{"id":3352,"date":"2016-10-28T12:30:53","date_gmt":"2016-10-28T14:30:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/?p=3352"},"modified":"2016-10-28T12:30:53","modified_gmt":"2016-10-28T14:30:53","slug":"mulheres-sao-maioria-no-servico-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/mulheres-sao-maioria-no-servico-publico\/","title":{"rendered":"Mulheres s\u00e3o maioria no servi\u00e7o p\u00fablico"},"content":{"rendered":"<p><em>Elas ocupam 55% das vagas do funcionalismo federal, estadual e municipal ante 50% dos postos do setor privado. Apesar de estarem em maior n\u00famero e terem maior escolaridade, t\u00eam dificuldade de alcan\u00e7ar o topo da carreira<\/em><\/p>\n<p><em><strong>VERA BATISTA<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A primeira servidora p\u00fablica do pa\u00eds foi Joana Fran\u00e7a Stockmeyer, que trabalhou na Imprensa Nacional, de 1892 at\u00e9 sua aposentadoria, em 1944. Em 1934, a Assembleia Constituinte garantiu o princ\u00edpio da igualdade entre os sexos, a regulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho feminino, a equipara\u00e7\u00e3o salarial e o direito ao voto. De l\u00e1 para c\u00e1, muita coisa mudou para melhor. No servi\u00e7o p\u00fablico, elas j\u00e1 representam 55% do funcionalismo (federal, estadual e municipal), enquanto na iniciativa privada s\u00e3o 50%, de acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>O percentual de mulheres no servi\u00e7o p\u00fablico \u00e9 maior porque o sentimento geral \u00e9 de que as condi\u00e7\u00f5es no acesso s\u00e3o similares, por meio de sele\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e imparcial. O esfor\u00e7o delas pela estabilidade, segundo especialistas, aponta que o desejo do p\u00fablico feminino vai al\u00e9m de consolida\u00e7\u00e3o de uma carreira, passa pelo sucesso pessoal e pela seguran\u00e7a da fam\u00edlia. Como servidoras da administra\u00e7\u00e3o federal desfrutam de algumas vantagens ainda n\u00e3o incorporadas pelo setor privado. As contratadas em \u00f3rg\u00e3os regidos pelo Estatuto do Servidor, t\u00eam, por exemplo, 180 dias de licen\u00e7a-adotante \u2014 concedida aquelas que adotaram crian\u00e7as. Tempo igual ao concedido a gestantes na licen\u00e7a-maternidade.<\/p>\n<p>Todos esses avan\u00e7os, no entanto, n\u00e3o impedem que as funcion\u00e1rias federais, na pr\u00e1tica, pade\u00e7am da mesma situa\u00e7\u00e3o que as trabalhadoras privadas no que diz respeito a diferen\u00e7a de g\u00eanero: continuam com remunera\u00e7\u00e3o inferior \u00e0 dos homens e em cargos menos relevantes, embora ostentem grau superior de escolariza\u00e7\u00e3o. Dados de um estudo da Escola Nacional de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica (Enap) mostram que elas ainda s\u00e3o minoria na elite do servi\u00e7o p\u00fablico. No Poder Executivo, mulheres representam 46% do total. No Judici\u00e1rio, 9%. E no Legislativo, 2%, apenas.<\/p>\n<p>Um corte do estudo sobre escolaridade aponta que elas s\u00e3o t\u00e3o ou mais preparadas do que os homens para o mercado de trabalho. No Executivo, 48% das servidoras t\u00eam n\u00edvel superior completo, enquanto que o percentual masculino formado fica em 43%. As com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o chegam 5% ante 4% dos servidores; as com mestrado, 8% contra 7%; e quando assunto \u00e9 doutorado, os percentuais se assemelham 11% das funcion\u00e1rias possuem a extens\u00e3o ante 12% dos homens. Nos n\u00edveis que exigem menor conhecimento, a participa\u00e7\u00e3o do sexo feminino \u00e9 menor do que a do masculino: 4% tem ensino fundamental contra 8% dos homens; e 24% conclu\u00edram o ensino m\u00e9dio ante 26%.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a remunera\u00e7\u00e3o no setor p\u00fablico, o percentual de mulheres em cargos com sal\u00e1rios menores \u00e9 equivalente a dos homens, mas cai no topo de carreira. Ambos os sexos t\u00eam participa\u00e7\u00e3o de 3% na faixa entre R$ 1 mil e R$ 3 mil. 9% das mulheres ocupam vagas de R$ 2 mil a R$ 3 mil, contra 8% dos homens. Elas est\u00e3o em maior n\u00famero, 21% ante 17%, quando a remunera\u00e7\u00e3o fica entre R$ 3 mil e R$ 4,5 mil. Tem participa\u00e7\u00e3o igual na faixa entre R$ 6,5 mil e R$ 8,5 mil, de 12%. Por\u00e9m, na medida em que os ganhos mensais avan\u00e7am, a situa\u00e7\u00e3o vai se invertendo: de R$ 10,5 mil a R$ 12,5 mil, elas s\u00e3o 5% e eles, 6%. No topo, com R$ 12,5 mil ou mais, elas despencam para 12% e eles saltam para 17%.<\/p>\n<p>Uma das explica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para essa realidade, segundo analistas, pode ser o fato de que as mulheres, no servi\u00e7o p\u00fablico, assumem menos cargos de chefia. No Executivo, do total de cargos de dire\u00e7\u00e3o e assessoramento superior (DAS), 59% est\u00e3o com os homens e 41%, com as mulheres. Segundo Pedro Palotti, t\u00e9cnico da Enap, o recrutamento j\u00e1 aponta os limites. \u201cA maioria das mulheres n\u00e3o escolhe forma\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias exatas, por exemplo, onde est\u00e3o as fun\u00e7\u00f5es com sal\u00e1rios maiores na administra\u00e7\u00e3o federal\u201d, salientou.<\/p>\n<p>As mulheres procuram menos fun\u00e7\u00f5es representativas no ciclo de gest\u00e3o governamental, apontou a pesquisa da Enap. Em profiss\u00f5es como diplomata, elas ocupam apenas 38,4% das vagas. Representam 34,6% dos especialistas em pol\u00edticas p\u00fablicas e gest\u00e3o governamental, 30,5% dos analistas de com\u00e9rcio exterior, 30% dos analistas de finan\u00e7as e controle, 26,5% dos analistas de planejamento e or\u00e7amento e 23,2% dos t\u00e9cnicos de planejamento e pesquisa. \u201cEsse recorte pela prefer\u00eancia \u00e9 muito significativo, em fun\u00e7\u00e3o de onde se encontram os maiores DAS\u201d, destacou Palotti.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o tende a mudar, no entender do t\u00e9cnico na Enap, mas, por enquanto, h\u00e1 ainda uma parcela da sociedade, tanto no servi\u00e7o p\u00fablico, quanto no setor privado, que leva em considera\u00e7\u00e3o benef\u00edcios dado as mulheres que encarecem a contrata\u00e7\u00e3o. \u201cA legisla\u00e7\u00e3o trabalhista \u2014 que protege a gravidez, concede o aux\u00edlio-maternidade, entre outros \u2014 conta negativamente. Isso j\u00e1 e passado em pa\u00edses mais avan\u00e7ados e esperamos que seja em breve aqui tamb\u00e9m. O assunto preocupa tanto os pesquisadores a ponto de ter se tornado pauta da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU)\u201d, disse Palotti. At\u00e9 na Enap, de 200 servidores, apenas 50 s\u00e3o mulheres. \u201cAt\u00e9 as mulheres, em cargo de chefia, raramente recrutam mulheres\u201d, lamentou o t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>Esse paradoxo acontece no mundo inteiro, segundo Roberto Nogueira, t\u00e9cnico do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) e autor do comunicado Ocupa\u00e7\u00e3o no setor p\u00fablico brasileiro: tend\u00eancias recentes e quest\u00f5es em aberto. Ele destacou que os homens s\u00e3o mais bem pagos em todas as esferas do poder. A m\u00e9dia, em todo o servi\u00e7o p\u00fablico brasileiro, \u00e9 de 5,5 sal\u00e1rios m\u00ednimos para os homens e 3,9 para as mulheres. Nos estados, eles recebem 6,2 sal\u00e1rios m\u00ednimos e elas 4,6; e na municipal, s\u00e3o tr\u00eas para eles e 2,7 para elas.<\/p>\n<p><strong>Casos<\/strong><\/p>\n<p>A dificuldade das mulheres para chegar ao topo da pir\u00e2mide do servi\u00e7o p\u00fablico \u00e9 revelada com cautela por algumas funcion\u00e1rias federais, por conta do temor de retalia\u00e7\u00f5es. V\u00e1rias receiam confessar que s\u00e3o discriminadas pelo g\u00eanero, at\u00e9 mesmo por amigos, que embora reconhe\u00e7am a compet\u00eancia delas, preferem os homens. Mar\u00edlia Antunes (nome fict\u00edcio) \u00e9 uma delas. \u201cNo \u00f3rg\u00e3o onde trabalho, o diretor pediu que meu chefe indicasse algu\u00e9m para um cargo importante. Imediatamente o chefe citou o nome de uma colega competent\u00edssima. A rea\u00e7\u00e3o do diretor foi mand\u00e1-lo escolher outro, at\u00e9 menos qualificado. &#8216;Vai que ela engravide no meio da tarefa&#8217;, ironizou ele.\u201d<\/p>\n<p>Outras servidoras, no entanto, afirmam que o mundo mudou e que a nova gera\u00e7\u00e3o tem menos problemas com isso. Daliane Silv\u00e9rio, 33 anos, chefe do Departamento de Arquivos Administrativos do Senado Federal, destacou que n\u00e3o enxerga mais a cultura machista, quando se trata de ocupa\u00e7\u00e3o de cargos de chefia. \u201cA quest\u00e3o \u00e9 empresarial, devido \u00e0s in\u00fameras atribui\u00e7\u00f5es da mulher e da exig\u00eancia da produtividade. Muitas vezes, devido \u00e0s m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es, acabamos precisando distribuir o tempo\u201d, assinalou.<\/p>\n<p>Com Daliane foi sempre diferente. Ela trabalha, estuda e leciona. J\u00e1 \u00e9 servidora h\u00e1 10 anos. \u201cEntrei no Senado, sete meses depois assumi uma chefia e um ano e meio ap\u00f3s virei substituta do coordenador\u201d, lembrou. Ela citou uma pesquisa interna, com 387 participantes, que aponta que 65% deles acreditam que homens e mulheres t\u00eam as mesmas oportunidades de crescimento profissional no Senado. Entre os homens, 77% partilham dessa opini\u00e3o, enquanto que entre as mulheres este percentual cai para 50%.<\/p>\n<p>No mundo inteiro, as mulheres est\u00e1 em percentual inferior nos cargos de chefia. Segundo a Pesquisa Closing the Gender Gap: Act Now, da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), o Brasil ocupa o quinto lugar, com 33% do publico feminino em cargos de chefia no Poder Executivo. Em primeiro lugar est\u00e1 a Eslov\u00eania (40,3%), seguida por Su\u00e9cia (39,9%), Nova Zel\u00e2ndia (39,8%), Austr\u00e1lia (36,5%) e Portugal (35,3%).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elas ocupam 55% das vagas do funcionalismo federal, estadual e municipal ante 50% dos postos do setor privado. Apesar de estarem em maior n\u00famero e terem maior escolaridade, t\u00eam dificuldade de alcan\u00e7ar o topo da carreira VERA BATISTA A primeira servidora p\u00fablica do pa\u00eds foi Joana Fran\u00e7a Stockmeyer, que trabalhou na Imprensa Nacional, de 1892 at\u00e9 sua aposentadoria, em 1944. 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