{"id":22748,"date":"2023-05-22T18:00:10","date_gmt":"2023-05-22T21:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/?p=22748"},"modified":"2023-05-31T15:30:07","modified_gmt":"2023-05-31T18:30:07","slug":"no-ar-em-vai-na-fe-o-ator-bruno-garcia-fala-sobre-carreira-e-preconceitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/no-ar-em-vai-na-fe-o-ator-bruno-garcia-fala-sobre-carreira-e-preconceitos\/","title":{"rendered":"Ap\u00f3s participa\u00e7\u00e3o em &#8216;Vai na f\u00e9&#8217; e na Dan\u00e7a dos famosos, o ator Bruno Garcia fala sobre os desafios da carreira"},"content":{"rendered":"<h3>No ar em participa\u00e7\u00f5es na novela Vai na f\u00e9 e na Dan\u00e7a dos famosos, o ator, escritor e diretor Bruno Garcia conta como combate, por meio dos trabalhos na TV, no cinema e no teatro, preconceitos enraizados na sociedade<\/h3>\n<p><strong>Por Patrick Selvatti<\/strong><\/p>\n<p>Bruno Garcia \u00e9 o que se pode chamar de um artista vers\u00e1til. Em cena \u2014 seja na televis\u00e3o, no teatro ou no cinema \u2014, ele interpreta mocinho e bandido, faz com\u00e9dia e drama, beija homens e mulheres, veste-se de mulher e encara at\u00e9 o desafio de participar de uma competi\u00e7\u00e3o de dan\u00e7a ao vivo em pleno domingo na tev\u00ea aberta. &#8220;Sou de uma gera\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o havia direcionamento de carreira. Eu fiz os pap\u00e9is que foram aparecendo e, at\u00e9 hoje, \u00e9 um pouco assim&#8221;, explica ele, que est\u00e1 no ar em uma participa\u00e7\u00e3o especial em <em>Vai na f\u00e9<\/em> \u2014 como par rom\u00e2ntico de Renata Sorrah \u2014 ao mesmo tempo em que encara, hoje, a fase de repescagem da <em>Dan\u00e7a dos famosos<\/em>, no Doming\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao <strong>Pr\u00f3ximo Cap\u00edtulo<\/strong>, o pernambucano de\u00a052 anos \u2014 que tamb\u00e9m \u00e9 escritor, roteirista e diretor \u2014 falou sobre carreira, etarismo, machismo, xenofobia e homofobia, que, segundo ele, s\u00e3o &#8220;barreiras impostas pelo mundo atual que precisam ser derrubadas&#8221;.<\/p>\n<h2>Entrevista com Bruno Garcia<\/h2>\n<p><strong>Voc\u00ea tem pap\u00e9is marcantes na com\u00e9dia, at\u00e9 porque possui um talento para o humor. Foi uma escolha consciente?<\/strong><\/p>\n<p>A comicidade foi algo natural, que apareceu no come\u00e7o da minha carreira. Eu comecei aos 11 anos de idade j\u00e1 no teatro profissional fazendo espet\u00e1culos destinados ao p\u00fablico infantil, que, em geral, traz j\u00e1 muito humor. Aos\u00a014, estava fazendo minha primeira pe\u00e7a no teatro adulto, tamb\u00e9m com humor ali envolvido. Ent\u00e3o, essa verve ficou evidente, muito pelos trabalhos que a pediam. No decorrer da minha carreira, foram aparecendo trabalhos tamb\u00e9m muito relacionados \u00e0 com\u00e9dia, mas n\u00e3o exatamente por uma escolha. \u00c9 muito dif\u00edcil voc\u00ea ser um int\u00e9rprete no Brasil, ent\u00e3o n\u00e3o tem aquela coisa que voc\u00ea tem em mercados mais organizados. Eu sou de um tempo em que n\u00e3o havia nada disso, voc\u00ea topava os trabalhos que apareciam.<\/p>\n<p><strong>A novela <em>Vai na f\u00e9<\/em> trata do etarismo por meio da personagem da Renata Sorrah.\u00a0Voc\u00ea sente alguma cobran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do estere\u00f3tipo de gal\u00e3?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um tema forte, necess\u00e1rio e urgente. \u00c9 uma anomalia da sociedade n\u00e3o considerar os mais velhos como os s\u00e1bios, que precisam ser ouvidos, com os quais aprendemos. Nas culturas ancestrais, os velhos s\u00e3o basti\u00f5es da sabedoria, \u00e9 onde a experi\u00eancia est\u00e1 depositada. Eles deveriam ser protegidos, amados e idolatrados, mas a sociedade moderna faz totalmente o oposto. \u00c9 um dos pontos que a gente precisa recuperar como seres humanos. Assim como o racismo, o machismo e a desigualdade social, o etarismo \u00e9 uma barreira imposta pelo mundo atual que precisa ser derrubada. Eu n\u00e3o sinto nenhuma cobran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a ser o gal\u00e3, porque n\u00e3o me considero com essa marca. Eu gosto da composi\u00e7\u00e3o, de me transformar e ser diferente de como eu naturalmente me apresento. Gosto de envelhecer e venero a condi\u00e7\u00e3o do mais velho, tenho um prazer imenso em amadurecer. Existem as limita\u00e7\u00f5es, a gente come\u00e7a a sentir no corpo, mas eu me considero jovial e com muita lenha para queimar. Agora eu come\u00e7o a perceber neste lugar do exemplo, isso me emociona. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o que me abale. \u00d3bvio que, para as mulheres, a cobran\u00e7a \u00e9 muito maior. N\u00e3o senti um vest\u00edgio qualquer dessa dificuldade que elas sentem em conseguir pap\u00e9is. O homem tem o privil\u00e9gio imenso de &#8220;envelhecer e ficar charmoso&#8221;, e com as mulheres a press\u00e3o e a cobran\u00e7a s\u00e3o muito maiores. A sociedade precisa aprender a venerar a beleza de uma mulher mais velha!<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea teve a oportunidade de participar, no in\u00edcio dos anos\u00a02000, de uma s\u00e9rie c\u00f4mica chamada <em>Sexo fr\u00e1gil?<\/em>, que abordava de maneira sat\u00edrica a quest\u00e3o da masculinidade diante do empoderamento feminino. O que sente que mudou de l\u00e1 pra c\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>Mudou muita coisa, para melhor,\u00a0mas ainda h\u00e1 um abismo gigantesco. Naquele momento, era uma novidade. Uma s\u00e9rie que colocava o homem no lugar fr\u00e1gil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pot\u00eancia que as mulheres t\u00eam. E numa \u00e9poca em que isso ainda n\u00e3o era abordado da maneira como \u00e9 hoje. Havia essa brincadeira com o t\u00edtulo, que \u00e9 sexo fr\u00e1gil, uma express\u00e3o em geral usada pra definir o sexo feminino de uma maneira pejorativa. A gente brincava, invertendo a express\u00e3o, mostrando que, no fundo, o sexo fr\u00e1gil \u00e9 o masculino, que tem a seu dispor toda uma gama de privil\u00e9gios e, mesmo assim, n\u00e3o consegue reconhecer esses privil\u00e9gios. Essa luta se intensificou e mudou, n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio que uma s\u00e9rie venha colocar essa quest\u00e3o como uma novidade, porque ela j\u00e1 se instaurou na sociedade, por mais que ainda haja entraves e resist\u00eancias com rela\u00e7\u00e3o a esse reconhecimento.<\/p>\n<p><strong>Acredita que essa obra envelheceu mal?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o acho que ela tenha envelhecido mal, mas n\u00e3o seria poss\u00edvel neste momento atual. H\u00e1 20 anos, a ideia era justamente provocar a reflex\u00e3o. Eles eram uns bund\u00f5es; elas, as estrelas, as inteligentes, empoderadas. Tinha uma brincadeira em reverenciar as mulheres atrav\u00e9s de nossas personas. Os quatro int\u00e9rpretes [Bruno Garcia, L\u00e1zaro Ramos, L\u00facio Mauro Filho e Wagner Moura] tinham uma vis\u00e3o muito reverente ao papel da mulher e \u00e0 import\u00e2ncia dela. Era uma esp\u00e9cie de homenagem em forma de provoca\u00e7\u00e3o para que os homens se colocassem no lugar delas. Era c\u00f4mico, mas a gente sempre levava muito a s\u00e9rio a composi\u00e7\u00e3o feminina, de forma bela e sofisticada, para evitar de todas as formas cair na caricatura. Foi uma brincadeira gostosa, mas reconhe\u00e7o que hoje n\u00e3o teria lugar.<\/p>\n<p><strong>Como foi dar vida a dois personagens homossexuais \u2014 nas s\u00e9ries <em>Nada ser\u00e1 como antes<\/em> e <em>Sob press\u00e3o<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre considero uma honra interpretar um personagem que escapa de uma vis\u00e3o manique\u00edsta, viciada e limitada. J\u00e1 melhorou, mas continua recorrente a ideia de que algu\u00e9m que gosta do mesmo sexo seja tratado de uma forma histri\u00f4nica, caricatural. \u00c9 mais uma barreira que precisamos derrubar. A quest\u00e3o da identidade de g\u00eanero, da orienta\u00e7\u00e3o sexual, tem a ver com liberdade humana, algo natural. J\u00e1 fomos muito melhores nessa rela\u00e7\u00e3o no mundo antigo. Meu pai \u00e9 bissexual e eu, desde crian\u00e7a, fui colocado com uma vis\u00e3o muito assertiva quanto \u00e0s liberdades sexuais. Agora, muita gente jovem se viu na mesma condi\u00e7\u00e3o do D\u00e9cio [de <em>Sob Press\u00e3o<\/em>], reconheceu-se em algu\u00e9m semelhante e percebeu a import\u00e2ncia da dramaturgia na vida das sociedades. E foi um beijo muito realista, de l\u00edngua,\u00a0algo in\u00e9dito na TV brasileira, que foi ao ar no mesmo dia em que o STF ratificou ser crime a homofobia. Foi regozijante poder fazer parte de um momento hist\u00f3rico da sociedade brasileira.<\/p>\n<p><strong>A Globo tem\u00a0escalado mais atores nordestinos em vez de colocar sulistas imitando o jeito de falar.\u00a0Hoje, debate-se a quest\u00e3o da neutraliza\u00e7\u00e3o do sotaque. Isso foi um problema para voc\u00ea no in\u00edcio da carreira?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o muito complexa. Eu acho que todo int\u00e9rprete tem que ter a capacidade de neutralizar sotaques, sendo nordestinos ou n\u00e3o. O que ocorre \u00e9 que, durante muito tempo, a hegemonia da televis\u00e3o criou a anomalia de utilizar apenas int\u00e9rpretes fora da regi\u00e3o retratada. Nordestinos eram sempre interpretados por atores que vinham de mais perto dos n\u00facleos centralizados de produ\u00e7\u00e3o, como Rio, S\u00e3o Paulo e Minas.\u00a0No meu caso, como havia essa possibilidade de eu ser taxado como um ator nordestino que s\u00f3 faria personagens nordestinos, eu tive, sim, um certo receio e procurava neutralizar o meu sotaque quando ia fazer testes, por exemplo. Fiquei\u00a0seguro em perceber que eu n\u00e3o seria visto como um ator a fazer pap\u00e9is de personagens que fossem egressos do mesmo lugar onde eu nasci. N\u00e3o que eu n\u00e3o quisesses essa rela\u00e7\u00e3o com o Nordeste, mas todo int\u00e9rprete precisa estudar bastante para fazer qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo.<\/p>\n<p><strong>Como tem sido a experi\u00eancia na <em>Dan\u00e7a dos famosos<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, que desafio! A dificuldade \u00e9 uma premissa, mas eu, na minha concep\u00e7\u00e3o, achava que ela seria f\u00edsica, quando a quest\u00e3o principal \u00e9 a psicol\u00f3gica, porque \u00e9 pouqu\u00edssimo tempo para algo sofisticado que voc\u00ea tem que apresentar uma \u00fanica vez, ao vivo, para ser escrutinado, ser julgado por notas, e aquilo realmente te deixa numa posi\u00e7\u00e3o muito vulner\u00e1vel. \u00c9 um desafio que est\u00e1 sendo \u00f3timo, porque \u00e9 sempre bom sair da zona de conforto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No ar em participa\u00e7\u00f5es na novela Vai na f\u00e9 e na Dan\u00e7a dos famosos, o ator, escritor e diretor Bruno Garcia conta como combate, por meio dos trabalhos na TV, no cinema e no teatro, preconceitos enraizados na sociedade Por Patrick Selvatti Bruno Garcia \u00e9 o que se pode chamar de um artista vers\u00e1til. 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