{"id":3608,"date":"2016-11-21T18:38:31","date_gmt":"2016-11-21T20:38:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/?p=3608"},"modified":"2016-11-21T18:39:01","modified_gmt":"2016-11-21T20:39:01","slug":"um-novo-olhar-sobre-aposentadoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/um-novo-olhar-sobre-aposentadoria\/","title":{"rendered":"Um novo olhar sobre a aposentadoria"},"content":{"rendered":"<p align=\"JUSTIFY\"><em>Este n\u00e3o \u00e9 um artigo sobre como sustentar as aposentadorias nem sobre a inviabilidade t\u00e9cnica das benevolentes regras atuais, particularmente os privil\u00e9gios das aposentadorias dos servidores p\u00fablicos brasileiros, avisa o autor. Estes s\u00e3o assuntos que o leitor conhece bem. \u00c9 preciso mudar essas regras \u2013 s\u00f3 n\u00e3o reconhece essa necessidade quem n\u00e3o quer ver ou quem n\u00e3o consegue enxergar para al\u00e9m do pr\u00f3prio umbigo. &#8220;Pretendo discutir aqui a figura do \u00e9den descrito na publicidade e a realidade de como preencher o tempo p\u00f3s-trabalho&#8221;, afirma.<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em>Jurandir Sell Macedo<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Os le\u00f5es s\u00f3 sobrevivem enquanto podem ca\u00e7ar. Depois de perderem a habilidade de ca\u00e7adores, eles viram ca\u00e7a. Este foi o destino do Homo Sapiens na maior parte da sua hist\u00f3ria. Isso s\u00f3 come\u00e7ou a mudar h\u00e1 cerca de 10 mil anos, com o fim do Paleol\u00edtico (idade da pedra lascada) e in\u00edcio do Neol\u00edtico (pedra polida). Foi quando alguns ca\u00e7adores-coletores descobriram a agricultura e passaram a viver em grupos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Nas sociedades agr\u00e1rias, o grupo passou a se encarregar da sobreviv\u00eancia dos mais fracos, entre eles os velhos. Neste per\u00edodo, quando o homem n\u00e3o podia mais ca\u00e7ar nem se dedicar \u00e0s atividades mais rudes da agricultura, ele era colocado para executar atividades mais amenas. A expectativa de vida na \u00e9poca deu um salto, passando dos 30 anos. Raras pessoas passavam muito desta idade. Aqueles que chegavam aos 60 eram reverenciados e considerados profetas, pregando seus conhecimentos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Mesmo nos tempos b\u00edblicos, quando aumentou o n\u00famero de indiv\u00edduos que conseguiam chegar aos 60 anos, o respeito pelas pessoas de idade manteve-se elevado. A ideia de aposentadoria no entanto n\u00e3o existia. Trabalhava-se at\u00e9 morrer, apenas mudando a atividade.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Mesmo considerando que at\u00e9 o s\u00e9culo 18 a expectativa de vida na Europa n\u00e3o passava de 35 anos, o n\u00famero de idosos crescia. Nesta \u00e9poca vigorava um pacto intergeracional em que a aposentadoria era pensada no seio da fam\u00edlia. Como poucas pessoas ficavam velhas, vigorava uma l\u00f3gica simples: cada um procurava enriquecer a fam\u00edlia e a heran\u00e7a era a forma de transmitir esta riqueza. Caso algu\u00e9m ficasse velho, era atendido pela mesma fam\u00edlia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A conviv\u00eancia com os idosos, cada vez mais numerosos, nem sempre era simples. Na Europa Vitoriana tornou-se preocupante o n\u00famero de parric\u00eddios dos muito ricos, em que filhos em meia-idade cansavam de esperar pela morte natural de seus genitores para assumir a condu\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios. No romance futurista \u201cThe fixed period\u201d, escrito por Anthony Trollope em 1882, o presidente de Britannula (col\u00f4nia brit\u00e2nica imagin\u00e1ria) aprovou uma lei determinando que pessoas que completassem 67 anos deveriam se retirar para terem um ano de contempla\u00e7\u00e3o e posteriormente se submeterem \u00e0 eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>O surgimento da aposentadoria<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Em 1889, o chanceler alem\u00e3o Otto von Bismarck estabeleceu um sistema nacional que assegurava o pagamento de uma pens\u00e3o a todos os trabalhadores do com\u00e9rcio, ind\u00fastria e agricultura que tivessem 70 anos ou mais. A ideia foi logo adotada na \u00c1ustria e na Hungria e se espalhou por outros pa\u00edses da Europa. A atitude de Bismarck de conceder aos trabalhadores uma renda custeada pelo estado sem nenhuma contribui\u00e7\u00e3o pode parecer generosa, mas \u00e9 importante lembrar que em 1870 a expectativa de vida na Europa era de 36,2 anos, chegando a 42,7 anos em 1900. Portanto pouqu\u00edssimos trabalhadores chegavam aos 70 anos, idade muito avan\u00e7ada para a \u00e9poca.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Antes de Bismarck j\u00e1 havia algumas iniciativas de \u201csocorro p\u00fablico\u201d, sistemas em que algumas categorias da sociedade recebiam ajuda do estado para sobreviver, notadamente militares que retornavam de guerras sem condi\u00e7\u00f5es de sustento. Bismarck apenas sistematizou e ampliou a velha caridade p\u00fablica.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Com a industrializa\u00e7\u00e3o e a migra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o do campo para as cidades, o envelhecimento que era um problema das fam\u00edlias passou a ser problema das empresas. Trabalhadores envelhecidos atrapalhavam as linhas de montagem e a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Em 1905 no discurso de despedida do Johns Hopkins Hospital, o mundialmente famoso m\u00e9dico-chefe William Osler tornou a aposentadoria justific\u00e1vel sob a l\u00f3gica econ\u00f4mica. Osler afirmou que entre os 25 e os 40 anos um trabalhador vive seus 15 anos dourados. J\u00e1 entre os 40 e os 60 eram os anos toler\u00e1veis e que ap\u00f3s os 60, idade que ele estava completando, um trabalhador era in\u00fatil e deveria ser \u201cmandado para o pasto\u201d. Ele se referia ao antigo h\u00e1bito de dar aos cavalos velhos da fam\u00edlia real inglesa uma pastagem para esperar a morte natural (em vez de serem abatidos como os outros equinos com menos sorte).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Os americanos, por\u00e9m, relutavam em parar de trabalhar. Al\u00e9m de n\u00e3o terem com o que viver muitos n\u00e3o tinham porqu\u00ea viver ap\u00f3s o fim do trabalho. Em 1935 o presidente Franklin D. Roosevelt prop\u00f4s a Lei da Seguran\u00e7a Social, determinando que os trabalhadores pagassem por seu pr\u00f3prio seguro de velhice. Com esta iniciativa, Roosevelt conseguiu abortar um crescente movimento para que o estado Norte Americano arcasse com a aposentadoria dos trabalhadores.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Parcialmente resolvido o problema de como viver, era preciso ressignificar a vida na aposentadoria. Os campos de golfe, o cinema, a televis\u00e3o e a possibilidade de mudar para a Fl\u00f3rida tornam menos sombria a hip\u00f3tese de aposentadoria para os americanos. De um castigo, ela passou a ser um sonho a ser alcan\u00e7ado. Ao menos era o que a maci\u00e7a propaganda dos planos de previd\u00eancia fazia acreditar.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Para quem n\u00e3o tinha disposi\u00e7\u00e3o para jogar golfe ou mudar para um local apraz\u00edvel, Eleanor Roosevelt sugeria uma cadeira de balan\u00e7o. Segundo ela, esse seria o segredo de uma boa vida, j\u00e1 que os mais velhos saberiam amar seu tempo livre. Na realidade, a aposentadoria antes sonhada por muitos se transformava em um penoso tempo a ser passado sentado em uma cadeira de balan\u00e7o, esperando a morte chegar.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>A crise da aposentadoria<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Se o destino do tempo de aposentadoria j\u00e1 era um problema em 1950, quando a expectativa de vida no mundo era de 50 anos, o que dizer agora que a expectativa de vida nos pa\u00edses desenvolvidos se aproxima dos 80 anos?<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Felizmente a ind\u00fastria do entretenimento cresceu muito e as op\u00e7\u00f5es para os aposentados que t\u00eam recursos se multiplicaram. Mas a vis\u00e3o edulcorada de um tempo maravilhoso e a esdr\u00faxula figura da \u201cmelhor idade\u201d n\u00e3o passam de sonho para um grande n\u00famero de aposentados que acreditavam que a felicidade chegaria junto com o \u00faltimo n\u00f3 da gravata ou o \u00faltimo cart\u00e3o batido.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A felicidade \u00e9 resultado de quatro grandes aspectos: prazer, pertencer, prop\u00f3sito e transcend\u00eancia (o sentimento de que nossa vida continua ap\u00f3s o nosso fim). Para um n\u00famero muito expressivo de trabalhadores, a atividade do dia a dia gera um sentimento de prop\u00f3sito, de que a vida contribui para os outros. Tamb\u00e9m pode estar associado a um sentimento de pertencimento, afinal de contas muitas vezes somos o fulano da empresa tal. At\u00e9 mesmo o sentimento de perenidade da empresa na qual trabalhamos pode amenizar a ang\u00fastia da finitude da vida humana.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A aposentadoria abre espa\u00e7o para o lazer, mas para quem n\u00e3o se preparar muito bem, ela pode abrir uma lacuna nos outros aspectos da felicidade. Assim, em vez de encontrar a suprema felicidade ao n\u00e3o precisar mais dedicar-se ao trabalho, frequentemente encontramos a ang\u00fastia dos dias vazios e sem sentido.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>O novo olhar<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ser\u00e1 que a sa\u00edda \u00e9 trabalhar at\u00e9 o \u00faltimo momento, como no passado? Ou ser\u00e1 que precisamos buscar desesperadamente uma segunda ou terceira carreira como muitos pregam? Ser\u00e1 que isso \u00e9 vi\u00e1vel para a maioria?<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na universidade em que dou aula, j\u00e1 vi muitos colegas contarem os dias para a aposentadoria. J\u00e1 vi colegas preenchendo uma tabela em que calculam os dias faltantes, tal qual um prisioneiro que anseia pela liberdade. Seis meses depois relatam com orgulho como a vida sem trabalho \u00e9 maravilhosa. Um ano depois voltam pedindo para serem professores volunt\u00e1rios. Querem o trabalho de volta, mesmo sem qualquer remunera\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Uma imensa alegria seguida de um profundo sentimento de perda \u00e9 um padr\u00e3o recorrente para a aposentadoria de muitos profissionais bem-sucedidos que tenho acompanhado durante os \u00faltimos anos. Eu mesmo terei que tomar esta decis\u00e3o em breve. Adoro o que fa\u00e7o e me realizo profundamente como professor.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Felizmente, pelas avalia\u00e7\u00f5es dos alunos, minhas aulas t\u00eam mais qualidade hoje do que aos 40. A profecia do m\u00e9dico William Osler n\u00e3o fez sentido na minha vida, e certamente n\u00e3o o faz para os leitores que passaram h\u00e1 muito dos 40 anos. N\u00e3o sonho com a fim do trabalho, mas sinto que minha capacidade f\u00edsica declina e a vontade de ter tempo livre aumenta. Vejo que este sentimento \u00e9 compartilhado por muitos contempor\u00e2neos: temos vontade de reduzir nosso ritmo de trabalho mas n\u00e3o de tir\u00e1-lo de nossas vidas. Ser\u00e1 que n\u00e3o seria a hora de pensarmos em alternativas para a aposentadoria diante das profundas mudan\u00e7as que a expectativa de vida causou na sociedade?<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00c9 ineg\u00e1vel que precisamos reformar nossa previd\u00eancia e que vamos precisar trabalhar mais tempo. Tamb\u00e9m \u00e9 ineg\u00e1vel que muitos que sonham com a aposentadoria ir\u00e3o lutar com todas as for\u00e7as para manter o que consideram um direito adquirido.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Precisamos sair da dicotomia de que trabalhar mais \u00e9 ruim e aposentar-se \u00e9 bom. Muita gente que pensa assim conquista o sonho para depois descobrir que ele \u00e9 um pesadelo. Mas como mudar essa mentalidade? Uma alternativa seria permitir uma mudan\u00e7a no ritmo do trabalho, quem sabe mais meses de f\u00e9rias, carga hor\u00e1ria menor ou at\u00e9 mesmo uma semana de trabalho mais curta, com finais de semana mais longos. Nas universidades poder\u00edamos ter professores j\u00e1 com direito a aposentadoria que abririam m\u00e3o dela e continuariam dando aulas &#8212; eventualmente tendo direito a um assistente ou at\u00e9 mesmo dando aulas em um semestre e folgando no semestre seguinte.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O leque de op\u00e7\u00f5es \u00e9 imenso e a criatividade das empresas e empregados poderia ampliar muito as possibilidades. Quem disse que executivos bem-sucedidos n\u00e3o poderiam encontrar op\u00e7\u00f5es dentro das pr\u00f3prias empresas, ganhando menos e trabalhando menos, sem precisar achar uma segunda carreira em outra empresa? Afinal de contas nem todos t\u00eam a sorte do personagem de Robert De Niro no filme \u201cUm Senhor Estagi\u00e1rio\u201d (2015).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Repensar a aposentadoria passa tamb\u00e9m por reavaliar a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista retr\u00f3grada e feita no bojo da revolu\u00e7\u00e3o industrial, quando o trabalho nas f\u00e1bricas mais se assemelhava a um castigo do que a parte importante da vida como historicamente se tornou.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O trabalho faz parte da realiza\u00e7\u00e3o do homem. A velhice, que era rara, hoje \u00e9 comum e provavelmente continuar\u00e1 sendo. Com serenidade e esperan\u00e7a, poderemos repensar a aposentadoria. S\u00f3 precisamos repelir veementemente os arautos do atraso que acreditam que precisam \u201cproteger as conquistas\u201d do Estado Novo e que ainda v\u00eaem o trabalho como o pior castigo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em>*Jurandir Sell Macedo<\/em> \u00e9 doutor em Finan\u00e7as Comportamentais, com p\u00f3s-doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universit\u00e9 Libre de Bruxelles (ULB) e professor de Finan\u00e7as Pessoais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em><strong>*O artigo foi originalmente publicado na Revista RI de outubro<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este n\u00e3o \u00e9 um artigo sobre como sustentar as aposentadorias nem sobre a inviabilidade t\u00e9cnica das benevolentes regras atuais, particularmente os privil\u00e9gios das aposentadorias dos servidores p\u00fablicos brasileiros, avisa o autor. 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