{"id":77,"date":"2018-05-26T17:23:16","date_gmt":"2018-05-26T17:23:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/segurancapublica\/?p=77"},"modified":"2018-05-26T17:23:16","modified_gmt":"2018-05-26T17:23:16","slug":"persistencia-do-confinamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/segurancapublica\/2018\/05\/26\/persistencia-do-confinamento\/","title":{"rendered":"A persist\u00eancia do confinamento"},"content":{"rendered":"<p><em>Em contribui\u00e7\u00e3o ao m\u00eas da luta antimanicomial, reproduzimos o artigo publicado no <strong>Justificando<\/strong>, escrito por Jacqueline Sinhoretto e Daniel Navarro Sonim<\/em><\/p>\n<p>Um rapaz de vinte e poucos anos, pobre, negro e analfabeto, tem dificuldades para se comunicar e n\u00e3o consegue executar tarefas simples, como amarrar os cadar\u00e7os dos sapatos nem empacotar compras no mercado onde faz bicos para sobreviver. Seus pais desconfiam que ele sofra de algum transtorno mental, mas n\u00e3o sabem ao certo qual \u00e9, porque nunca tiveram condi\u00e7\u00f5es de procurar um especialista. Os vizinhos o veem com uma pessoa tranquila que nunca se envolve em confus\u00f5es. Mas certo dia, ele foi levado pela pol\u00edcia a um pres\u00eddio e seus pais nunca entenderam porque isso aconteceu. O pai do rapaz \u00e9 amoroso e preocupado, mas depois da pris\u00e3o sua face, que estampou os jornais, mostrava dor e tristeza.<\/p>\n<p>Casos assim se repetem independente da institui\u00e7\u00e3o onde ocorre o confinamento: cadeias, hospitais psiqui\u00e1tricos, cl\u00ednicas p\u00fablicas e particulares para tratamento de dependentes qu\u00edmicos. O Juquery, localizado em Franco da Rocha, munic\u00edpio da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, por exemplo, completou 120 anos em 18 de maio de 2018 e, desde sua funda\u00e7\u00e3o recebeu milhares de indiv\u00edduos com os mais diversos diagn\u00f3sticos \u2013 ou n\u00e3o! \u2013 de doen\u00e7as mentais e transtornos psicol\u00f3gicos e psiqui\u00e1tricos. Segundo n\u00fameros oficiais, no apogeu da superlota\u00e7\u00e3o, esse complexo psiqui\u00e1trico teria abrigado 18 mil pacientes, o dobro de sua capacidade.<\/p>\n<p>Muitos deles chegavam ao Juquery em cambur\u00f5es da pol\u00edcia e n\u00e3o portavam qualquer tipo de documento. Ao ingressarem \u00e0 for\u00e7a naquele novo mundo ganhavam o uniforme com o n\u00famero e carimbo da institui\u00e7\u00e3o na camisa e perdiam o pouco que lhes restava de dignidade tendo os cabelos raspados e os dentes arrancados sem anestesia. Muitos prontu\u00e1rios, que se perderam em um inc\u00eandio ocorrido em 2005, tinham nomes como: Ignorado da Silva Um, Ignorado da Silva Dois e assim por diante. Carregavam a marca do sofrimento humano ao serem submetidos a tratamentos cru\u00e9is e desumanos que ao inv\u00e9s de promover al\u00edvio, causavam dor e agonia.<\/p>\n<p>Com o apoio incondicional do Governo do Estado de S\u00e3o Paulo, das elites industrial e cafeeira, da imprensa e concebido pelo m\u00e9dico psiquiatra Francisco Franco da Rocha, o Juquery nasceu com o intuito de criar um local, afastado da capital, para as pessoas que n\u00e3o se enquadravam nos padr\u00f5es de normalidade, porque o \u201clouco\u201d n\u00e3o podia fazer parte do cen\u00e1rio urbano. Em uma \u00e9poca em que S\u00e3o Paulo se desenvolvia gra\u00e7as \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o na capital e \u00e0 expans\u00e3o da lavoura cafeeira no interior, quem n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de trabalhar nas f\u00e1bricas ou na colheita do caf\u00e9 era considerado in\u00fatil e inferior, ou seja improdutivo. Esses indiv\u00edduos, doentes mentais, mendigos, prostitutas, alcoolatras, negros \u2013 escravos libertos \u2013 e imigrantes europeus e asi\u00e1ticos, que, sem ocupa\u00e7\u00e3o, iam acabar perambulando pelas ruas, eram conhecidos na \u00e9poca como alienados \u2013 n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o primeiro nome o Juquery foi Asilo de Alienados \u2013 e n\u00e3o deviam impedir o progresso nem se reproduzir e atrapalhar o avan\u00e7o de ra\u00e7as superiores. Para l\u00e1 tamb\u00e9m foram enviados gays e mulheres que n\u00e3o se adequavam aos padr\u00f5es do casamento e da maternidade, dos homens de bem.<\/p>\n<p>Se engana quem acha que esse discurso s\u00f3 estava presente na Alemanha Nazista. Ele se repetiu tanto em S\u00e3o Paulo como em outros estados nos quais existiam complexos psiqui\u00e1tricos n\u00e3o muito diferentes do Juquery, como o Hospital Col\u00f4nia de Barbacena, em Minas Gerais, e a Col\u00f4nia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Quando o Juquery completou um s\u00e9culo de exist\u00eancia, em 1998, o perfil dos pacientes n\u00e3o era muito diferente daquele da inaugura\u00e7\u00e3o. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o SOS Sa\u00fade Mental, dos 1.670 pacientes, apenas 25% eram doentes mentais. Os sobreviventes internados h\u00e1 d\u00e9cadas apenas comiam, dormiam e, \u00e0s vezes, iam aos p\u00e1tios tomar banho de sol. Queixas de m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o e falta de higiene eram constantes.<\/p>\n<p>Em 2017, uma conversa com um jovem usu\u00e1rio do Caps (Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial), em Parelheiros, bairro de S\u00e3o Paulo, mostrou como as pessoas que precisam de tratamento, principalmente na periferia, embora circulem com certa liberdade pela cidade, ainda vivem trancafiadas no estigma de louco que deve permanecer afastado das pessoas consideradas \u201cs\u00e3s\u201d. Contou que fazia tratamento psiqui\u00e1trico desde a adolesc\u00eancia sem deixar de tomar os rem\u00e9dios um dia sequer. Disse que estava feliz por causa da mudan\u00e7a de endere\u00e7o do Caps. \u201cEu tinha que passar na frente de um supermercado. Meus amigos podiam me ver e pensar que sou louco. Aqui \u00e9 mais longe de onde eu moro, mas posso vir tranquilo, porque sei que ningu\u00e9m vai me ver entrando aqui!\u201d, revelou.<\/p>\n<p>Enquanto isso, de volta a 2018, os pais do rapaz de vinte e poucos anos, pobre, negro e analfabeto l\u00e1 do primeiro par\u00e1grafo continuam sem entender porque ele foi levado pela pol\u00edcia a um pres\u00eddio. E os familiares dos pacientes que morreram no Juquery ao longo dos seus 120 anos de exist\u00eancia nunca v\u00e3o saber o que realmente aconteceu com seus entes queridos. Na madrugada de 17 de dezembro de 2005, um inc\u00eandio atingiu o setor administrativo e a biblioteca da institui\u00e7\u00e3o. O fogo queimou um vasto acervo de livros de psiquiatria e praticamente todos os prontu\u00e1rios m\u00e9dicos, reduzindo a cinzas a mem\u00f3ria dos pacientes que por l\u00e1 passaram.<\/p>\n<p>Quando se fala em sa\u00fade mental, ainda acontecem abusos, formas controversas de tratamento e in\u00fameros casos de interna\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, hoje estimuladas por projetos higienistas que se voltam contra moradores de rua e usu\u00e1rios de drogas. J\u00e1 nas pris\u00f5es, dos 665 mil detentos no Brasil, 221 mil (34%) esperam julgamento, muitos deles por anos a fio. A popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria no Brasil \u00e9 majoritariamente jovem, pobre, negra, de baixa escolaridade.<\/p>\n<p>Renato da Silva Moraes Junior \u00e9 o nome do rapaz que aparece no primeiro par\u00e1grafo deste artigo. Ele tem 23 anos e estava entre as 159 pessoas detidas em 7 de abril de 2018 durante uma festa em Santa Cruz, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, acusadas de envolvimento com a mil\u00edcia. Renato ficou preso at\u00e9 26 de abril e s\u00f3 foi solto ap\u00f3s ser submetido a uma avalia\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica. O subcoordenador de Defesa Criminal da Defensoria P\u00fablica do Rio, Ricardo Andr\u00e9, j\u00e1 tinha informado que Renato, embora n\u00e3o seja usu\u00e1rio de Caps, fazia acompanhamento em uma Cl\u00ednica da Fam\u00edlia, onde tinha sido diagnosticado com \u201cretardo mental leve\u201d. Durante o per\u00edodo em que permaneceu preso, de acordo com seus pais, foi privado de tomar a medica\u00e7\u00e3o receitada por seu m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Embora a luta antimanicomial tenha promovido in\u00fameros avan\u00e7os no Brasil, o confinamento continua estruturando nossas formas de pensar, agir e organizar o controle social. Se antes o confinamento era realizado em institui\u00e7\u00f5es como o Juquery, hoje o confinamento dos indesej\u00e1veis, dos que perturbam a ordem p\u00fablica, dos que devem ser afastados dos olhares e da conviv\u00eancia, dos improdutivos, \u00e9 realizado em centenas de pres\u00eddios superlotados pelo pa\u00eds todo.<\/p>\n<p>Metade da popula\u00e7\u00e3o prisional est\u00e1 confinada por crimes contra o patrim\u00f4nio e metade destes foram cometidas em a\u00e7\u00f5es sem o uso da viol\u00eancia. Um ter\u00e7o dos presos est\u00e1 confinado por envolvimento em com\u00e9rcio de entorpecentes il\u00edcitos, destes, a imensa maioria nunca empunhou uma arma de fogo. A pobreza \u2013 absoluta ou relativa \u2013 \u00e9 o que leva esses contingentes de jovens \u2013 na maioria negros \u2013 a tentar a vida em atividades ilegais. E a receita majorit\u00e1ria para lidar com os delitos de circula\u00e7\u00e3o da riqueza \u00e9 o confinamento. Especialmente num momento da hist\u00f3ria em que s\u00e3o derrotados os projetos pol\u00edticos que investem em direitos sociais como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura, renda. Pobres, pessoas com dist\u00farbios psicol\u00f3gicos e psiqui\u00e1tricos, deficientes e doentes mentais, ou apenas mentes ousadas, n\u00e3o t\u00eam como perspectiva usufruir da assist\u00eancia p\u00fablica \u00e0 sa\u00fade mental, ao emprego apoiado, \u00e0s alternativas de renda, ao desenvolvimento da cultura, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o social como forma de recriar sentidos para a vida.<\/p>\n<p>No interior dos pres\u00eddios sucedem-se as den\u00fancias de in\u00fameras formas de maus-tratos, que nunca s\u00e3o eliminados ou amenizados, nem mesmo com a for\u00e7a de organiza\u00e7\u00e3o e press\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es criminais. A realidade das institui\u00e7\u00f5es de confinamento em 2018 se assemelha \u00e0 do Juquery no passado: comida estragada, banho gelado, aus\u00eancia de lugares para dormir, aus\u00eancia de instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, doen\u00e7as comuns como sarna, tuberculose, infec\u00e7\u00f5es por piolhos. Pessoas com defici\u00eancias e doen\u00e7as mentais continuam sem medica\u00e7\u00e3o ou qualquer forma de assist\u00eancia. Adolescentes internados em unidades socioeducativas s\u00e3o entupidos de rem\u00e9dios com a finalidade de limitar suas capacidades de a\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia, para que fiquem calmos e n\u00e3o deem trabalho. A tortura f\u00edsica est\u00e1 no horizonte de todas as institui\u00e7\u00f5es de confinamento, seja por meio de celas de isolamento, do incentivo a rivalidades internas, ou da pura e simples porrada. Como se fazia antes, como se faz agora.<\/p>\n<p>O m\u00eas da luta antimanicomial tamb\u00e9m deve servir para nos darmos conta do qu\u00e3o arraigadas s\u00e3o as pr\u00e1ticas do confinamento com objetivos de controle social. \u00c9 impressionante como s\u00e3o similares os padr\u00f5es perversos do confinamento, que antes eram socialmente justificados em nome de livrar a sociedade dos loucos, e hoje continuam sendo praticados em formas muito semelhantes em nome de livrar os homens de bens dos criminosos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria se apaga, se transmuta, mas seus aspectos mais cru\u00e9is e dolorosos continuam se repetindo como se tempo nunca tivesse passado, no manic\u00f4mio ou na pris\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Jacqueline Sinhoretto \u2013 Soci\u00f3loga, professora de Sociologia da UFSCar e coordenadora do GEVAC. Autora do Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil<\/em><br \/>\n<em> Daniel Navarro Sonim \u2013 Jornalista, palestrante e escritor. Autor, junto com Walter Farias, do livro O Capa-Branca \u2013 de funcion\u00e1rio a paciente de um dos maiores hospitais psiqui\u00e1tricos do Brasil.<\/em><\/p>\n<p>Link para a postagem original no Justificando:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2018\/05\/24\/a-persistencia-do-confinamento\/\">http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2018\/05\/24\/a-persistencia-do-confinamento\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em contribui\u00e7\u00e3o ao m\u00eas da luta antimanicomial, reproduzimos o artigo publicado no Justificando, escrito por Jacqueline Sinhoretto e Daniel Navarro Sonim Um rapaz de vinte e poucos anos, pobre, negro e analfabeto, tem dificuldades para se comunicar e n\u00e3o consegue executar tarefas simples, como amarrar os cadar\u00e7os dos sapatos nem empacotar compras no mercado onde faz bicos para sobreviver. 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GEVAC-UFSCar. 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