{"id":1036,"date":"2016-05-19T09:08:00","date_gmt":"2016-05-19T12:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1036"},"modified":"2016-05-19T09:08:00","modified_gmt":"2016-05-19T12:08:00","slug":"prazo-de-validade-do-governo-pressiona-o-bc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/prazo-de-validade-do-governo-pressiona-o-bc\/","title":{"rendered":"Prazo de validade do governo pressiona o BC"},"content":{"rendered":"<p>O governo est\u00e1 ansioso por criar fatos positivos, especialmente na economia. \u00c9 vis\u00edvel, entre os aliados mais pr\u00f3ximos do presidente interino, Michel Temer, a cobran\u00e7a por resultados como forma de reduzir a rejei\u00e7\u00e3o popular ao peemedebista. O problema \u00e9 que todo o peso dessa ansiedade vai recair sobre o Banco Central, que ser\u00e1 comandado por Ilan Goldfajn. Todos apostam que, t\u00e3o logo tome posse, o economista conduza o esperado movimento de queda da taxa b\u00e1sica de juros (Selic), fixada em 14,25% desde o ano passado. A tens\u00e3o pr\u00e9-Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) j\u00e1 tem prazo para retornar com for\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De que os juros v\u00e3o cair, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Mas n\u00e3o h\u00e1 como o governo esperar pela m\u00e3o amiga de Ilan como contraponto a tantas informa\u00e7\u00f5es ruins, sobretudo na \u00e1rea fiscal. A infla\u00e7\u00e3o continua muito alta, acima de 9% no acumulado de 12 meses, e as expectativas, tanto para este ano quanto para 2017, est\u00e3o distantes da meta de 4,5% que a administra\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff nunca conseguiu entregar. Em todos os cen\u00e1rios tra\u00e7ados pelo BC, mexer nos juros nos pr\u00f3ximos meses pode reverter os primeiros sinais de desinfla\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aqueles que acompanham o dia a dia do Banco Central garantem que, se fosse mantido na presid\u00eancia da institui\u00e7\u00e3o, Alexandre Tombini teria maior facilidade para dar in\u00edcio aos cortes da Selic. Primeiro, pelo perfil menos comprometido com um r\u00edgido controle do custo de vida. A infla\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual na administra\u00e7\u00e3o dele ficou acima de 7%, ou seja, al\u00e9m do limite de toler\u00e2ncia previsto em lei, de 6,5%. Segundo, porque ele vem preparando terreno para o afrouxo monet\u00e1rio h\u00e1 meses. Mas foi atropelado pelo impeachment de Dilma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A perspectiva da atual diretoria do BC era de que a Selic come\u00e7asse a cair, lentamente, a partir de julho, no m\u00e1ximo de setembro em diante, \u00e0 medida que a infla\u00e7\u00e3o fosse cedendo, puxada pela grav\u00edssima recess\u00e3o na qual o pa\u00eds est\u00e1 mergulhado. A institui\u00e7\u00e3o, no entanto, manteria, at\u00e9 l\u00e1, o discurso de que a redu\u00e7\u00e3o da Selic s\u00f3 se confirmaria caso o mercado comprasse a ideia de que a carestia estava saindo de cena. O pr\u00f3prio Ilan trabalhava como essa perspectiva at\u00e9 a semana passada, ainda como economista-chefe do Ita\u00fa Unibanco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Passo em falso<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao assumir o BC, por\u00e9m, Ilan pisar\u00e1 em ovos. A confian\u00e7a depositada nele pelos agentes econ\u00f4micos n\u00e3o permite que ele d\u00ea qualquer passo em falso. A aposta \u00e9 de que o economista ser\u00e1 capaz de reconstruir a credibilidade da autoridade monet\u00e1ria, algo fundamental para criar um ambiente mais favor\u00e1vel aos neg\u00f3cios. A maior miss\u00e3o de Ilan \u00e9 resgatar a previsibilidade, para que as empresas tenham a certeza de que podem investir sem ame\u00e7as no horizonte e as fam\u00edlias, consumirem. Com Dilma e Tombini, esse importante pilar foi destru\u00eddo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A tend\u00eancia \u00e9 de que o conservadorismo impere no primeiro ano de gest\u00e3o de Ilan. E isso significar\u00e1 juros maiores do que o necess\u00e1rio para domar de vez a infla\u00e7\u00e3o. Nem mesmo a recess\u00e3o profunda ser\u00e1 capaz de convencer a pr\u00f3xima diretoria do BC a acelerar o passo apenas para agradar ao governo. Se cair nessa armadilha, n\u00e3o haver\u00e1 volta. A desmoraliza\u00e7\u00e3o ser\u00e1 total, o que \u00e9 incompat\u00edvel com a promessa de Temer de deixar os tempos de estripulias na economia para tr\u00e1s. Na situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica em que o Brasil est\u00e1, \u00e9 imposs\u00edvel prescindir de um BC forte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas conversas que teve com Ilan a fim de convenc\u00ea-lo a assumir a Presid\u00eancia do BC, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, assegurou que a autonomia para decis\u00f5es sobre juros seria cl\u00e1usula p\u00e9trea. Contudo, o futuro presidente do BC ter\u00e1 que lidar com a ansiedade pol\u00edtica. A administra\u00e7\u00e3o Temer est\u00e1 sustentada em uma penca de partidos com vis\u00f5es muito diferentes. Quer dizer: o risco de press\u00f5es virem por todos os lados \u00e9 grande. H\u00e1 um prazo que o pr\u00f3prio governo se deu para apresentar resultados concretos na economia \u2014 60 dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se nada acontecer nesse per\u00edodo, o Banco Central ser\u00e1 visto como salvador da p\u00e1tria. Veremos a repeti\u00e7\u00e3o do filme que passou no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Ela tanto pressionou, que o Copom deu um cavalo de pau na pol\u00edtica monet\u00e1ria e reduziu a Selic para o menor n\u00edvel da hist\u00f3ria, 7,25% ao ano, mesmo com a infla\u00e7\u00e3o em alta. A fa\u00e7anha durou apenas seis meses. O BC foi obrigado a subir os juros. Mas, independentemente ao arrocho, a infla\u00e7\u00e3o continuou aumentando, at\u00e9 fechar 2015 em quase 11%, algo sem precedentes em 12 anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desejo e realidade<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo dando total liberdade a Ilan para conduzir o BC, Temer acredita que a institui\u00e7\u00e3o ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de cortar juros ainda no in\u00edcio do segundo semestre, pois h\u00e1 a garantia firme de se apresentar um ajuste fiscal consistente. O grosso das proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o feitas pelo mercado incorpora a press\u00e3o do desajuste fiscal sobre os pre\u00e7os. Na vis\u00e3o do governo, com a sinaliza\u00e7\u00e3o de que as contas p\u00fablicas ser\u00e3o arrumadas, os analistas tender\u00e3o a \u201climpar\u201d os \u00edndices e a expectativas de infla\u00e7\u00e3o convergir\u00e3o mais rapidamente para o centro da meta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tomara que o governo saiba separar bem desejo de realidade. No contexto atual, n\u00e3o h\u00e1 a menor possibilidade de a situa\u00e7\u00e3o das contas p\u00fablicas dar um conforto. Muito pelo contr\u00e1rio. Quase tudo o que \u00e9 preciso fazer para que o ajuste fiscal saia do campo da promessa tem que passar pelo Congresso, sobre o qual Temer est\u00e1 longe de ter controle. Cabe, portanto, ao BC de Ilan se manter distante da pol\u00edtica. Todas as vezes que houve aproxima\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o com os interesses do Pal\u00e1cio do Planalto o desastre se confirmou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 09h07min<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo est\u00e1 ansioso por criar fatos positivos, especialmente na economia. \u00c9 vis\u00edvel, entre os aliados mais pr\u00f3ximos do presidente interino, Michel Temer, a cobran\u00e7a por resultados como forma de reduzir a rejei\u00e7\u00e3o popular ao peemedebista. 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