{"id":107,"date":"2015-06-12T08:33:00","date_gmt":"2015-06-12T11:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/arrocho\/"},"modified":"2015-06-12T08:33:00","modified_gmt":"2015-06-12T11:33:00","slug":"arrocho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/arrocho\/","title":{"rendered":"ARROCHO"},"content":{"rendered":"\n<p>O Banco Central est\u00e1 convencido de que, com a ata do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) divulgada ontem, os analistas v\u00e3o se render mais rapidamente ao discurso de que a infla\u00e7\u00e3o vai mesmo convergir para o centro da meta, de 4,5%, at\u00e9 o fim de 2016. Ainda que os pr\u00f3prios t\u00e9cnicos do BC admitam que atingir tal objetivo \u201cparece ser algo quase imposs\u00edvel\u201d, uma vez que a carestia est\u00e1 se aproximando de 9%, todos os modelos econom\u00e9tricos usados pela institui\u00e7\u00e3o mostram que o tombo do custo de vida ser\u00e1 forte no pr\u00f3ximo ano. <\/p>\n<p>A meta do BC, com a ata do Copom, foi consolidar a vis\u00e3o de que os juros v\u00e3o subir at\u00e9 onde for necess\u00e1rio para que a promessa de levar a infla\u00e7\u00e3o ao centro da meta seja cumprida. Por mais doloroso que possa ser para a economia, que est\u00e1 mergulhada na recess\u00e3o, a prioridade, neste momento, \u00e9 retomar o controle da carestia. O BC est\u00e1 consciente de que, sem uma infla\u00e7\u00e3o mais baixa, a retomada do crescimento econ\u00f4mico ficar\u00e1 mais distante. N\u00e3o h\u00e1 confian\u00e7a de consumidores e empres\u00e1rios que resista \u00e0 disparada dos pre\u00e7os. <\/p>\n<p>Em recentes conversas com t\u00e9cnicos do governo, integrantes da c\u00fapula do BC deixaram claro que, mesmo que o Copom d\u00ea por encerrado o aumento dos juros nos pr\u00f3ximos meses \u2014 o mercado aposta em mais uma alta da taxa b\u00e1sica (Selic) de 0,50 ponto percentual em julho e outra de 0,25 em setembro, passando dos atuais 13,75% para 14,50% ao ano \u2014, nada impedir\u00e1 que, mais adiante, o arrocho seja retomado, caso a infla\u00e7\u00e3o saia da rota esperada. <\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do BC, dois fatores tendem a levar o IPCA para pr\u00f3ximo de 4,5% ao longo de 2016. O primeiro deles \u00e9 a retomada do controle das expectativas. O entendimento \u00e9 de que, ao manter firme o aperto monet\u00e1rio iniciado depois das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, aos poucos, os economistas foram derrubando as proje\u00e7\u00f5es para o custo de vida. As estimativas para 2016 est\u00e3o ancoradas em 5,5% e as de 2017 e 2018 j\u00e1 se aproximam do centro da meta. <\/p>\n<p>Outro fator que anima o BC \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da in\u00e9rcia inflacion\u00e1ria, que estimula os agentes econ\u00f4micos a reajustarem seus pre\u00e7os olhando para tr\u00e1s. Ainda que a diminui\u00e7\u00e3o da in\u00e9rcia esteja apenas come\u00e7ando, o mercado passar\u00e1 a incorporar tal movimento em suas proje\u00e7\u00f5es, fazendo com que elas se aproximem das previs\u00f5es da autoridade monet\u00e1ria. O peso menor da in\u00e9rcia na infla\u00e7\u00e3o se dar\u00e1 por meio do mercado de trabalho. Com o desemprego aumentando, a demanda por servi\u00e7os vai diminuir e, em consequ\u00eancia, os reajustes de pre\u00e7os. <\/p>\n<p><b>A contragosto<\/b> <\/p>\n<p>O BC sabe que est\u00e1 correndo uma maratona para levar a infla\u00e7\u00e3o a 4,5%. E tem no\u00e7\u00e3o de que a corrida s\u00f3 estar\u00e1 conclu\u00edda no fim de 2016. A avalia\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 de que, se o IPCA ainda atormenta, certamente, a situa\u00e7\u00e3o estaria pior se o Copom n\u00e3o tivesse come\u00e7ado a agir em outubro do ano passado. Os \u00edndices correntes de pre\u00e7os estariam acima de 10% e as expectativas para 2016, 2017 e 2018, completamente desancoradas. <\/p>\n<p>No entorno da presidente Dilma Rousseff, os avisos do BC foram completamente absorvidos, ainda que a contragosto. Esperava-se que, com a ata do Copom de ontem, a autoridade monet\u00e1ria indicasse o fim do aumento dos juros. A justificativa era de que, desde o piso de 7,25%, em vigor at\u00e9 abril de 2013, a Selic j\u00e1 subiu 6,5 pontos percentuais \u2014 um arrocho e tanto. Para o time comandado por Alexandre Tombini, por\u00e9m, o trabalho est\u00e1 incompleto e \u00e9 \u201cpreciso determina\u00e7\u00e3o e perseveran\u00e7a\u201d. <\/p>\n<p>No BC, \u00e9 vis\u00edvel que todos gostariam que a Selic estivesse caindo, com as expectativas inflacion\u00e1rias ancoradas no centro da meta. Mas, para os t\u00e9cnicos da institui\u00e7\u00e3o, de nada adiantaria derrubar os juros num quadro de infla\u00e7\u00e3o alta e ter que aument\u00e1-los rapidamente. Esse vaiv\u00e9m foi marcante ao longo do primeiro mandato de Dilma Rousseff. Por isso, a desconfian\u00e7a do mercado em rela\u00e7\u00e3o ao real compromisso da autoridade monet\u00e1ria de levar o IPCA para 4,5%. Nos \u00faltimos quatro anos, em nenhum momento, o BC conseguiu prever a infla\u00e7\u00e3o real. Sempre subestimou os \u00edndices. <\/p>\n<p>Para t\u00e9cnicos do governo, n\u00e3o foi apenas o BC que errou nas estimativas de infla\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m o mercado menosprezou a for\u00e7a dos reajustes de pre\u00e7os. E o motivo mais gritante para os desacertos foi a pol\u00edtica fiscal. A autoridade monet\u00e1ria jamais viu ser cumprida a promessa do Minist\u00e9rio da Fazenda de entregar uma economia para o pagamento de juros (superavit prim\u00e1rio) que jogasse contra a carestia. Al\u00e9m disso, demorou para que o BC e os economistas privados se dessem conta de que a economia havia criado uma bifurca\u00e7\u00e3o. De um lado, a ind\u00fastria desabava. De outro, o setor de servi\u00e7os mostrava for\u00e7a suficiente para derrubar o desemprego e pressionar a infla\u00e7\u00e3o. \u201cAgora, todos entendem isso\u201d, diz um dos t\u00e9cnicos. <\/p>\n<p><b>Receita do desastre<\/b> <\/p>\n<p>No entender dos economistas que se debru\u00e7aram sobre a ata do Copom, tudo leva a crer que o BC est\u00e1 se redimindo dos erros recentes e refor\u00e7ando sua independ\u00eancia para levar a infla\u00e7\u00e3o ao centro da meta. Mas alegam que o custo \u201cda determina\u00e7\u00e3o e da perseveran\u00e7a\u201d ser\u00e1 elevado. Tanto que alguns analistas j\u00e1 come\u00e7am a falar em queda de at\u00e9 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e de pelo menos 0,5% em 2016. <\/p>\n<p>O BC tem ideia do tamanho do impacto do arrocho monet\u00e1rio sobre a atividade. Mas alerta que todos no Brasil aprenderam que um pouquinho mais de infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante mais crescimento. Na verdade, essa receita \u00e9 um passo para o desastre, do qual, agora, o pa\u00eds luta arduamente para se livrar.<i> <\/p>\n<p><\/i><i>Bras\u00edlia, 08h35min<\/i>   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Banco Central est\u00e1 convencido de que, com a ata do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) divulgada ontem, os analistas v\u00e3o se render mais rapidamente ao discurso de que a infla\u00e7\u00e3o vai mesmo convergir para o centro da meta, de 4,5%, at\u00e9 o fim de 2016. 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