{"id":25064,"date":"2025-10-12T09:52:43","date_gmt":"2025-10-12T12:52:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/?p=25064"},"modified":"2025-10-12T09:52:43","modified_gmt":"2025-10-12T12:52:43","slug":"analise-vale-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/analise-vale-mesmo\/","title":{"rendered":"An\u00e1lise: Vale mesmo?"},"content":{"rendered":"<h3>Manuela Dias imprimiu sua assinatura e resultou em um esvaziamento das camadas que faziam da trama um retrato complexo da sociedade brasileira<\/h3>\n<p><strong>Patrick Selvatti<\/strong><\/p>\n<p>Ao se propor a refazer <em>Vale tudo<\/em> \u2014 cl\u00e1ssico de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bass\u00e8res exibido originalmente em 1988 \u2014, a autora Manuela Dias (corajosa) assumiu um desafio que beirava o imposs\u00edvel: reviver, 37 anos depois, uma das novelas mais ic\u00f4nicas da teledramaturgia brasileira. N\u00e3o faltaram elenco engajado entregando o melhor, audi\u00eancia alta, repercuss\u00e3o nas redes sociais (principalmente com hatewatching) e faturamento publicit\u00e1rio recorde. Mas, em termos de qualidade dram\u00e1tica, a vers\u00e3o de 2025 n\u00e3o sobrevive \u00e0 compara\u00e7\u00e3o com o original \u2014 e tampouco se sustenta como obra aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>A escolha de Manuela Dias foi clara: imprimir sua assinatura, custe o que custar. O problema \u00e9 que essa decis\u00e3o resultou em um esvaziamento das camadas que faziam da trama um retrato complexo da sociedade brasileira. Personagens densos e contradit\u00f3rios foram achatados em caricaturas ou deslocados para lugares irrelevantes, transformando um mosaico sofisticado em uma colagem de ideias frouxas.<\/p>\n<p>O exemplo mais gritante \u00e9 o casal protagonista. Raquel e Ivan, agora vividos por Ta\u00eds Ara\u00fajo e Renato G\u00f3es, perderam a for\u00e7a de s\u00edmbolos da integridade diante da corrup\u00e7\u00e3o estrutural. O romance, antes constru\u00eddo em meio a dilemas \u00e9ticos, virou pano de fundo para cenas protocolares. Entre eles, Heleninha Roitman (Paolla Oliveira), que, apesar do esfor\u00e7o e do talento da atriz, n\u00e3o teve o complexo tri\u00e2ngulo amoroso bem explorado nem seu alcoolismo memor\u00e1vel vingou como antes.<\/p>\n<p>Do outro lado, Maria de F\u00e1tima e C\u00e9sar \u2014 Bella Campos e Cau\u00e3 Reymond (com direito a pol\u00eamicas de bastidores) \u2014, em vez de exporem a crueldade do oportunismo, foram tratados quase como duplinha c\u00f4mica (ou trio, se somarmos a eles o amigo Olavo, em uma \u00f3tima composi\u00e7\u00e3o do estreante no g\u00eanero Ricardo Teodoro), desperdi\u00e7ando o potencial cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Esse esvaziamento ficou escancarado na cena-chave da obra, em que Maria de F\u00e1tima, gr\u00e1vida e escorra\u00e7ada pelos Roitman, procura apoio da m\u00e3e, agora rica. O entrecho foi reescrito de forma t\u00e3o equivocada que descaracterizou seu sentido original: Raquel estava pobre, voltando a vender sandu\u00edche na praia, o que fazia da cena um choque de invers\u00e3o social. Ao retirar esse detalhe, a vers\u00e3o atual transformou um momento emblem\u00e1tico em um epis\u00f3dio qualquer. A pr\u00f3pria Ta\u00eds Ara\u00fajo declarou publicamente o descontentamento.<\/p>\n<p>O remake tamb\u00e9m trope\u00e7ou ao introduzir tramas paralelas que pouco conversam entre si. O casal l\u00e9sbico Cec\u00edlia e La\u00eds (Maeve Jinkins e Lorena Lima) foi mantido, mas, sem um arco consistente, virou figura\u00e7\u00e3o de luxo. A leucemia de Afonso (Humberto Carr\u00e3o) \u2014 trama inventada e sem nenhum valor dramat\u00fargico \u2014 tornou-se perif\u00e9rica, quase decorativa. M\u00e1rio S\u00e9rgio (Thomas Aquino) perdeu a for\u00e7a ao se tornar vil\u00e3o, em vez de fazer par com Solange (Alice Wegman), e esta\u00a0se viu atrelada a um enredo for\u00e7ado com o chefe Renato (Jo\u00e3o Vicente de Castro) enquanto o amado estava casado com sua rival arrivista. J\u00e1 o vil\u00e3o Marco Aur\u00e9lio (Alexandre Nero) virou um simp\u00e1tico queridinho do p\u00fablico ao desfiar falas de ass\u00e9dio e at\u00e9 Alde\u00edde (Karine Teles), que no original fica podre de rica e ganhava um espa\u00e7o inesperado no high society, agora continua a agir como pobre e metida em uma trama de novela das seis em que a m\u00e3e do seu boy (a sempre impec\u00e1vel Belize Pombal) rejeita o romance, anulando sua transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<ul>\n<li class=\"title-post\"><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/analise-quem-matou-odete-roitman-tera-o-mesmo-impacto\/\">An\u00e1lise: \u201cQuem matou Odete Roitman\u201d ter\u00e1 o mesmo impacto?<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>E, por fim, o maior equ\u00edvoco: Odete Roitman. Na interpreta\u00e7\u00e3o de D\u00e9bora Bloch (magistral, meu Deus, que atriz!), a personagem foi reinventada como uma devoradora de homens, uma m\u00e3e que abandona o filho que fica com graves sequelas ap\u00f3s um acidente (trama nova, boa, mas inveross\u00edmil) e at\u00e9 como serial killer, concentrando em si tanto protagonismo que o famoso mist\u00e9rio sobre sua morte perdeu impacto. O assassinato que, em 1988, paralisou o Brasil, veio na \u00faltima segunda-feira, mas virou apenas mais um cap\u00edtulo inflado por redes sociais e pela torcida de f\u00e3s que pediam que a vil\u00e3 n\u00e3o fosse morta. Ao endeusar Odete, a novela dissolveu o cerne de Vale tudo: a constata\u00e7\u00e3o amarga de que a corrup\u00e7\u00e3o e a falta de \u00e9tica atravessam todas as classes sociais.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que Manuela Dias entregou um produto de alt\u00edssimo alcance e rentabilidade \u2014 o que a emissora comemora, mesmo sob fortes cr\u00edticas. Mas \u00e9 igualmente ineg\u00e1vel que sua vers\u00e3o de <em>Vale tudo<\/em>\u00a0\u2014 que chega ao fim nesta sexta-feira (17\/10) \u2014 perdeu-se na tenta\u00e7\u00e3o de atualizar\u00a0a obra a qualquer custo, trocando densidade por espet\u00e1culo, dilema \u00e9tico por pol\u00eamica instant\u00e2nea (os beb\u00eas reborn mandam um al\u00f4!).<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um remake que n\u00e3o honra sua matriz nem constr\u00f3i uma identidade pr\u00f3pria marcante.\u00a0O p\u00fablico pode at\u00e9 ter vibrado com os memes e os trending topics, mas a hist\u00f3ria ficar\u00e1 registrada como uma oportunidade desperdi\u00e7ada. Afinal, entre se apropriar de um cl\u00e1ssico e recri\u00e1-lo com respeito, Manuela optou pela soberba \u2014 e transformou uma das novelas mais atemporais da nossa televis\u00e3o em um produto de temporada, fadado ao esquecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuela Dias imprimiu sua assinatura e resultou em um esvaziamento das camadas que faziam da trama um retrato complexo da sociedade brasileira Patrick Selvatti Ao se propor a refazer Vale tudo \u2014 cl\u00e1ssico de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bass\u00e8res exibido originalmente em 1988 \u2014, a autora Manuela Dias (corajosa) assumiu um desafio que beirava o imposs\u00edvel: reviver, 37 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":146,"featured_media":25067,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[5478,1738,725,1526],"class_list":["post-25064","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-novela","tag-manuela-dias","tag-quem-matou-odete-roitman","tag-remake","tag-vale-tudo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/146"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25064"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25064\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25070,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25064\/revisions\/25070"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25067"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/proximocapitulo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}