{"id":3164,"date":"2025-02-09T16:59:58","date_gmt":"2025-02-09T19:59:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=3164"},"modified":"2025-02-09T16:59:58","modified_gmt":"2025-02-09T19:59:58","slug":"vital-farias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/severino\/vital-farias\/","title":{"rendered":"Vital Farias"},"content":{"rendered":"<p lang=\"zxx\">\n<p lang=\"zxx\">\n<strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p lang=\"zxx\">O paraibano Vital Farias, que nos deixou nesta semana, \u00e9 uma das trilhas sonoras da minha vida. Ao menos duas can\u00e7\u00f5es de sua autoria, Veja (Margarida) e A\u00ed que saudade d&#8217;oc\u00ea tocaram e tocam no cora\u00e7\u00e3o. A primeira \u00e9 uma despedida amorosa, dram\u00e1tica e triste.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Elba Ramalho a gravou em 1982, mas, na verdade, a composi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1978, tempo de grandes esperan\u00e7as, mas ainda assombrado pelos fantasmas do regime de exce\u00e7\u00e3o. Aqueles mais de 20 anos de cerceamentos, embates e resist\u00eancia deixaram marcas. E a can\u00e7\u00e3o parece tocar nessas feridas ao evocar a encruzilhada de um relacionamento amoroso que se finda marcado pela incerteza.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00c9 uma experi\u00eancia triste, mas iluminada pela poesia: &#8220;Veja, meu bem\/Arco-\u00edris j\u00e1 mudou de cor\/ Uma rosa nunca mais desabrochou\/E eu n\u00e3o quero ver voc\u00ea\/Veja, meu bem, gasolina vai subir de pre\u00e7o\/Eu n\u00e3o quero mais seu endere\u00e7o\/Ou \u00e9 o come\u00e7o do fim ou \u00e9 o fim&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Os \u00faltimos versos s\u00e3o ainda mais pungentes porque falam sobre uma despedida que tenta se agarrar ao alvo do seu amor de maneira desesperada, mas ainda com um fio de esperan\u00e7a desencantada e enigm\u00e1tica. &#8220;Eu vou partir pra cidade garantida, proibida\/Arranjar meio de vida, Margarida\/Pra voc\u00ea gostar de mim.\/Essas feridas da vida, Margarida\/Essas feridas da vida, amarga vida\/Pra voc\u00ea gostar de mim&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\u00c9 uma can\u00e7\u00e3o lindamente triste. H\u00e1 experi\u00eancias que s\u00e3o t\u00e3o et\u00e9reas, evanescentes, t\u00e3o impalp\u00e1veis e, no entanto, t\u00e3o verdadeiras. E esse \u00e9 o caso dessa can\u00e7\u00e3o para mim, que, sem premeditar, ao falar de um desenlace amoroso expressa o esp\u00edrito de um tempo da passagem da ditadura para a redemocratiza\u00e7\u00e3o permeado de nuances dram\u00e1ticas.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">J\u00e1 A\u00ed que saudade d&#8217;oc\u00ea, a segunda can\u00e7\u00e3o que me tocou \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de amor em forma de bai\u00e3o. Eu ficava intrigado com a express\u00e3o &#8220;d&#8217;oc\u00ea&#8221; na composi\u00e7\u00e3o de um paraibano arretado de Tapero\u00e1. Mas, em entrevista, Vital Farias esclareceu que fez a can\u00e7\u00e3o para uma namorada mineira.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Vivia um per\u00edodo de muitos shows, sobrava pouco tempo para v\u00ea-la e, quando chegava, ela dizia: &#8220;Estava com muita saudade d&#8217;oc\u00ea&#8221;. Eis como uma express\u00e3o t\u00e3o singularmente mineira entrou na bela can\u00e7\u00e3o de um menestrel paraibano. \u00c9 um bai\u00e3o rom\u00e2ntico \u00e0 altura das parcerias de Luiz Gonzaga com Humberto Teixeira.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Os versos de um lirismo de primeira linha que poderiam ser, tranquilamente, assinados por Manuel Bandeira, com muita honra: &#8220;N\u00e3o se admire se um dia um beija-flor invadir\/A porta da tua casa, te der um beijo e partir\/A porta da tua casa, te der um beijo e partir\/Fui eu que mandei o beijo\/Que \u00e9 pra matar meu desejo\/Faz tempo que eu n\u00e3o te vejo\/Ai que saudade d&#8217;oc\u00ea&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Estou com o Clim\u00e9rio: gosto de can\u00e7\u00e3o com poesia, de prefer\u00eancia com um encarte para ler, enquanto ou\u00e7o a m\u00fasica. A gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-tropicalista de Z\u00e9 Ramalho, Geraldo Azevedo, Belchior, Fagner, Alceu Valen\u00e7a, Vital Farias, Elba Ramalho, Clodo, Clim\u00e9rio e Cl\u00e9sio ainda precisa ser mais valorizada na hist\u00f3ria da m\u00fasica popular brasileira: &#8220;E se quiser recordar aquele nosso namoro\/Quando eu ia viajar, voc\u00ea ca\u00eda no choro\/Eu chorando pela estrada, mas o que eu posso fazer?\/Trabalhar \u00e9 minha sina\/Eu gosto mesmo \u00e9 d&#8217;oc\u00ea.&#8221;<\/p>\n<p lang=\"zxx\">Em todas as gera\u00e7\u00f5es nascem pessoas talentosas, mas a diferen\u00e7a \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o, a cultura e a ilustra\u00e7\u00e3o. Sem nenhuma nostalgia, eu acho que faltam esses ingredientes em boa parte da produ\u00e7\u00e3o musical da atualidade. Se eles fossem cultivados, surgiriam novos Vitais Farias:&#8221;E se quiser recordar aquele nosso namoro\/Quando eu ia viajar, voc\u00ea ca\u00eda no choro\/Eu chorando pela estrada, mas o que eu posso fazer?\/Trabalhar \u00e9 minha sina\/Eu gosto mesmo \u00e9 d&#8217;oc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p lang=\"zxx\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco O paraibano Vital Farias, que nos deixou nesta semana, \u00e9 uma das trilhas sonoras da minha vida. Ao menos duas can\u00e7\u00f5es de sua autoria, Veja (Margarida) e A\u00ed que saudade d&#8217;oc\u00ea tocaram e tocam no cora\u00e7\u00e3o. A primeira \u00e9 uma despedida amorosa, dram\u00e1tica e triste. 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