{"id":15074,"date":"2020-01-23T12:19:27","date_gmt":"2020-01-23T15:19:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/?p=15074"},"modified":"2020-01-23T12:19:27","modified_gmt":"2020-01-23T15:19:27","slug":"as-multiplas-faces-do-racismo-projetos-da-uff-levam-a-historia-e-a-cultura-da-asia-para-a-esfera-academica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/as-multiplas-faces-do-racismo-projetos-da-uff-levam-a-historia-e-a-cultura-da-asia-para-a-esfera-academica\/","title":{"rendered":"As m\u00faltiplas faces do racismo: projetos da UFF levam a hist\u00f3ria e a cultura da \u00c1sia para a esfera acad\u00eamica"},"content":{"rendered":"<p><em>Segundo dados do Censo 2010, 2 milh\u00f5es de brasileiros residentes se autodeclaram de ra\u00e7a ou cor amarela, n\u00famero que cresceu 177% em uma d\u00e9cada<\/em><\/p>\n<p>A denomina\u00e7\u00e3o \u201camarela\u201d se refere aos descendentes de japoneses, chineses, taiwaneses, coreanos, indianos e outros grupos cujas fam\u00edlias sa\u00edram da \u00c1sia para o Brasil. Entretanto, o que se observa \u00e9 uma perpetua\u00e7\u00e3o de preconceitos contra essa parcela da popula\u00e7\u00e3o: express\u00f5es como \u201casi\u00e1tico \u00e9 tudo igual\u201d, \u201cvoc\u00ea deve saber muito de matem\u00e1tica\u201d, e \u201cabre o olho, japon\u00eas\u201d refor\u00e7am estere\u00f3tipos baseados em quest\u00f5es biol\u00f3gicas e culturais que envolvem os brasileiros de ascend\u00eancia asi\u00e1tica.<\/p>\n<p>Tal realidade conduziu a trajet\u00f3ria acad\u00eamica de Hugo Katsuo Othuki Okabayashi, graduando de Cinema e Audiovisual da UFF. Em 2018, Hugo come\u00e7ou a dirigir um document\u00e1rio intitulado O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais como um material did\u00e1tico sobre o que \u00e9 a milit\u00e2ncia amarela no Brasil. Ainda que n\u00e3o lan\u00e7ado oficialmente, o projeto foi exibido em um evento realizado na UFF, com debates em novembro de 2018 com o apoio do CEA, e em outras institui\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, como a Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). \u201cO modo como eu quero trabalhar com quest\u00f5es amarelas no audiovisual \u00e9 trazendo representatividade de forma mais humanizada. Quero mostrar que somos t\u00e3o humanos quanto pessoas brancas e n\u00e3o uma massa homog\u00eanea, caricaturas ambulantes\u201d, explica o futuro cineasta e pesquisador.<\/p>\n<p>A preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria de seus antepassados do Jap\u00e3o foi o ponto de partida para que o estudante iniciasse pesquisas sobre as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais no Brasil envolvendo corpos amarelos \u2014 que, para sua surpresa, mostrou ser uma \u00e1rea ainda pouco explorada. \u201cComecei a estudar sobre a viv\u00eancia de asi\u00e1ticos n\u00e3o continentais nos dias atuais. Surgiu, ent\u00e3o, o tema do meu TCC, com recorte para a representa\u00e7\u00e3o e o consumo do corpo amarelo no cinema porn\u00f4 gay ocidental. Pesquisar sobre isso foi e \u00e9 muito importante para os meus processos de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria\u201d, afirma Hugo.<\/p>\n<p><strong>Asi\u00e1ticos, negros e ind\u00edgenas<\/strong><\/p>\n<p>As quest\u00f5es asi\u00e1ticas t\u00eam algumas similaridades com as que envolvem corpos negros, principalmente porque os processos de racializa\u00e7\u00e3o e racismos possuem uma origem em comum: a manuten\u00e7\u00e3o da supremacia branca. Para o graduando, \u201cos asi\u00e1ticos s\u00e3o estereotipados como a \u2018minoria modelo\u2019, ou seja, a minoria que deu certo, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s minorias que n\u00e3o deram certo \u2013 negros e ind\u00edgenas. Logo, a principal diferen\u00e7a entre asi\u00e1ticos e negros \u00e9 que aos asi\u00e1ticos foram concedidos os privil\u00e9gios de \u2018quase brancos\u2019\u201d.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias do preconceito racial contra pessoas amarelas fomentou discuss\u00f5es sobre essas opress\u00f5es espec\u00edficas, principalmente em coletivos e perfis em redes sociais (Perigo Amarelo e Asi\u00e1ticos pela Diversidade no Facebook, por exemplo), debatendo tamb\u00e9m sobre textos, personalidades e fatos hist\u00f3ricos que resgatam as rela\u00e7\u00f5es de poder originadas principalmente a partir dos fluxos migrat\u00f3rios no pa\u00eds no s\u00e9culo XX, constituindo o movimento conhecido como milit\u00e2ncia amarela.<\/p>\n<p>\u00c9 de extrema import\u00e2ncia o exerc\u00edcio de debates no meio acad\u00eamico sobre a \u00c1sia em seus diversos contextos; certos discursos come\u00e7am a ser legitimados a partir dessa esfera. E a efetiva\u00e7\u00e3o desse processo precisa da ajuda de todos. \u201cAcho importante que pessoas brancas nos escutem, leiam nossas produ\u00e7\u00f5es e estejam sempre atentas, assumindo uma postura contra as diversas formas de racismo cotidianamente, mas sem nunca terem a pretens\u00e3o de querer falar por n\u00f3s\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p><strong>\u00c1sia &#8211;\u00a0 pot\u00eancia no circuito acad\u00eamico<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com o artigo publicado pelo banco brit\u00e2nico Standard Chartered, em agosto de 2019, as na\u00e7\u00f5es asi\u00e1ticas superaram as expectativas de crescimento econ\u00f4mico em um cen\u00e1rio mundial de estagna\u00e7\u00e3o. O incentivo \u00e0 demanda dom\u00e9stica e a depend\u00eancia reduzida das economias ocidentais v\u00e3o permitir nos pr\u00f3ximos anos, segundo o estudo, o crescimento econ\u00f4mico de 7% para pa\u00edses como \u00cdndia, Bangladesh, Vietn\u00e3 e Filipinas \u2014 ritmo em que geralmente uma economia dobra de tamanho a cada d\u00e9cada. Apesar do relativo desenvolvimento diante do mercado global, o continente asi\u00e1tico ainda \u00e9 bastante invisibilizado no circuito acad\u00eamico, ambiente no qual seu contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico \u00e9 pouco explorado ou apresentado a partir de uma \u00f3tica ocidentalizada.<\/p>\n<p>A partir da proposta menos euroc\u00eantrica de uma reinven\u00e7\u00e3o no campo acad\u00eamico com a valoriza\u00e7\u00e3o dos estudos sobre a \u00c1sia, estudantes de mestrado da Universidade Federal Fluminense (UFF) criaram, em 2018, o Centro de Estudos Asi\u00e1ticos (CEA). Com o objetivo inicial de organiza\u00e7\u00e3o orientada pela leitura de textos e debates, a equipe envolvida no projeto come\u00e7ou a receber convites para discuss\u00f5es e realiza\u00e7\u00e3o de eventos. Apresentando inicialmente minicursos sobre os estudos asi\u00e1ticos nas ci\u00eancias humanas, o CEA foi convidado a realizar esse formato fora do ambiente acad\u00eamico, na Biblioteca Parque de Niter\u00f3i.<\/p>\n<p>\u201cA resposta foi t\u00e3o positiva que continuamos realizando pequenos cursos l\u00e1; organizamos, por exemplo, uma programa\u00e7\u00e3o para alunos do ensino fundamental da Escola Municipal Pastor Ricardo Parise\u201d, afirma, o mestrando de Hist\u00f3ria e um dos criadores do projeto, Mateus Nascimento. Os estudantes da rede p\u00fablica estiveram na Biblioteca Parque e os integrantes do centro apresentaram a eles alguns temas de hist\u00f3ria da \u00c1sia, como l\u00edngua russa (alfabeto), l\u00edngua japonesa (kanji) e cultura chinesa (tai chi chuan).<\/p>\n<p>\u201cA conex\u00e3o foi interessante porque nos permitiu repensar nosso objetivo: hoje o CEA se preocupa com a pesquisa, o ensino e a extens\u00e3o em Estudos Asi\u00e1ticos e busca tamb\u00e9m desenvolver atividades de ensino e de pesquisa, mas tamb\u00e9m divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, como essa atividade com escolas p\u00fablicas e particulares. O eurocentrismo dita as nossas agendas cient\u00edficas, as nossas formas de ver o mundo e sermos sujeitos, e quando voc\u00ea se prop\u00f5e a desafiar isso, \u00e9 libertador pela quantidade de conhecimento que se adquire\u201d, diz Parise<\/p>\n<p><strong>Pluridisciplinaridade<\/strong><\/p>\n<p>O projeto conta com seis integrantes, sendo uma delas docente do Departamento de Letras, uma graduanda em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, dois mestrandos e uma doutoranda em Hist\u00f3ria e uma mestranda em Estudos Estrat\u00e9gicos. A diversidade de colaboradores \u00e9 constitu\u00edda como princ\u00edpio do CEA, tendo como suporte a pluridisciplinaridade e o rompimento da hierarquia acad\u00eamica. Cada participante possui uma pesquisa pr\u00f3pria sobre o tema; todos trabalham, no entanto, com o prop\u00f3sito \u00fanico de produzir recursos did\u00e1ticos sobre o continente asi\u00e1tico e sua cultura, refletindo a partir da constru\u00e7\u00e3o textual de conhecimentos sobre a hist\u00f3ria dos pa\u00edses asi\u00e1ticos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Uma das problem\u00e1ticas que norteiam a produ\u00e7\u00e3o e o debate acad\u00eamico do CEA parte do evidente eurocentrismo que estrutura os curr\u00edculos das ci\u00eancias humanas (e das demais \u00e1reas): o conhecimento da forma como o temos tem como ponto de partida o pensamento europeu. \u201cQuando estudamos a hist\u00f3ria moderna, por exemplo, come\u00e7amos de fora, \u2018das grandes navega\u00e7\u00f5es\u2019 para s\u00f3 depois vermos, rapidamente, elementos nativos do territ\u00f3rio brasileiro. Mesmo assim, olhamos pela lente da viol\u00eancia da coloniza\u00e7\u00e3o. No que tange \u00e0s \u00e1reas de sa\u00fade, s\u00e3o os princ\u00edpios franceses que desautorizam os estudos sobre a medicina oriental\u201d, justifica Mateus.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia do CEA oferece uma possibilidade efetiva de di\u00e1logo entre as ci\u00eancias humanas e sociais junto aos elementos da cultura pop asi\u00e1tica, panorama de an\u00e1lise bastante enfatizado pelo Grupo de Pesquisa em M\u00eddia e Cultura Asi\u00e1tica Contempor\u00e2nea (Midi\u00c1sia), projeto tamb\u00e9m vinculado \u00e0 UFF, que re\u00fane pesquisadores interessados em explorar quest\u00f5es relativas ao desenvolvimento da m\u00eddia no contexto dos pa\u00edses asi\u00e1ticos e seu impacto global.<\/p>\n<p><strong>Investiga\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O prop\u00f3sito do grupo est\u00e1 ligado \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de referenciais te\u00f3rico-metodol\u00f3gicos que d\u00eaem conta de abordar o atual contexto de reconfigura\u00e7\u00e3o da arena midi\u00e1tica global. Para isso, seis pesquisadores est\u00e3o vinculados ao programa \u2014 dois professores doutores e quatro discentes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u201cEm um cen\u00e1rio em que a cultura midi\u00e1tica internacional assume crescentemente fei\u00e7\u00f5es multipolares, o continente asi\u00e1tico, com sua enorme diversidade social e cultural, oferece um terreno f\u00e9rtil e inexplorado para a investiga\u00e7\u00e3o\u201d, ressalta a doutora em Comunica\u00e7\u00e3o pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o (PPGCom) e integrante do Midi\u00c1sia, Krystal Cortez.<\/p>\n<p>Criado em 2019, o grupo foi concebido e administrado por alunos de gradua\u00e7\u00e3o do curso de Estudos de M\u00eddias e do PPGCom da institui\u00e7\u00e3o, sob a coordena\u00e7\u00e3o do professor Afonso de Albuquerque. \u201c\u00c9 evidente que o lugar que a \u00c1sia desempenha no mundo de hoje \u00e9 inteiramente diferente do de uma d\u00e9cada atr\u00e1s. Penso que a universidade tem um papel a desempenhar como vanguarda do pensamento social, e o exemplo dos pa\u00edses asi\u00e1ticos d\u00e1 conta de modelos de desenvolvimento alternativos ao do Ocidente\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p><em>Fonte<\/em>: Assessoria de imprensa da UFF<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo dados do Censo 2010, 2 milh\u00f5es de brasileiros residentes se autodeclaram de ra\u00e7a ou cor amarela, n\u00famero que cresceu 177% em uma d\u00e9cada A denomina\u00e7\u00e3o \u201camarela\u201d se refere aos descendentes de japoneses, chineses, taiwaneses, coreanos, indianos e outros grupos cujas fam\u00edlias sa\u00edram da \u00c1sia para o Brasil. 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