{"id":8236,"date":"2018-02-18T01:06:30","date_gmt":"2018-02-18T04:06:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/?p=8236"},"modified":"2018-02-17T19:20:03","modified_gmt":"2018-02-17T21:20:03","slug":"as-raizes-profundas-da-criminalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/servidor\/as-raizes-profundas-da-criminalidade\/","title":{"rendered":"As ra\u00edzes profundas  da criminalidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Viol\u00eancia que assola o Rio de Janeiro nasceu da conjun\u00e7\u00e3o de fatores como corrup\u00e7\u00e3o, aus\u00eancia do Estado e m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda, dizem especialistas<\/em><\/p>\n<p>A estrutura\u00e7\u00e3o do crime n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno brasileiro. Historicamente, h\u00e1 outros exemplos contundentes, como a m\u00e1fia na It\u00e1lia, para citar apenas um. No Brasil, a expans\u00e3o do crime organizado, na maioria dos casos, teve como sustent\u00e1culos a corrup\u00e7\u00e3o, a aus\u00eancia do Estado e a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda, de acordo com analistas. As receitas para combater o problema, no entanto, s\u00e3o diversas e, em cada estado, h\u00e1 uma nuance espec\u00edfica, embora as bases possam ser as mesmas. No Rio de Janeiro, que vive hoje uma interven\u00e7\u00e3o de for\u00e7as federais, os alicerces foram criados no per\u00edodo de chumbo dos governos militares, afirma o professor N\u00e9lson Gon\u00e7alves, especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica da Universidade Cat\u00f3lica de Bras\u00edlia (UCB).<\/p>\n<p>\u201cPesquisas apontam que as grandes fac\u00e7\u00f5es criminosas se formaram em consequ\u00eancia da jun\u00e7\u00e3o de presos pol\u00edticos com presos comuns. Intelectuais, com forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica muitas vezes de fora do pa\u00eds, em tese, educaram esses criminosos\u201d, assinala Gon\u00e7alves. Com essa \u201ccapacita\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel\u201d, diz ele, n\u00e3o apenas no Rio, como tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo e em outras cidades da Regi\u00e3o Nordeste, as a\u00e7\u00f5es delituosas passaram a ser coordenadas. \u201cNo Rio e em S\u00e3o Paulo, acontece com frequ\u00eancia. Isso n\u00e3o se faz sem uma intelig\u00eancia. O problema \u00e9 que nosso sistema legal n\u00e3o consegue acompanhar essa evolu\u00e7\u00e3o\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o piorou porque os agentes p\u00fablicos se contaminam. Os mecanismos de prolifera\u00e7\u00e3o foram incentivados por policiais, pol\u00edticos, empres\u00e1rios e outras classes sociais e econ\u00f4micas, que usaram bandidos e traficantes na sua prote\u00e7\u00e3o pessoal e para cabalar votos. \u201cNo final dos anos 1980, o ex-governador Leonel Brizola, chegou a proibir a pol\u00edcia de subir o morro\u201d, lembra Gon\u00e7alves. Esse caldo de cultura foi refor\u00e7ado pela m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda de um pa\u00eds onde 10% da popula\u00e7\u00e3o concentra 80% da renda, acrescenta.<\/p>\n<p>Os jovens viam pais honestos trabalhando para ganhar um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Ao seu lado, um traficante com carr\u00f5es e roupas importadas. \u201cEle passou a desejar aquele glamour para sua vida. Sem escola, sem hospitais, sem moradia digna, sucumbiu ao chamado do crime\u201d, destaca o professor. Da\u00ed se conclui que s\u00e3o m\u00faltiplos os fatores: legisla\u00e7\u00e3o branda, justi\u00e7a lenta e preocupada com o indiv\u00edduo (n\u00e3o com o social), compactua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas para jovens e adolescentes, m\u00e1 gest\u00e3o dos espa\u00e7os urbanos e p\u00e9ssima distribui\u00e7\u00e3o de renda, resume Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p><strong>Educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Diante da conjuntura de desalento, a principal sa\u00edda \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o de qualidade. \u201cTenho d\u00favidas se uma interven\u00e7\u00e3o armada no Rio, ou em qualquer outro local do Brasil, vai surtir efeito. Pode ser um come\u00e7o, admito. Mas n\u00e3o adianta colocar um Estado falido sob as ordens do Ex\u00e9rcito. Que policial vai se comprometer em uma a\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o tem respaldo? De que adianta ele prender, se a Justi\u00e7a solta?\u201d, questiona N\u00e9lson Gon\u00e7alves, especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica da Universidade Cat\u00f3lica de Bras\u00edlia (UCB).<\/p>\n<p>Alvino Augusto de S\u00e1, professor de criminologia cl\u00ednica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), concorda que o problema n\u00e3o tem uma resposta simples. Boa parte da sociedade quer que a pol\u00edcia invada os morros, prenda e, se poss\u00edvel, mate os bandidos. \u201cViol\u00eancia contra viol\u00eancia n\u00e3o resolve\u201d, ressalta. At\u00e9 porque, inconscientemente, a sociedade segue uma pol\u00edtica de \u00f3dio que, historicamente, vem sendo alimentada pelo pr\u00f3prio Estado. \u201cOs governos transferem o \u00f3dio da popula\u00e7\u00e3o para o crime. Uma forma para que n\u00e3o se veja sua incapacidade de atender a necessidades b\u00e1sicas, como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, moradia, alimenta\u00e7\u00e3o. Ataca a fac\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a causa pela qual a fac\u00e7\u00e3o existe. O objetivo \u00e9 encontrar um inimigo, deixar todo mundo com \u00f3dio, e, enfim, atac\u00e1-lo para angariar votos e simpatia. \u00c9 lament\u00e1vel\u201d, critica.<\/p>\n<p>Alvino de S\u00e1 conta que ouviu de um preso de fac\u00e7\u00e3o criminosa paulista seguinte frase: \u201cno dia em que o Estado reconhecer todos os direitos da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, quem sabe, as fac\u00e7\u00f5es n\u00e3o tenham mais raz\u00e3o para existir\u201d. Isso, segundo ele, \u201cdeixa claro que a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda quer mesmo \u00e9 dignidade\u201d. Agora, mais uma vez, com a interven\u00e7\u00e3o armada e a cria\u00e7\u00e3o de um minist\u00e9rio espec\u00edfico, destaca Alvino de S\u00e1, \u201co governo usa a mis\u00e9ria e o \u00f3dio da popula\u00e7\u00e3o, para solu\u00e7\u00f5es imediatistas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Treinamento<\/strong><\/p>\n<p>Como todo problema complexo, por\u00e9m, a criminalidade suscita vis\u00f5es diferentes e diversas propostas de solu\u00e7\u00e3o. Consultor e ex-secret\u00e1rio nacional de Seguran\u00e7a, o coronel Jos\u00e9 Vicente da Silva, aponta como solu\u00e7\u00e3o \u201ca melhora substancial na estrutura e no treinamento dos policiais\u201d. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, aponta, a criminalidade diminuiu ap\u00f3s a prepara\u00e7\u00e3o da tropa passar a ser de dois anos, enquanto no resto do pa\u00eds \u00e9 de 6 meses. \u201cTodo coronel tem mestrado e doutorado. Primeiro, vem o aparelhamento da pol\u00edcia. A popula\u00e7\u00e3o vem depois. Para quem \u00e9 criminoso, n\u00e3o adianta se pensar em pol\u00edtica social. Isso \u00e9 para cidad\u00e3o honesto. Precisamos \u00e9 de pol\u00edcia ostensiva e investiga\u00e7\u00e3o eficiente\u201d, disse.<\/p>\n<p>O coronel conta que, nos Estados Unidos, nas d\u00e9cadas de 1960 a 1980, \u201chouve uma explos\u00e3o de pol\u00edticas sociais\u201d. A viol\u00eancia n\u00e3o caiu, enquanto a vigil\u00e2ncia n\u00e3o se tornou eficiente. \u201c\u00c9 bom lembrar que esse neg\u00f3cio de dizer que o cara quando ficar pobre vira bandido \u00e9 um conceito p\u00e9ssimo. N\u00e3o existe essa liga\u00e7\u00e3o direta\u201d, afirma. No Rio de Janeiro, ele identificou como o maior problema para o caos que se instalou na cidade a falta de efetivo.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Civil, segundo ele, atua com cerca de um ter\u00e7o do necess\u00e1rio. A Pol\u00edcia Militar est\u00e1 com os batalh\u00f5es esvaziados. \u201cTudo isso agravado pela alta corrup\u00e7\u00e3o. Uma quantidade imensa de policiais violou os padr\u00f5es \u00e9ticos, o que deu chance para o crime se organizar. Os criminosos foram aproveitando as oportunidades, ocupando os espa\u00e7os e, sem estrat\u00e9gias eficientes das pol\u00edcias, foram se armando. Mas a sa\u00edda, repito, \u00e9 uma pol\u00edcia unida e uma investiga\u00e7\u00e3o eficiente\u201d, destaca o coronel Jos\u00e9 Vicente da Silva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viol\u00eancia que assola o Rio de Janeiro nasceu da conjun\u00e7\u00e3o de fatores como corrup\u00e7\u00e3o, aus\u00eancia do Estado e m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda, dizem especialistas A estrutura\u00e7\u00e3o do crime n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno brasileiro. Historicamente, h\u00e1 outros exemplos contundentes, como a m\u00e1fia na It\u00e1lia, para citar apenas um. 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