{"id":14243,"date":"2019-10-28T12:40:09","date_gmt":"2019-10-28T15:40:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/?p=14243"},"modified":"2019-10-28T12:40:09","modified_gmt":"2019-10-28T15:40:09","slug":"servidor-reflexo-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/servidor-reflexo-da-sociedade\/","title":{"rendered":"Servidor &#8211; Reflexo da sociedade"},"content":{"rendered":"<p><em>N\u00e3o h\u00e1 privil\u00e9gios nem displic\u00eancia, afirmam sindicalistas. Muitas vezes, o que a sociedade aponta como responsabilidade do funcion\u00e1rio p\u00fablico que est\u00e1 na ponta, no atendimento, \u00e9 simplesmente, contam, reflexo de m\u00e1 gest\u00e3o e falta de recursos<\/em><\/p>\n<p>Veja a explica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5qrEQtsi48I<\/p>\n<p>O discurso do \u201cservidor privilegiado\u201d n\u00e3o \u00e9 novo no Brasil. Segundo especialistas, est\u00e1 presente h\u00e1 anos no imagin\u00e1rio dos brasileiros Foi especialmente refor\u00e7ado desde quando o ex-presidente Fernando Collor se lan\u00e7ou na pol\u00edtica como \u201cca\u00e7ador de maraj\u00e1s\u201d.\u00a0Ocorre que h\u00e1 um problema grave nesse discurso, dizem especialistas. Eles concordam que h\u00e1 de fato privil\u00e9gios que devam ser revistos, como o aux\u00edlio-moradia para ju\u00edzes, por exemplo. \u201cNo entanto, a generaliza\u00e7\u00e3o desse pensamento, muitas vezes alimentado pela m\u00eddia, para n\u00f3s \u00e9 um grave desservi\u00e7o\u201d, explica S\u00e9rgio Ronaldo da Silva, secret\u00e1rio-geral da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores no Servi\u00e7o P\u00fablico Federal (Condsef).<\/p>\n<p>Ele cita equ\u00edvocos de dados recentemente divulgados por institui\u00e7\u00f5es de pesquisa que sinalizam que 44% dos servidores ganhariam acima de R$ 1 0mil. Essa n\u00e3o \u00e9 a realidade no Executivo federal, garante.\u00a0\u201cMais de 60% em final de carreira n\u00e3o chegam a receber mais que R$ 9 mil, somadas as gratifica\u00e7\u00f5es\u201d, revela. No n\u00edvel m\u00e9dio, os sal\u00e1rios n\u00e3o se aproxima sequer ao valor do teto do INSS (R$ 5.839,45). \u201cO di\u00e1logo amplo com a sociedade \u00e9 fundamental, pois quem est\u00e1 na linha de frente de atendimentos essenciais s\u00e3o justamente as carreiras sobrecarregadas e com falta de pessoal e recebem sal\u00e1rios as vezes menores do que os praticados na iniciativa privada (da\u00ed se explica um grande n\u00famero de evas\u00e3o em alguns setores que perdem servidores por n\u00e3o oferecer sal\u00e1rios melhores que o mercado)\u201d, destaca.<\/p>\n<p>H\u00e1 claras diverg\u00eancias nos sal\u00e1rios e tamb\u00e9m nos reajustes que v\u00eam sendo concedidos ao longo do tempo. Quem tem maior remunera\u00e7\u00e3o, acaba tendo percentual maior de reajuste. Para se ter uma ideia, um professor universit\u00e1rio com doutorado dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, ganhava R$ 6,639, em 2015. Com o aumento de cerca de 11%, passou a receber mensalmente R$ 9,585, em 2019. J\u00e1 um diplomata, com reajuste de 27,9%, saltou de R$ 1,005 para R$ 19,199, no per\u00edodo. E um delegado da Pol\u00edcia Federal, pulou de R$ 16,830 para R$ 23,692, depois de um aumento de R$ 40,8%. O grande problema n\u00e3o \u00e9 a disparidade ou a prefer\u00eancia por cargos da elite do funcionalismo. A quest\u00e3o \u00e9 mais profunda, na an\u00e1lise de Jorge Patr\u00edcio, diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Sa\u00fade e Previd\u00eancia do Rio Grande do Sul (Sindsprev\/RS) (v\u00eddeo).<\/p>\n<p>Embora o Instituto Nacional do Seguro Social divulgue n\u00fameros favor\u00e1veis ao Meu INSS, \u201cuma ferramenta criada para facilitar a vida dos segurados\u201d, na pr\u00e1tica o instrumento se tornou um estorvo para servidores e aposentados. Ele disse que atualmente os servidores do INSS est\u00e3o sofrendo uma press\u00e3o \u201cinusitada\u201d. \u201cEstamos proibidos de dar o atendimento necess\u00e1rio\u201d, diz. O contribuinte tem que agendar qualquer atendimento ou entregar documento. Se o servidor demora dando explica\u00e7\u00f5es mais longas para idosos acima de 80 anos ou cidad\u00e3os com baixa escolaridade, que n\u00e3o est\u00e3o familiarizados com a internet, \u00e9 controlado pelo chefe e amea\u00e7ado de responder processo administrativo disciplinar (PAD), por desobedi\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cQuando idosos e pessoas semianalfabetas s\u00e3o conseguem fazer o pedido pelo 135 (n\u00famero do atendimento) ficam \u00e0 merc\u00ea de despachantes picaretas que se aproveitam da situa\u00e7\u00e3o e cobram bem caro para fazer algo que \u00e9 gratuito\u201d, contou Patr\u00edcio. Pior ainda \u00e9 que tem ag\u00eancias fechando ao meio-dia e deixando o benefici\u00e1rio sem ter onde recorrer. \u201cHoje, \u00e9 canal remoto ou cair na rede de despachantes\u201d. Nenhuma das 18 mil vagas autorizadas pelo ex-presidente Temer foram preenchidas, lembrou. \u201cColegas est\u00e3o sendo amea\u00e7ados, perseguidos em suas cidades. As pessoas est\u00e3o com medo de sair na rua porque s\u00e3o atacadas para justificar por n\u00e3o atendeu o pai, a m\u00e3e o irm\u00e3o daquele necessitado\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Outros especialistas falam que essa \u00e9 a estrat\u00e9gia que vem sendo usada h\u00e1 muitos anos quando se quer culpar o servidor e apont\u00e1-lo como o principal respons\u00e1vel pelo rombo nas contas p\u00fablicas. \u201cN\u00e3o se investe, n\u00e3o se faz concurso, n\u00e3o se mostra o lado bom. A sa\u00edda \u00e9 sucatear. Como a sociedade n\u00e3o sabe o que acontece nos bastidores, fica f\u00e1cil convenc\u00ea-la de que o Estado \u00e9 caro, pesado e corrupto. Mas se n\u00e3o tem soro nem esparadrapo, o que se faz em um hospital, por exemplo. Mas a popula\u00e7\u00e3o carente, desesperada, aponta o dedo para quem est\u00e1 na frente\u201d, assinala um t\u00e9cnico que n\u00e3o quis se identificar. As pesquisas j\u00e1 apontam que a sociedade \u201ccomprou\u201d o discurso oficial de que o servidor tem privil\u00e9gios e \u00e9 preciso extingu\u00ed-los.<\/p>\n<p><strong>Sociedade patriarcal<\/strong><\/p>\n<p>O ministro da Economia, Paulo Guedes, em uma de suas declara\u00e7\u00f5es, foi enf\u00e1tico ao declarar que a inten\u00e7\u00e3o do governo seria digitalizar os servi\u00e7os p\u00fablicos ao m\u00e1ximo. \u201cPara n\u00f3s essa ideia \u00e9 de algu\u00e9m que n\u00e3o conhece por dentro as complexidades que envolvem o setor p\u00fablico. Cortar investimentos p\u00fablicos \u00e9 cortar tamb\u00e9m chances importantes de crescimento\u201d, disse um dos t\u00e9cnicos da equipe econ\u00f4mica, apreensivo com os exageros que v\u00eam sendo feitos. O problema dessa pol\u00edtica est\u00e1 justamente em ignorar os efeitos perversos da aus\u00eancia do Estado na vida das pessoas. Simplesmente negar \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o acesso a servi\u00e7os essenciais \u00e9 lan\u00e7ar o pa\u00eds ao caos. Mas se isso \u00e9 verdade, porqu\u00ea justamente os que ser\u00e3o mais prejudicados tamb\u00e9m apoiam o enxugamento do Estado. E se o servidor \u00e9 t\u00e3o importante para a popula\u00e7\u00e3o, qual o motivo de n\u00e3o conseguir demonstrar na pr\u00e1tica e vive perdendo a guerra da comunica\u00e7\u00e3o para governantes de plant\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um artigo acad\u00eamico, Alcir Moreno da Cruz, auditor federal de controle externo do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU), conta que \u00e9 \u201cparticularmente perturbador constatar como a verticalidade da sociedade brasileira se reflete na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica\u201d. Ou seja, as pessoas n\u00e3o s\u00e3o assim porque passaram no concurso para o servi\u00e7o p\u00fablico. Elas reproduzem exatamente a cultura do pa\u00eds, a heran\u00e7a do coronelismo que floresceu da escravid\u00e3o que durou quase quatro s\u00e9culos. \u201cNo Brasil, apenas 25% dos presidentes foram eleitos democraticamente. Seguimos assim na base do &#8216;manda quem pode, obedece quem tem ju\u00edzo&#8217;\u201d, diz.<\/p>\n<p>Em uma sociedade que discrimina pobres, negros, gays, mulheres e nordestinos, \u00e9 normal a perpetua\u00e7\u00e3o da \u201cpr\u00e1tica de mandar, ditar as regras de cima para baixo, na base da for\u00e7a\u201d, diz Cruz. Como o servidor vive nessa sociedade, n\u00e3o poderia ser diferente. Rodrigo Prando, cientista pol\u00edtico da Universidade Mackenzie, afirma que a cultura nacional, ao mostrar suas deformidades, \u00e9 particularmente preocupante quando \u00e9 transportada para o servi\u00e7o p\u00fablico. \u201cPorque o servidor \u00e9 uma autoridade. \u00c9 o que chamamos de disfuncionalidade. Aquele que fez concurso, n\u00e3o desempenha \u00e0 altura suas fun\u00e7\u00f5es e se esconde atr\u00e1s da estabilidade, porque desde sempre acreditou que o dinheiro p\u00fablico n\u00e3o tem dono. Esse \u00e9 o que atrapalha a vida dos demais\u201d, explica.<\/p>\n<p>Vieram \u00e0 tona fatos recentes que comprometeram ainda mais essa rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico externo \u00e0 administra\u00e7\u00e3o federal. Procuradores que bradam que seus sal\u00e1rios-base de R$ 24 mil s\u00e3o insuficientes, diante de 13 milh\u00f5es de desempregos. Outros que querem matar ministros ou ju\u00edzas. Auditores que dizem que \u201cest\u00e3o empobrecenddo\u201d porque j\u00e1 n\u00e3o podem comprar, apenas com o dinheiro das f\u00e9rias, um carro popular, entre outras. \u201cO problema \u00e9 que os brasileiros, com a cultura espec\u00edfica da nossa hist\u00f3ria, se comparam a suecos e finlandeses quando lhes interessa. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o\u201d, salienta Prando.<\/p>\n<p>Laene Pedro Gama, psic\u00f3loga do Trabalho da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), lembra que est\u00e1 cada vez mais comum a exacerba\u00e7\u00e3o da intoler\u00e2ncia e da cr\u00edtica destrutiva. Os indiv\u00edduos atacam aqueles que est\u00e3o no lugar onde eles gostariam de estar, ou mesmo quando n\u00e3o querem aquele cargo, admitem que, se desempenhasse aquela fun\u00e7\u00e3o, talvez tivesse uma atitude ainda mais reprov\u00e1vel. \u201cEles n\u00e3o se enxergam mais no lugar do outro. Criticam, mas fariam o mesmo ou pior. Os la\u00e7os sociais est\u00e3o muito fr\u00e1geis. \u00c9 mais f\u00e1cil dar um n\u00f3 que estrangula, do que um la\u00e7o que abra\u00e7a\u201d, reitera. \u00c9 por isso que n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil passar a mensagem de que o servi\u00e7o p\u00fablico \u201c\u00e9 um luxo, um excesso do Estado\u201d. \u201cOs governantes conhecem bem esses conceitos\u201d, lembra Leane.<\/p>\n<p>Se tornou um prazer, de acordo com a psic\u00f3loga, impor castigos, extinguir privil\u00e9gios que nem sempre existem, piorar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho. E toda vez que o outro sofre, aquele que o fez sofrer se sente vitorioso e superior, ensina Leane. Essa vis\u00e3o dos privil\u00e9gios, o n\u00famero reduzido servidores, respons\u00e1vel pela dificuldade de prestar um bom atendimento &#8211; e que deixam muitos frustrados &#8211; tamb\u00e9m contribui para manter de p\u00e9 a saga pelo fim do servi\u00e7o p\u00fablico, segundo Sergio Ronaldo da Silva, da Condsef. \u201cN\u00e3o se pode deixar de lado nesse cen\u00e1rio a aus\u00eancia de investimentos que impacta diretamente nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho que muitas vezes o Estado n\u00e3o garante\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Ele diz que tamb\u00e9m por isso os servidores questionam os modelos de avalia\u00e7\u00e3o de desempenho. \u201cComo avaliar um servidor que sequer tem suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho adequadas garantida pelo Estado? E como medir essa qualidade em servi\u00e7os que n\u00e3o visam produ\u00e7\u00e3o, mas sim qualidade no atendimento? A falta de debate desses e outros aspectos \u00e9 um problema enorme no conjunto dos j\u00e1 diversos problemas que o setor p\u00fablico brasileiro enfrenta h\u00e1 muito tempo\u201d, reitera.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 privil\u00e9gios nem displic\u00eancia, afirmam sindicalistas. Muitas vezes, o que a sociedade aponta como responsabilidade do funcion\u00e1rio p\u00fablico que est\u00e1 na ponta, no atendimento, \u00e9 simplesmente, contam, reflexo de m\u00e1 gest\u00e3o e falta de recursos Veja a explica\u00e7\u00e3o: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5qrEQtsi48I O discurso do \u201cservidor privilegiado\u201d n\u00e3o \u00e9 novo no Brasil. 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