{"id":2946,"date":"2024-09-30T09:33:03","date_gmt":"2024-09-30T12:33:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2946"},"modified":"2024-09-30T09:33:03","modified_gmt":"2024-09-30T12:33:03","slug":"escrever-a-cavalo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/severino\/escrever-a-cavalo\/","title":{"rendered":"Escrever a cavalo"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">\nSe o Pr\u00eamio Nobel fizesse uma revis\u00e3o de seus equ\u00edvocos, certamente concederia uma l\u00e1urea p\u00f3stuma ao nosso pernambucano Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto. Ele \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 um dos mais importantes poetas brasileiros, mas tamb\u00e9m um dos grandes poetas do s\u00e9culo 20. Inventou uma poesia com l\u00edngua de faca, de pedra, de fuzil e de mandacaru. Fez poesia com mat\u00e9ria que n\u00e3o era po\u00e9tica.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">O epis\u00f3dio trivial de escolher o feij\u00e3o para cozinhar \u00e9 pretexto para uma reflex\u00e3o sobre o ato de escrever, no c\u00e9lebre poema <em>Catar feij\u00e3o<\/em>: \u201cCatar feij\u00e3o se limita com escrever: \/ Joga-se os gr\u00e3os na \u00e1gua do alguidar \/ E as palavras na folha de papel; \/ E depois, joga-se fora o que boiar\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Em seguida, Jo\u00e3o come\u00e7a a estabelecer distin\u00e7\u00f5es entre os dois atos. Escrever \u00e9 fluido e rarefeito: \u201cCerto, toda palavra boiar\u00e1 no papel, \/ \u00c1gua congelada, por chumbo seu verbo: \/ Pois, para catar esse feij\u00e3o, soprar nele, \/ E jogar fora o leve e oco, palha e eco\u201d. Ele adverte sobre os perigos que se escondem no material a ser selecionado: \u201cOra, nesse catar feij\u00e3o entra um risco: \/ O de que entre os gr\u00e3os pesados \/ Entre um gr\u00e3o qualquer, pedra ou indigesto, \/ Um gr\u00e3o imastig\u00e1vel, de quebrar dente\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">No entanto, Jo\u00e3o opta, deliberadamente, por esse gr\u00e3o imastig\u00e1vel, \u00e1spero e contundente para escrever. N\u00e3o por uma obsess\u00e3o gratuita, mas porque ele perturba a flu\u00eancia musical a que est\u00e1 ligada a poesia. Quase a cada poema, Jo\u00e3o funda uma po\u00e9tica: \u201cCerto n\u00e3o, quando ao catar palavras:\/ A pedra d\u00e1 \u00e0 frase seu gr\u00e3o mais vivo:\/Obstrui a leitura fluviante, flutual, \/ A\u00e7ula a aten\u00e7\u00e3o, isca-a com risco\u201d.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">A cr\u00edtica de Jo\u00e3o agu\u00e7a a percep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da poesia e inova ao incorporar \u00e0 cria\u00e7\u00e3o materiais que, a princ\u00edpio, n\u00e3o eram po\u00e9ticos. Mas o perigo \u00e9 o de que essa percep\u00e7\u00e3o se transforme em receita \u00fanica, a ser repetida por imitadores rasos. \u00c9 da\u00ed que surgem os jo\u00f5es cabralzinhos sem a for\u00e7a do original. Por isso, \u00e9 fundamental que surjam temperamentos fortes para contestar a f\u00f3rmula e restituir a liberdade \u00e0 poesia.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">Com essa mira, o poeta carioca Armando Freitas Filho, que nos deixou na quinta-feira, aos 84 anos, escreveu o poema <em>Ca\u00e7ar em v\u00e3o<\/em>. Antes de entrar no poema, \u00e9 preciso registrar que Armando era admirador de Jo\u00e3o Cabral e incorporou muitos aspectos da poesia do pernambucano em seu verso. Reconhecia que se n\u00e3o existisse Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, ele e todos da sua gera\u00e7\u00e3o seriam menores.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">No entanto, costumava dizer que, mais do que mestres ou m\u00famias culturais, Jo\u00e3o Cabral, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira eram inimigos poderosos a serem enfrentados. Se um poeta permanecer apenas deslumbrado ante o fulgor de qualquer um deles, n\u00e3o produzir\u00e1 uma obra singular.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00c9 preciso escavar a pr\u00f3pria voz. Portanto, <em>Ca\u00e7ar em v\u00e3o<\/em> \u00e9, a um s\u00f3 tempo, uma pol\u00eamica po\u00e9tica e uma homenagem irreverente. \u00c9 revelador da mestria do vate carioca na condi\u00e7\u00e3o de um dos mais importantes poetas brasileiros modernos.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">O poema de Armando tem um ritmo vertiginoso e n\u00e3o admite cortes. \u00c9 um outro olhar sobre o of\u00edcio da poesia. \u201c\u00c0s vezes escreve-se a cavalo. \/ Arremetendo, com toda a carga. \/ Saltando obst\u00e1culos ou n\u00e3o. \/ Atropelando tudo, passando por cima sem puxar o freio \u2014 \/ A galope \u2014 no susto, disparado \/ Sobre pedras, fora da margem \/ Feito s\u00f3 de patas, sem cabe\u00e7a \/ Nem tempo de ler no pensamento \/ O que corre ou o que empaca:\/ Sem ter a calma e o c\u00e1lculo \/ De quem colhe e cata feij\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco Se o Pr\u00eamio Nobel fizesse uma revis\u00e3o de seus equ\u00edvocos, certamente concederia uma l\u00e1urea p\u00f3stuma ao nosso pernambucano Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto. 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