{"id":24889,"date":"2025-04-14T21:56:05","date_gmt":"2025-04-15T00:56:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/?p=24889"},"modified":"2025-04-16T10:13:45","modified_gmt":"2025-04-16T13:13:45","slug":"analise-vale-tudo-e-um-classico-harmonizado-e-descaracterizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/analise-vale-tudo-e-um-classico-harmonizado-e-descaracterizado\/","title":{"rendered":"An\u00e1lise: &#8220;Vale tudo&#8221; \u00e9 um cl\u00e1ssico harmonizado&#8230; e descaracterizado"},"content":{"rendered":"<h3>\u00c9 compreens\u00edvel que a produ\u00e7\u00e3o seja rejuvenescida, mas \u00e9 imperdo\u00e1vel que se &#8220;botoxize&#8221; a obra ic\u00f4nica de Gilberto Braga at\u00e9 que se assemelhe a um folhetim de Manoel Carlos<\/h3>\n<p><strong>Patrick Selvatti<\/strong><\/p>\n<div>\n<p>Ap\u00f3s duas semanas no ar, imp\u00f5e-se uma constata\u00e7\u00e3o: a interpreta\u00e7\u00e3o ainda carente de matura\u00e7\u00e3o de Bella Campos no papel de Maria de F\u00e1tima n\u00e3o configura o principal entrave do remake de <em>Vale tudo<\/em>. Compar\u00e1-la a Gl\u00f3ria Pires \u2014 j\u00e1 ent\u00e3o com duas d\u00e9cadas de trajet\u00f3ria art\u00edstica em 1988 \u2014 evidencia, de fato, suas limita\u00e7\u00f5es. No entanto, a jovem atriz, embora desejosa de maior refinamento, cumpre, com dignidade, os preceitos b\u00e1sicos do of\u00edcio. O cerne da problem\u00e1tica reside no texto adaptado por Manuela Dias.<\/p>\n<p>A narrativa concebida por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bass\u00e8res em 1988 foi um retrato v\u00edvido de sua era: um Brasil em transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, assolado por dilemas econ\u00f4micos e feridas sociais profundas. Ainda assim, a ess\u00eancia de <em>Vale tudo<\/em> transcende sua \u00e9poca. \u00c9 ineg\u00e1vel que muitas circunst\u00e2ncias tidas como naturais \u00e0quele tempo hoje se revelam anacr\u00f4nicas, at\u00e9 mesmo repulsivas. Contudo, n\u00e3o houve uma transforma\u00e7\u00e3o sociocultural t\u00e3o radical a ponto de justificar a convers\u00e3o de um drama denso e provocativo em um folhetim brando e ass\u00e9ptico inadequado ao hor\u00e1rio p\u00f3s-<em>Jornal Nacional<\/em>.<\/p>\n<p>O que se v\u00ea \u00e9 um processo de \u201charmoniza\u00e7\u00e3o\u201d da obra original. \u00c9 compreens\u00edvel \u2014 at\u00e9 desej\u00e1vel \u2014 que a produ\u00e7\u00e3o seja rejuvenescida, mas \u00e9 artisticamente imperdo\u00e1vel que se &#8220;botoxize&#8221; a obra ic\u00f4nica \u2014 um cl\u00e1ssico \u2014 de Gilberto Braga \u2014 com suas marcas inconfund\u00edveis \u2014 at\u00e9 que, com est\u00e9tica solar e conflitos aburguesados girando em torno de uma m\u00e3e abnegada e uma filha ingrata,\u00a0a novela se assemelhe a um folhetim de Manoel Carlos \u2014 por melhor que eles fossem. A <em>Brasil<\/em> cantada por Gal Costa e a abertura propriamente dita se mant\u00e9m, mas a letra da can\u00e7\u00e3o do Cazuza e as imagens que permeiam o clipe referem-se a uma outra novela, que \u2014 \u00e9 inequ\u00edvoco afirmar \u2014 n\u00e3o est\u00e1 sendo exibida. Teria sido melhor terem programado uma bossa nova de Tom Jobim sobre imagens de fotos antigas de m\u00e3e e filha ao longo da vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode apontar com precis\u00e3o se a responsabilidade recai sobre a autora, a dire\u00e7\u00e3o ou as inst\u00e2ncias superiores da emissora, mas o que se apresenta \u00e9 uma vers\u00e3o suavizada de <em>Vale tudo<\/em> \u2014 perfeitamente palat\u00e1vel \u00e0 faixa das 18h, por que n\u00e3o? A atualiza\u00e7\u00e3o promove uma sucess\u00e3o de cenas que causam a inc\u00f4moda sensa\u00e7\u00e3o de desalinho narrativo, como se algo essencial estivesse irremediavelmente fora de lugar. Algo como: &#8220;eu te conhe\u00e7o, mas voc\u00ea n\u00e3o era bem assim&#8230;&#8221; quando se reencontra um velho amigo e percebe-se, nas pequenas sutilezas, que ele era prefer\u00edvel ao natural, sem os equivocados procedimentos est\u00e9ticos realizados.<\/p>\n<p>Um indicativo dessa esteriliza\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica \u00e9 a dilui\u00e7\u00e3o dos temas sociais, outrora abordados com contund\u00eancia. Salvo a trajet\u00f3ria de Raquel \u2014 interpretada com vigor e sutileza por Ta\u00eds Ara\u00fajo e cuja narrativa e intensidade permanecem quase intactas \u2014, nos perguntamos em que outro ponto a nova vers\u00e3o permanece fiel ao esp\u00edrito original? A espinha dorsal da trama persiste, mas revestida por um verniz que fragiliza o texto e esvazia personagens outrora complexos.<\/p>\n<p>O temor de atribuir atitudes politicamente incorretas aos protagonistas masculinos, por exemplo, resulta em figuras empobrecidas, esvaziadas de sua ambival\u00eancia humana. Veja-se Afonso, vivido por Humberto Carr\u00e3o, que perde sua natureza mimada e possessiva para dar lugar a um namorado melanc\u00f3lico, excessivamente sens\u00edvel e engajado em causas sociais \u2014 uma reformula\u00e7\u00e3o que elimina camadas realistas e esmaece sua for\u00e7a dram\u00e1tica. Assim como o desfecho da passagem de Franklin (Samuel Melo), amigo de C\u00e9sar (Cau\u00e3 Reymond), ao ser expulso pelo dono do apartamento que os dois ocupavam. Na vers\u00e3o original,\u00a0o homem se mostra furioso e impiedoso com Maria de F\u00e1tima, mas acolhe o rapag\u00e3o sarado revelando segundas inten\u00e7\u00f5es.\u00a0 Nesta, Franklin sequer se despede, tampouco se explicita uma intera\u00e7\u00e3o sexual entre ele e o propriet\u00e1rio do im\u00f3vel. Sutilezas que denunciam um inescap\u00e1vel receio de polemizar&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-24877\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2025\/04\/assets_fotos_1235_vale-tudo-a-sua-proxima-novela-das-nove-c745a887fd5a1.jpg\" alt=\"\" width=\"996\" height=\"520\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2025\/04\/assets_fotos_1235_vale-tudo-a-sua-proxima-novela-das-nove-c745a887fd5a1.jpg 996w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2025\/04\/assets_fotos_1235_vale-tudo-a-sua-proxima-novela-das-nove-c745a887fd5a1-300x157.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2025\/04\/assets_fotos_1235_vale-tudo-a-sua-proxima-novela-das-nove-c745a887fd5a1-768x401.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2025\/04\/assets_fotos_1235_vale-tudo-a-sua-proxima-novela-das-nove-c745a887fd5a1-800x418.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2025\/04\/assets_fotos_1235_vale-tudo-a-sua-proxima-novela-das-nove-c745a887fd5a1-550x287.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-content\/uploads\/sites\/27\/2025\/04\/assets_fotos_1235_vale-tudo-a-sua-proxima-novela-das-nove-c745a887fd5a1-230x120.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 996px) 100vw, 996px\" \/><\/p>\n<p>Leila (Carolina Dieckmann) e Bruno (Miguel Moro): din\u00e2mica familiar enfraquecida | Globo\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais grave, contudo, \u00e9 o caso de Ivan. O protagonista de Renato G\u00f3es se resume a um homem de 40 anos frustrado profissionalmente, que passa in\u00fameros cap\u00edtulos fugindo do pai \u2014 um Bartolomeu mais inconveniente que o original \u2014 para esconder sua in\u00e9pcia. A virilidade inquieta e contestadora do Ivan de Ant\u00f4nio Fagundes, vis\u00edvel at\u00e9 na imposta\u00e7\u00e3o vocal, foi substitu\u00edda por uma postura submissa, quase ap\u00e1tica. A cr\u00edtica ao sistema capitalista, ao desemprego estrutural e \u00e0s formas veladas de ass\u00e9dio moral e at\u00e9 a sagacidade natural das criaturas geradas pelo genial Gilberto Braga foram, at\u00e9 o momento, solenemente negligenciadas. Ao inv\u00e9s da indigna\u00e7\u00e3o ardente e da mal\u00edcia oportunista do personagem, vemos um burocrata que clama para que o superior leia seu relat\u00f3rio \u2014 sem sequer suspeitar da participa\u00e7\u00e3o dele na corrup\u00e7\u00e3o que insiste em denunciar.<\/p>\n<p>A personagem Leila, outrora assassina de Odete Roitman e piv\u00f4 de cenas memor\u00e1veis, perdeu por completo sua relev\u00e2ncia. Na pele de Carolina Dieckmann, a figura antes interpretada com intensidade por C\u00e1ssia Kiss tornou-se mero adorno. Suas falas incisivas e seus confrontos com Ivan \u2014 fundamentais para o desenvolvimento emocional do protagonista, inclusive \u2014 foram substitu\u00eddos por uma presen\u00e7a discreta e quase ornamental. At\u00e9 mesmo sua intera\u00e7\u00e3o inicial com Marco Aur\u00e9lio (Alexandre Nero, muito bem, por sinal) e Renato Filipelli (Jo\u00e3o Vicente de Castro) \u2014 que deveria delinear um tri\u00e2ngulo amoroso \u2014 foi eliminada, at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro fator preocupante, ali\u00e1s, \u00e9 o esvaziamento de personagens coadjuvantes de import\u00e2ncia substancial. Al\u00e9m da pr\u00f3pria Leila \u2014 com a sua int\u00e9rprete de peso rebaixada inclusive nos cr\u00e9ditos de abertura \u2014, outras figuras foram relegadas \u00e0 margem. Onde est\u00e1 o otimismo exacerbado de Poliana (Matheus Nachtergaele), que gerou, inclusive, seu apelido ex\u00f3tico? E a gula sexual de Alde\u00edde (Karine Teles), uma not\u00e1vel devorada de homens jovens e sarados de praia, que a leva a hesitar quando recebe o pedido de casamento de um milion\u00e1rio bem mais velho? De que adianta alardear a sobreviv\u00eancia de um casal l\u00e9sbico se Cec\u00edlia (Maeve Jinkings) e La\u00eds (Lorena Lima) mal possuem tempo de tela? \u00c9 receio da rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico conservador que tamb\u00e9m pode anular a dupla? E o que restou do mordomo Eug\u00eanio (Lu\u00eds Sal\u00e9m), antes um cin\u00e9filo encantador e agora reduzido a um servo monoc\u00f3rdico, em participa\u00e7\u00f5es epis\u00f3dicas e destitu\u00eddas de brilho?<\/p>\n<p>Por que transformar personagens t\u00e3o luminosos em meros figurantes? Adaptar de 1988 para 2025 n\u00e3o \u00e9 uma justificativa! Ainda mais tendo o privil\u00e9gio de ostentar no elenco artistas reconhecidamente valiosos.<\/p>\n<p>\u00c0 luz dessas considera\u00e7\u00f5es, \u00e9 necess\u00e1rio revisitar uma analogia feita no in\u00edcio. Para se assemelhar a uma novela de Manoel Carlos, n\u00e3o basta exibir um Rio de Janeiro id\u00edlico, colorido e solar, permeado por dramas cotidianos. Afinal, at\u00e9 mesmo os personagens de &#8220;Maneco&#8221; apresentam maior densidade psicol\u00f3gica do que os arqu\u00e9tipos gen\u00e9ricos que povoam esta vers\u00e3o quase an\u00eamica de<em> Vale tudo<\/em>.<\/p>\n<p>A expectativa segue concentrada na chegada de Odete Roitmann, a perversa vil\u00e3 que marcou a hist\u00f3ria da teledramaturgia. O que \u00e9 um inc\u00eandio de grandes propor\u00e7\u00f5es prestes a ser ativado. Afinal, por mais que Debora Bloch seja uma veterana inegavelmente apta a segurar o peso de uma personagem t\u00e3o ic\u00f4nica, quase mitol\u00f3gica, haja estofo para salvar um texto com uma abordagem t\u00e3o oca.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 compreens\u00edvel que a produ\u00e7\u00e3o seja rejuvenescida, mas \u00e9 imperdo\u00e1vel que se &#8220;botoxize&#8221; a obra ic\u00f4nica de Gilberto Braga at\u00e9 que se assemelhe a um folhetim de Manoel Carlos Patrick Selvatti Ap\u00f3s duas semanas no ar, imp\u00f5e-se uma constata\u00e7\u00e3o: a interpreta\u00e7\u00e3o ainda carente de matura\u00e7\u00e3o de Bella Campos no papel de Maria de F\u00e1tima n\u00e3o configura o principal entrave do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":146,"featured_media":24890,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[3030,5571,2797,725,1526],"class_list":["post-24889","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-novela","tag-novela-das-21h","tag-novela-das-nove","tag-odete-roitmann","tag-remake","tag-vale-tudo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24889","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/146"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24889"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24889\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24900,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24889\/revisions\/24900"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24890"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24889"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24889"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24889"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}