{"id":10310,"date":"2018-09-07T20:50:49","date_gmt":"2018-09-07T23:50:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/?p=10310"},"modified":"2018-09-07T20:50:49","modified_gmt":"2018-09-07T23:50:49","slug":"sororidade-e-uma-arma-poderosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/sororidade-e-uma-arma-poderosa\/","title":{"rendered":"Sororidade \u00e9 uma arma poderosa"},"content":{"rendered":"<p><em>O termo pode ser considerado a vers\u00e3o feminina da fraternidade. Consiste no n\u00e3o julgamento pr\u00e9vio entre as pr\u00f3prias mulheres, que, na maioria das vezes, fortalecem estere\u00f3tipos preconceituosos, criados pela sociedade patriarcal. O tema \u00e9 recorrente. A sororidade vai al\u00e9m das lam\u00farias. N\u00e3o \u00e9 obra de feministas enraivecidas e estridentes, com \u00f3dio e sede de vingan\u00e7a aos machos opressores. A sororidade, dizem as especialistas, tem impactos no desempenho de uma na\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Aos 282 anos de idade, o Itamaraty, um dos mais conservadores \u00f3rg\u00e3os do Poder Executivo, criado em 28 de julho de 1736, passa por importante moderniza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de modifica\u00e7\u00e3o nas tarefas cl\u00e1ssicas da diplomacia e de servi\u00e7os consulares. Mas em m\u00e9todos e projetos para incentivar a entrada de mais mulheres em seus quadros. No total de cerca de 1,5 mil servidores, apenas 23% s\u00e3o mulheres (360). Embora incipiente, a proposta, de iniciativa das funcion\u00e1rias, j\u00e1 nasceu com a \u00e1rdua miss\u00e3o de derrubar resist\u00eancias \u2013 de homens e mulheres mais tradicionais -, com or\u00e7amento restrito e extraoficial e pelo esfor\u00e7o do Grupo de Mulheres Diplomatas, um coletivo criado em 2013 (congrega mais de 100 das 360 diplomatas). Somente em 2017 teve atua\u00e7\u00e3o mais contundente.<\/p>\n<p>\u201cSem d\u00favida, encontramos resist\u00eancias. Mas, desde o ano passado, por conta desse projeto de incentivo da entrada do p\u00fablico feminino, fizemos v\u00e1rios v\u00eddeos para orientar, n\u00e3o somente as mulheres que j\u00e1 passaram no concurso p\u00fablico, como aquelas que pretendem entrar no Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (MRE). Mostramos que quem quer seguir a carreira n\u00e3o est\u00e1 sozinha, n\u00e3o tem que abrir m\u00e3o da vida particular e que, juntas, teremos avan\u00e7os profissionais\u201d, contou a conselheira Ana Beatriz Nogueira, que tomou posse h\u00e1 15 anos. De produ\u00e7\u00e3o caseira, com o apoio da Associa\u00e7\u00e3o dos Diplomatas Brasileiros (ADB), o custo do material foi de pouco mais de R$ 35 mil.<\/p>\n<p>Os v\u00eddeos mostram diversidades geogr\u00e1fica, de ra\u00e7a, de forma\u00e7\u00e3o, entre outros itens. \u201cS\u00e3o brancas, negras, \u00edndias, do Norte, do Sul, de diferentes classes, estado civil, faixa et\u00e1ria e cren\u00e7as\u201d, explicou. A grande dificuldade dessas iniciativas, projetos e estudos \u2013 ao contr\u00e1rio das estat\u00edsticas econ\u00f4micas &#8211; ainda \u00e9 mensurar os resultados. \u201cN\u00e3o temos ainda como aquilatar. Estamos lutando para que a campanha n\u00e3o fique somente nessa edi\u00e7\u00e3o e que aconte\u00e7a todos os anos, t\u00e3o logo seja lan\u00e7ado o edital dos concursos para o MRE\u201d, afirmou Beatriz. Entre as iniciativas, est\u00e1 o document\u00e1rio \u201cUm S\u00e9culo de Mulheres na Diplomacia Brasileira\u201d, dirigido por Ivana Diniz, da Universidade de Londres, para comemorar o centen\u00e1rio do ingresso da primeira diplomata concursada do Brasil. (Veja mais detalhes: <a href=\"https:\/\/www.kickante.com.br\/campanhas\/documentario-mulheres-diplomatas\">https:\/\/www.kickante.com.br\/campanhas\/documentario-mulheres-diplomatas<\/a>)<\/p>\n<p>A desbravadora foi a baiana Maria Jos\u00e9 Rebello Mendes. Entrou no MRE, por concurso p\u00fablico, em 27 de setembro de 1918, aos 21 anos. \u201cUma pioneira. Hist\u00f3ria que tem que ser resgatada. Ela se torna mais importante ainda pelo contexto. As mulheres s\u00f3 come\u00e7aram a votar em 1932\u201d, contou Beatriz. As evid\u00eancias sobre o retorno financeiro da participa\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho s\u00e3o crescentes. Estudos do McKinsey Global Institute apontam que \u201ca redu\u00e7\u00e3o da desigualdade de g\u00eanero pode acrescentar US$ 12 trilh\u00f5es ao Produto Interno Bruto (PIB) global, em 2025, e at\u00e9 US$ 28 trilh\u00f5es no cen\u00e1rio de potencial m\u00e1ximo\u201d. No Brasil, o aumento no PIB poderia atingir de US$ 410 a 850 bilh\u00f5es, no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Sororidade<\/p>\n<p>Se as mulheres podem fazer a economia girar, a explica\u00e7\u00e3o para o desencorajamento da participa\u00e7\u00e3o delas em fun\u00e7\u00f5es executivas, na iniciativa privada e no servi\u00e7o p\u00fablico, n\u00e3o se deve apenas o machismo, mas \u00e0 falta ou ao desconhecimento da \u201csororidade\u201d &#8211; a\u00e7\u00f5es de mulheres para ajudar as mulheres -, de acordo com todas as entrevistadas. Sororidade vem no latim s\u00f3ror, que significa \u201cirm\u00e3s\u201d. O termo pode ser considerado a vers\u00e3o feminina da fraternidade. Consiste no n\u00e3o julgamento pr\u00e9vio entre as pr\u00f3prias mulheres, que, na maioria das vezes, fortalecem estere\u00f3tipos preconceituosos, criados pela sociedade patriarcal. O tema \u00e9 recorrente. A sororidade vai al\u00e9m das lam\u00farias. N\u00e3o \u00e9 obra de feministas enraivecidas e estridentes, com \u00f3dio e sede de vingan\u00e7a aos machos opressores. A sororidade, dizem as especialistas, tem impactos no desempenho de uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA falta de sororidade \u00e9 um erro muito comum que atrapalha o desenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds, o pessoal e a solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de conflitos\u201d, assinalou a psic\u00f3loga Thais Andreozzi, supervisora do Programa Justi\u00e7a Comunit\u00e1ria do Tribunal de Justi\u00e7a do Distrito Federal e Territ\u00f3rios (TJDFT) &#8211; que nasceu h\u00e1 18 anos, no contexto da viol\u00eancia machista, para evitar que as causas se alongassem pela primeira e segunda inst\u00e2ncias do Judici\u00e1rio. Somente no in\u00edcio de 2018, um grupo de mulheres do programa estabeleceu as \u201crodas de conversa\u201d, uma forma de criar la\u00e7os de sororidade e curar os impactos da viol\u00eancia na autoestima que levam \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de desmerecimento no trabalho. \u201cH\u00e1 mulheres de todos os tipos. Elas come\u00e7am a identificar os males que elas, inconscientemente, permitiram que fizessem contra elas mesmas. Passam a produzir mais quando se valorizam. E entenderam que precisam criar os filhos, meninos, de outra forma\u201d disse.<\/p>\n<p>A psiquiatra Maria Carvalho (nome fict\u00edcio) recebeu h\u00e1 anos um grupo de servidoras federais. Elas tinham necessidade de criar um programa sigiloso de combate aos ass\u00e9dios moral e sexual, de homens e mulheres, na Esplanada, e criar for\u00e7as para evoluir nas carreiras. \u201cDe in\u00edcio, eram apenas 12 servidoras assustadas, que acompanhei por pouco mais de oito anos. Foi impressionante como elas avan\u00e7aram. Todas, hoje, foram promovidas e ganham pelo menos 50% a mais da remunera\u00e7\u00e3o de 2000. Isso porque elas se aliaram, se qualificaram e criaram uma rede de prote\u00e7\u00e3o. Uma tomava conta do filho ou do neto da outra, para permitir que estudassem e se qualificassem. Trabalhavam em dobro para cumprir todas as tarefas laborais, quando uma precisava viajar, e partilhavam, juntas, os momentos de dificuldades\u201d, contou a psiquiatra.<\/p>\n<p>Esse grupo, disse Maria, entendeu que precisava contestar ideias preconcebidas de que as mulheres sempre s\u00e3o rivais, que disputam a qualquer custo a aten\u00e7\u00e3o dos homens, o cargo na empresa e na reparti\u00e7\u00e3o e a coroa de rainha do baile. Aprenderam a vigiar e expurgar velhos h\u00e1bitos e comportamentos, a evitar alfinetadas e a cren\u00e7as deturpadas e inconsistentes de que \u201cmulher n\u00e3o \u00e9 amiga de verdade de outra mulher\u201d. Que a \u201camante\u201d \u00e9 a grande vil\u00e3 do casamento (quando o homem tamb\u00e9m tem poder de escolha) e que n\u00e3o existe amiga que n\u00e3o tenha uma \u201cpontinha de inveja\u201d da outra. \u201cHoje, por indica\u00e7\u00e3o delas, atendo quase 100 servidoras e dezenas de mo\u00e7as que se preparam para o concurso. Muitas, que n\u00e3o conseguiam aprova\u00e7\u00e3o no passado, acabaram por entender que elas mesmas se boicotavam. \u00c9 por isso que a sororidade \u00e9 uma arma poderosa\u201d, destacou Maria.<\/p>\n<p>Maria criou uma pequena c\u00e9lula com resultados, segundo seu depoimento, de sucesso quase total. \u201cO sonho de toda pesquisadora \u00e9 conseguir, como a Maria, o impacto econ\u00f4mico das pol\u00edticas sociais\u201d, disse Nat\u00e1lia Fontoura, pesquisadora da \u00e1rea de G\u00eanero e Ra\u00e7a do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea). Os casos \u2013 sejam de viol\u00eancia ou de \u00eaxito contra ela \u2013 s\u00e3o subnotificados, faltam pesquisas emp\u00edricas, avalia\u00e7\u00f5es constantes e banco de dados confi\u00e1veis. \u201cMuitas informa\u00e7\u00f5es, por exemplo na quest\u00e3o da viol\u00eancia, s\u00e3o dos Estados. E cada um tem uma base diferente. Fica dif\u00edcil comparar. A pauta das mulheres ainda n\u00e3o \u00e9 prioridade no pa\u00eds. N\u00e3o existem c\u00e1lculos econ\u00f4micos do retorno\u201d, lamentou.<\/p>\n<p><strong>O que deve ser contestado<\/strong><\/p>\n<p>A ideia de que mulheres sempre s\u00e3o rivais<\/p>\n<p>Que disputam a qualquer custo a aten\u00e7\u00e3o dos homens, o cargo na empresa, a coroa de rainha do baile<\/p>\n<p>Alfinetadas e a vis\u00e3o deturpada e inconsistente de que \u201cmulher n\u00e3o \u00e9 amiga de verdade de outra mulher\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o acreditar que juntas s\u00e3o melhores, mais fortes, menos fragilizadas, mais capazes<\/p>\n<p>Que a \u201camante\u201d \u00e9 a grande vil\u00e3 do casamento (sendo que o homem tamb\u00e9m tem poder de escolha)<\/p>\n<p>Que n\u00e3o existe amiga que n\u00e3o tenha uma \u201cpontinha de inveja\u201d da outra<\/p>\n<p><strong>Sororidade \u2013 a mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>A\u00e7\u00f5es de mulheres para ajudar as mulheres<\/p>\n<p>Sororidade vem no latim s\u00f3ror, que significa \u201cirm\u00e3s\u201d<\/p>\n<p>Este termo pode ser considerado a vers\u00e3o feminina da fraternidade<\/p>\n<p>Consiste no n\u00e3o julgamento pr\u00e9vio entre (e contra) as pr\u00f3prias mulheres<\/p>\n<p>Elas, na maioria das vezes, ajudam a fortalecer estere\u00f3tipos preconceituosos<\/p>\n<p>Estere\u00f3tipos criados por uma sociedade machista e patriarcal<\/p>\n<p><strong>Os n\u00fameros em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulheres ainda s\u00e3o alarmantes<\/strong><\/p>\n<p>12 mulheres assassinadas, por dia, em m\u00e9dia, no Brasil<\/p>\n<p>4.473 homic\u00eddios dolosos aconteceram no pa\u00eds, em 2017<\/p>\n<p>946 deles, feminic\u00eddios<\/p>\n<p>96.612 mulheres assassinadas entre 1980 e 2011<\/p>\n<p>41% dos brasileiros (ou 52 milh\u00f5es de pessoas) conhecem algum homem violento com a parceira<\/p>\n<p><strong>O outro lado<\/strong><\/p>\n<p>US$12 trilh\u00f5es seriam acrescentados ao PIB global com a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade de g\u00eanero, em 2025<\/p>\n<p>US$ 28 trilh\u00f5es acrescentados ao PIB, no cen\u00e1rio de potencial m\u00e1ximo das mulheres<\/p>\n<p>US$ 410 a US$ 850 bilh\u00f5es seria o aumento no PIB somente no Brasil<\/p>\n<p><strong>Porque n\u00e3o acontece <\/strong><\/p>\n<p>Iniciativas, projetos e estudos para a concretiza\u00e7\u00e3o desses fatos ainda s\u00e3o pontuais<\/p>\n<p>Estat\u00edsticas econ\u00f4micas n\u00e3o t\u00eam dados num\u00e9ricos confi\u00e1veis<\/p>\n<p>A\u00e7\u00f5es para o universo feminino n\u00e3o avaliam o retorno os impactos financeiros<\/p>\n<p>Pesquisas n\u00e3o avan\u00e7am por falta de financiamento ou de recursos humanos<\/p>\n<p><strong>Os avan\u00e7os nas redes sociais<\/strong><\/p>\n<p>As buscas pela palavra feminismo, especificamente, cresceram 200% nos \u00faltimos dois anos<\/p>\n<p>A procura de informa\u00e7\u00e3o sobre machismo cresceu 163%, no per\u00edodo<\/p>\n<p>Feminismo negro \u00e9 65% mais procurado hoje do que em 2016<\/p>\n<p><em>Fontes<\/em>: ONU, OIT, IBGE, Ipea, Google, Sebrae, Dieese<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O termo pode ser considerado a vers\u00e3o feminina da fraternidade. 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