif\u00e9rica da cidade de S\u00e3o Paulo. Dessa turma, surgiu as Clarianas, um coletivo de mulheres que se autodenominam cantadeiras urbanas e que permite \u00e0 atriz desenvolver um outro exerc\u00edcio: o canto. Al\u00e9m disso, Naruna \u00e9 diretora e, em 2018, foi a primeira mulher negra a receber o trof\u00e9u de melhor dire\u00e7\u00e3o teatral da Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte (APCA) pela pe\u00e7a Buraquinhos ou o vento \u00e9 inimigo do Picum\u00e3, que aborda o genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o preta no pa\u00eds. Confira a entrevista a seguir.<\/p>\n<h2>Entrevista com Naruna Costa<\/h2>\n<p><strong>At\u00e9 ent\u00e3o, seus pap\u00e9is de maior destaque foram no cinema \u2014 como em Marighella \u2014 e em s\u00e9ries \u2014 como Rotas do \u00d3dio e, especialmente, Irmandade, que lhe deu uma maior proje\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 estar em Todas as flores e ser reconhecida nacionalmente, hoje, por um trabalho na TV, j\u00e1 tendo uma estrada t\u00e3o longa?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito bom poder transitar entre as linguagens, n\u00e9? Porque exige uma musculatura na interpreta\u00e7\u00e3o. Eu gosto muito do cinema, que eu acho que \u00e9 um espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o de profundidade. J\u00e1 a TV tem uma linguagem diferente, e faz\u00ea-la tem sido uma escola realmente. Ainda mais nesse caso, que \u00e9 uma novela para o streaming, que tem uma conversa com esse formato s\u00e9rie tamb\u00e9m; ent\u00e3o, eu achei uma jornada bem bonita e interessante. Para mim, enquanto atriz, a possibilidade de investiga\u00e7\u00e3o atrai muito. A oportunidade de trabalho e de estudo mais profundos est\u00e1 sendo uma experi\u00eancia incr\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Sua personagem levanta uma bandeira importante contra o machismo e a favor do direito de uma mulher sentir desejo sexual e de ser amada e desejada, ainda que dentro do pr\u00f3prio casamento. Qual a import\u00e2ncia de se levar essa pauta para o debate em rede nacional, com a seriedade e delicadeza que o tema merece?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 superimportante esse papel da Lila. Essas falas de uma mulher que \u00e9 casada e que tem a sua autonomia, sua independ\u00eancia, e que n\u00e3o quer dialogar com essa estrutura machista que meio que forja o Brasil&#8230; S\u00e3o muito interessantes as descobertas que ela tem e tamb\u00e9m a maneira como ela vai articulando essa fala. Ela, realmente, enxerga a possibilidade de as mulheres serem mais livres ainda do que aparentam ser hoje em dia. Mesmo ela tendo uma uma rela\u00e7\u00e3o est\u00e1vel, sendo uma advogada, tendo uma certa liberdade, ainda existem muitas opress\u00f5es veladas que determinam um pouco como a mulher deve sentir. E a\u00ed essa quest\u00e3o que a Lila aponta, de continuar sexualmente ativa mesmo estando casada h\u00e1 muitos anos, tendo uma filha adulta, \u00e9 um tabu. E eu acho que ela faz isso de uma forma muito bonita.<\/p>\n<p><strong>Estamos vivendo, tardiamente, um boom de personagens negros em destaque na teledramaturgia. A Lila, por exemplo, poderia ter sido interpretada por uma atriz branca. Como voc\u00ea enxerga esse movimento?<\/strong><\/p>\n<p>A Lila foi um presente tamb\u00e9m nesse sentido, por termos sa\u00eddo dos estere\u00f3tipos. \u00c9 recorrente na teledramaturgia que uma mulher como ela fosse interpretada por uma atriz branca. O fato de a Lila ser negra, e essa n\u00e3o ser uma quest\u00e3o no enredo, eu acho revolucion\u00e1rio. Realmente, a gente precisa se acostumar. O racismo \u00e9 t\u00e3o profundo no Brasil que faz com que a gente n\u00e3o se d\u00ea conta do quanto nosso imagin\u00e1rio est\u00e1 corrompido. E esse caso \u00e9 uma quebra de imagin\u00e1rio muito grande. N\u00e3o debater sobre essa quest\u00e3o em cena j\u00e1 \u00e9 um passo a mais. Acho que, cada vez mais, essas possibilidades est\u00e3o se ampliando e eu reconhe\u00e7o, sim, que s\u00e3o muito lentos, mas existem caminhos, do pr\u00f3prio movimento negro, da sociedade como um todo, reconhecendo o racismo estrutural e se debru\u00e7ando sobre ele. Acredito que, daqui pra frente, a gente d\u00ea mais passos e n\u00e3o retroceda mais. Ent\u00e3o, que venham mais, muitos mais Lilas. A gente est\u00e1 falando de uma personagem dentro de uma telenovela que \u00e9 bastante pontual, pensando em toda a hist\u00f3ria mesmo da teledramaturgia brasileira. Que tenham muitos mais personagens com esses valores diferenciados do que a gente est\u00e1 acostumado, do que a gente chama de personagens estereotipados, que n\u00e3o est\u00e3o dentro de outras classes sociais, que est\u00e3o sempre submetidos a servir.<\/p>\n<p><strong>Conta um pouco sobre a experi\u00eancia de dar vida a Elza Soares no musical Garrincha, no teatro, e ter vivido Angela Davis no especial Falas negras, na Globo.<\/strong><\/p>\n<p>Essas experi\u00eancias foram muito marcantes para mim. \u00c9 muito dif\u00edcil representar personagens vivas, personagens que a gente tem uma admira\u00e7\u00e3o&#8230; No caso da Elza Soares, Garrincha era uma montagem do Bob Wilson, um diretor norte-americano que tem uma linguagem est\u00e9tica muito precisa, muito espec\u00edfica. A ideia n\u00e3o era nem de longe imitar a Elza Soares, chegar pr\u00f3ximo aos trejeitos dela, e, sim, represent\u00e1-la por esse lugar de grandiosidade. De diva mesmo. Essa era a perspectiva da dire\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o tem como tamb\u00e9m n\u00e3o se aprofundar cada vez mais. Mergulhar na hist\u00f3ria, nos trejeitos, na vida, no jeito da Elza foi muito especial. Ela foi assistir ao espet\u00e1culo, se emocionou muito, tivemos momentos muito maravilhosos no camarim ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o, de confid\u00eancias. Foi realmente muito especial pra mim. J\u00e1 a \u00c2ngela Davis nem se fala! \u00c9 uma das maiores refer\u00eancias, n\u00e9? No sentido do ativismo negro mundial. Foi um grande presente tamb\u00e9m que eu recebi do L\u00e1zaro (Ramos, diretor do especial). Nesse caso, sim, o estudo dos gestos eram bem importantes e foi muito lindo poder ver os v\u00eddeos antigos da \u00c2ngela, estudar esse modo de falar, as atitudes, os gestos, o f\u00edsico, as caracter\u00edsticas de cabelo, de roupa. Foi tudo muito bonito, muito profundo, e eu sou cheia de orgulho desse trabalho e muito feliz com o resultado tamb\u00e9m. Eu fui super bem dirigida e foi um lindo projeto que abriu o caminho para muitas falas.<\/p>\n<p><strong>E a Naruna cantora? A m\u00fasica pode se tornar uma carreira?<\/strong><\/p>\n<p>A Naruna cantora \u00e9 bastante ativa com o Grupo Clarianas. A gente est\u00e1 indo para o nosso terceiro disco e \u00e9 um espa\u00e7o muito precioso para mim. Ele n\u00e3o tem esse protagonismo como o meu caminho como atriz, mas ele est\u00e1 ali paralelo, assim como o meu trabalho como dire\u00e7\u00e3o. S\u00e3o outras fun\u00e7\u00f5es, outros exerc\u00edcios nos quais eu mergulho profundamente quando n\u00e3o estou filmando. Clarianas me deu essa oportunidade de exercitar a composi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, de exercitar o canto em coletivo, os cantos de trabalho. \u00c9 um lugar que me conecta muito com a minha ancestralidade negra, ind\u00edgena, que eu tenho muito orgulho. Estou investindo cada vez mais, \u00e9 um paralelo que n\u00e3o vai deixar de estar presente na minha trajet\u00f3ria. Sou muito orgulhosa e \u00e9 um lugar de que eu gosto muito. Ainda n\u00e3o tenho um trabalho solo, o meu trabalho com canto est\u00e1 sempre muito vinculado ao Clarianas, em momentos espec\u00edficos, em espet\u00e1culos ou trabalhos espec\u00edficos que exijam esse outro recurso do canto, mas ainda n\u00e3o tem um projeto solo. \u00c9 um desejo para mais pra frente. Talvez eu desenvolva a\u00ed um caminho tamb\u00e9m para estudar al\u00e9m das Clarianas, de cantora solo. Pode ser bonito tamb\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atriz explicou como Lila\u00a0impacta mulheres que vivem o mesmo drama da personagem.\u00a0Na novela, com segunda temporada no ar no Globoplay, Lila enfrenta o machismo do marido e outros tabus ligados ao desejo sexual Por Patrick Selvatti A novela Todas as flores \u2014 que est\u00e1 com a segunda temporada no ar desde 5 de abril \u2014 \u00e9 um fen\u00f4meno de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":146,"featured_media":22686,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[22,2331,5087,87,4768],"class_list":["post-22685","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-novela","tag-globo","tag-globoplay","tag-naruna-costa","tag-novela","tag-todas-as-flores"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22685","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/146"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22685"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22685\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22687,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22685\/revisions\/22687"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22686"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}