{"id":1027,"date":"2016-05-18T15:34:01","date_gmt":"2016-05-18T18:34:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1027"},"modified":"2016-05-18T15:46:24","modified_gmt":"2016-05-18T18:46:24","slug":"ilan-defende-ajuste-fiscal-e-reforma-da-previdencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/ilan-defende-ajuste-fiscal-e-reforma-da-previdencia\/","title":{"rendered":"Ilan defende ajuste fiscal e reforma da Previd\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O economista Ilan Goldfajn, escolha anunciada ontem pelo governo para a presid\u00eancia do Banco Central (BC), defende um ajuste fiscal profundo no pa\u00eds e acredita na possibilidade de redu\u00e7\u00e3o dos juros a partir do pr\u00f3ximo semestre. As avalia\u00e7\u00f5es foram feitas por ele em recente entrevista ao Correio, ainda na condi\u00e7\u00e3o de economista-chefe e s\u00f3cio do Ita\u00fa Unibanco.<\/em><br \/>\n<em> Para analistas de mercado, por\u00e9m, n\u00e3o se deve imaginar, por conta dessas opini\u00f5es, que Ilan venha a ter uma atitude leniente com a infla\u00e7\u00e3o, algo de que \u00e9 acusado o atual presidente do BC, Alexandre Tombini. Eles chamam aten\u00e7\u00e3o para o fato de que an\u00e1lises conjunturais envolvem percep\u00e7\u00e3o diferente da exigida no manejo da pol\u00edtica monet\u00e1ria.<\/em><br \/>\n<em> Ilan \u00e9 um economista de perfil ortodoxo. Nascido em Haifa, Israel, h\u00e1 50 anos, formou-se em economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fez mestrado na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), um dos principais centros do conservadorismo econ\u00f4mico no pa\u00eds. Tornou-se doutor pelo Instituto de Tecnlogia de Massachusetts (MIT). Entre 1996 e 1999, atuou no Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI).<\/em><br \/>\n<em> No ano seguinte, tornou-se diretor de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica do BC, na gest\u00e3o de Arminio Fraga. Ficou l\u00e1 at\u00e9 meados de 2003, convivendo por seis meses com Henrique Meirelles, que agora o escolheu. Ao comentar os desafios fiscais, Ilan prop\u00f4s que as contas do governo saiam do deficit de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para um superavit de 2,5%. O processo deve levar no m\u00ednimo dois anos, mas precisa come\u00e7ar j\u00e1, alertou.<\/em><br \/>\n<em> Ele tamb\u00e9m \u00e9 favor\u00e1vel a uma reforma consistente no sistema de aposentadorias, mesmo que os efeitos s\u00f3 sejam sentidos a longo prazo. A melhora da confian\u00e7a, argumenta, seria imediata.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CONHE\u00c7A O PENSAMENTO DO FUTURO PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edtica econ\u00f4mica<\/strong><br \/>\nH\u00e1 dificuldades pol\u00edticas e fiscais. As medidas que precisam ser tomadas n\u00e3o s\u00e3o populares. H\u00e1 uma grande incerteza.<\/p>\n<p><strong>C\u00e2mbio<\/strong><br \/>\nNos \u00faltimos tempos, temos tido uma expectativa maior de alguma mudan\u00e7a. Por isso o real se apreciou.<\/p>\n<p><strong>Ajuste<\/strong><br \/>\nPode haver frustra\u00e7\u00e3o, porque as dificuldades n\u00e3o s\u00e3o pequenas. H\u00e1 possibilidade de reduzir o deficit prim\u00e1rio, mas n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de mudar tudo de um ano para o outro, devido \u00e0 queda da arrecada\u00e7\u00e3o, \u00e0s despesas obrigat\u00f3rias que sobem. \u00c9 poss\u00edvel ir melhorando devagarzinho.<\/p>\n<p><strong>Meta<\/strong><br \/>\nPrecisamos chegar a um superavit prim\u00e1rio de 2% a 2,5% do PIB (Produto Interno Bruto). Hoje temos um deficit de cerca de 1,5%. Ent\u00e3o, estamos falando de um ajuste de 4% do PIB. O mais rapidamente que pudermos chegar l\u00e1 ser\u00e1 melhor. Pode-se esperar isso em dois ou tr\u00eas anos.<\/p>\n<p><strong>Efeito recessivo do ajuste<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 culpar o m\u00e9dico pela doen\u00e7a, que vem l\u00e1 de tr\u00e1s e ningu\u00e9m faz nada. O paciente chega muito debilitado e o m\u00e9dico consegue fazer com que ele reaja. Mas acabam culpando o profissional por ele n\u00e3o ter feito a pessoa sair saltitando. A gente tem de culpar \u00e9 a falta de preven\u00e7\u00e3o anterior. Em 2015, tivemos um problema bem s\u00e9rio. O ajuste no ano passado foi imperfeito, porque faltou apoio pol\u00edtico, for\u00e7a para tomar as medidas necess\u00e1rias. N\u00e3o vai ser f\u00e1cil andar para frente.<\/p>\n<p><strong>Despesa ou receita<\/strong><br \/>\nO lado da despesa \u00e9 o que precisa ser trabalhado com maior cuidado. Voc\u00ea n\u00e3o consegue fazer tudo de uma vez. Uma reforma da Previd\u00eancia mexe com o lado da despesa, ainda que tenha impacto s\u00f3 daqui a 20 ou 30 anos. \u00c9 poss\u00edvel que precise de uma medida de curt\u00edssimo prazo pelo lado da receita para ajudar, na transi\u00e7\u00e3o, a levar esse deficit de 1,5% a um superavit de 2,5%. \u00c9 muito dif\u00edcil conseguir apoio para isso, porque a sociedade est\u00e1 um pouco cansada de pagar para resolver o buraco do governo.<\/p>\n<p><strong>Novo governo<\/strong><br \/>\nTem mais chance de conseguir (aprovar reformas), mas n\u00e3o acho que \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p><strong>CPMF<\/strong><br \/>\nNenhum imposto \u00e9 razo\u00e1vel, mas talvez seja necess\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Reforma da Previd\u00eancia<\/strong><br \/>\nTeria impacto imediato na confian\u00e7a (ainda que os efeitos nas contas p\u00fablicas venham s\u00f3 a longo prazo), porque a d\u00favida \u00e9 a trajet\u00f3ria ao longo do tempo. Se voc\u00ea tem medidas que fazem a trajet\u00f3ria ser boa no futuro, elas t\u00eam impacto no presente. \u00c0s vezes n\u00e3o precisa fazer os cortes no dia, ou na hora, precisa \u00e9 indicar uma trajet\u00f3ria favor\u00e1vel. Isso aumenta a confian\u00e7a, faz as pessoas investirem, o PIB (Produto Interno Bruto) volta a crescer e voc\u00ea j\u00e1 tem uma trajet\u00f3ria melhor.<\/p>\n<p><strong>Volta dos investimentos<\/strong><br \/>\nA chave da mudan\u00e7a \u00e9 a capacidade de aprovar ajustes. Qualquer governo, a qualquer momento, se mostrar que h\u00e1 capacidade de fazer ajuste, de criar consenso, faz a diferen\u00e7a. H\u00e1 outras reformas al\u00e9m da previdenci\u00e1ria: cria\u00e7\u00e3o de teto para despesas, tribut\u00e1ria, pol\u00edtica. E, fazendo isso, os investimentos v\u00eam r\u00e1pido. A mudan\u00e7a de confian\u00e7a \u00e9 muito r\u00e1pida. N\u00e3o significa que os problemas n\u00e3o v\u00e3o mais existir.<\/p>\n<p><strong>Hesita\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nEstamos h\u00e1 13 trimestres com queda de investimentos. Existe hoje a posi\u00e7\u00e3o de muita gente de parar e esperar o melhor momento. \u00c0 medida que houver um al\u00edvio, que ficar menos incerto, isso pode destravar rapidamente. H\u00e1 um estoque reprimido de investimentos que est\u00e1 a espera de uma solu\u00e7\u00e3o. (Se n\u00e3o houver mudan\u00e7a, capacidade de mudan\u00e7a), a\u00ed fica na paralisia mais tempo. Este \u00e9 o perigo: n\u00e3o ter crescimento, n\u00e3o ter receita, n\u00e3o produzir, n\u00e3o empregar, n\u00e3o ter crescimento e ent\u00e3o termos um c\u00edrculo vicioso.<\/p>\n<p><strong>PIB<\/strong><br \/>\nAcho que teremos dois anos de queda e o pr\u00f3ximo mais ou menos zerado.<\/p>\n<p><strong>Infla\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nA infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 caindo nos cen\u00e1rios mais prov\u00e1veis. \u00c9 claro que, nos cen\u00e1rios extremos, se tiver o d\u00f3lar disparando de novo, isso n\u00e3o acontece. Se houver uma crise, falta de confian\u00e7a, isso pode acontecer. Tamb\u00e9m em caso de paralisia: se voc\u00ea n\u00e3o faz nada, fica sujeito a esses acidentes.<\/p>\n<p><strong>Juros<\/strong><br \/>\nSe a infla\u00e7\u00e3o continuar caindo, no segundo semestre o Banco Central vai baixar a Selic. No primeiro semestre, continuar\u00e1 conservador. A infla\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi 11% no ano passado. Se ela for na dire\u00e7\u00e3o que a gente est\u00e1 esperando, que \u00e9 perto de 7%, vai ser uma tenta\u00e7\u00e3o enorme baixar os juros num pa\u00eds que est\u00e1 em recess\u00e3o. Voltar ao centro da meta vai demorar um pouquinho mais.<\/p>\n<p><strong>Manuten\u00e7\u00e3o da Selic em janeiro<\/strong><br \/>\nFoi correta, mas n\u00e3o foi bem comunicada. Deu impress\u00e3o de uma decis\u00e3o de \u00faltima hora, mal explicada.<\/p>\n<p><strong>Queda da Selic em 2011<\/strong><br \/>\nFoi um pouco precipitada.<\/p>\n<p><strong>Origem dos erros<\/strong><br \/>\nNo segundo governo Lula, j\u00e1 se come\u00e7a a ter distor\u00e7\u00f5es, interven\u00e7\u00f5es. A coisa foi aumentando e culminou nos \u00faltimos anos, no governo Dilma.<\/p>\n<p><strong>Conjuntura internacional<\/strong><br \/>\nEst\u00e1 colaborando agora, pois h\u00e1 expans\u00e3o monet\u00e1ria, com juros baixos no mundo. Isso traz certo al\u00edvio, com fluxo de capital para pa\u00edses emergentes, inclusive o Brasil. Esse \u00e9 o cen\u00e1rio favor\u00e1vel hoje. \u00c0 medida que a economia global vai melhorando, voc\u00ea sai dessa situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, os juros v\u00e3o subindo, voc\u00ea tem menos est\u00edmulo para o Brasil. Isso favorece aqui um d\u00f3lar mais fraco, juro mais baixo. \u00c9 claro que, com a economia melhorando, eventualmente crescimento vai melhorar e a demanda tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Fed<\/strong><br \/>\nAcho que haver\u00e1 um aumento m\u00ednimo (da taxa b\u00e1sica de juros dos Estados Unidos) neste ano, de 0,25 mais 0,25 ponto, totalizando meio ponto. \u00c9 um aumento m\u00ednimo, mas seguro. Isso j\u00e1 est\u00e1 precificado. O que n\u00e3o est\u00e1 precificado \u00e9 a possibilidade de tr\u00eas ou quatro aumentos.<\/p>\n<p><strong>Bonan\u00e7a do passado<\/strong><br \/>\nNas economias emergentes, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, tende-se a achar que o boom \u00e9 permanente e que a queda \u00e9 tempor\u00e1ria, quando na verdade o ideal \u00e9 pensar o contr\u00e1rio: que os per\u00edodos de vacas gordas n\u00e3o v\u00e3o ser para sempre e que as quedas, quando v\u00eam, exigem ajuste. Os resultados ruins geram um questionamento, uma vontade de mudar. Mas \u00e9 essencial ter um diagn\u00f3stico do que deu errado. O equ\u00edvoco, por exemplo, \u00e9 achar que o problema foi o ajuste do ano passado, a tentativa de consertar. Com isso voc\u00ea n\u00e3o melhora, porque voc\u00ea nunca faz o ajuste.<\/p>\n<p><strong>Consenso<\/strong><br \/>\nH\u00e1 um certo consenso sobre as medidas que se precisa fazer: a reforma tribut\u00e1ria, a da Previd\u00eancia. N\u00e3o acho que haja um grande debate sobre a economia. O que precisa \u00e9 de um consenso pol\u00edtico para fazer. (\u00c9 um ganho limitado), porque, por enquanto, est\u00e1 s\u00f3 no campo das ideias. Todo mundo concorda, at\u00e9 a hora de implementar em que voc\u00ea vai ver os detalhes. Todo mundo \u00e9 a favor do ajuste fiscal, desde que seja no outro. Os consensos existem de fato quando voc\u00ea v\u00ea os detalhes.<\/p>\n<p><strong>Desvincula\u00e7\u00e3o de receitas<\/strong><br \/>\nSer\u00e1 preciso mudar as leis, rediscutir se o Estado tem a capacidade de fazer tudo o que promete. O ideal \u00e9 fazer escolhas: o que a gente acha que ser\u00e1 o melhor uso dos recursos do Estado. Isso envolve rediscuss\u00e3o de benef\u00edcios, gastos, e adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 receita que existe. Se a sociedade tem hoje ojeriza a aumentar imposto, ent\u00e3o tem de ter ojeriza ao excesso de gastos.<\/p>\n<p><strong>Bancos na crise<\/strong><br \/>\nO sistema banc\u00e1rio veio bem preparado para essa desacelera\u00e7\u00e3o. Reduziu o risco, tem liquidez. Ent\u00e3o n\u00e3o acho que isso seja uma fonte de preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 15h33min<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR PAULO SILVA PINTO &nbsp; O economista Ilan Goldfajn, escolha anunciada ontem pelo governo para a presid\u00eancia do Banco Central (BC), defende um ajuste fiscal profundo no pa\u00eds e acredita na possibilidade de redu\u00e7\u00e3o dos juros a partir do pr\u00f3ximo semestre. 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