{"id":1241,"date":"2016-06-04T00:01:00","date_gmt":"2016-06-04T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1241"},"modified":"2016-06-04T11:18:28","modified_gmt":"2016-06-04T14:18:28","slug":"coluna-do-correio-forca-dos-lobbies","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-do-correio-forca-dos-lobbies\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: A for\u00e7a dos lobbies"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 foi muito, mas muito maior a empolga\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rios e investidores com o governo de Michel Temer. A euforia que tomou conta de todos com o afastamento de Dilma Rousseff do poder e a promessa do sucessor de tocar uma pol\u00edtica econ\u00f4mica respons\u00e1vel, sobretudo na \u00e1rea fiscal, deu lugar \u00e0 apreens\u00e3o e a uma certa decep\u00e7\u00e3o. H\u00e1 o temor de que ele resvale para o mesmo caminho trilhado pela petista e que todos conhecem muito bem: recess\u00e3o brutal, infla\u00e7\u00e3o alta e desemprego em disparada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de humor se baseia no apoio de Temer ao pesado reajuste concedido aos servidores p\u00fablicos, que custar\u00e1 pelo menos R$ 58 bilh\u00f5es aos cofres federais em quatro anos, se todos os projetos prevendo aumentos ao funcionalismo forem aprovados pelo Congresso \u2014 a fatura at\u00e9 agora est\u00e1 em R$ 53 bilh\u00f5es. O presidente interino alega que a corre\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios estava prevista no Or\u00e7amento de 2016 e que a decis\u00e3o do Legislativo pacifica as rela\u00e7\u00f5es com um grupo muito importante. \u00c9 uma meia verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que est\u00e1 previsto no Or\u00e7amento deste ano \u00e9 a menor parcela do reajuste, que vai de agosto a dezembro, de R$ 7 bilh\u00f5es. A maior parte da fatura recair\u00e1 sobre o governo nos dois anos seguintes, R$ 19,4 bilh\u00f5es e R$ 26,5 bilh\u00f5es. Ou seja, os impactos reais do aumento ao funcionalismo ainda n\u00e3o est\u00e3o precificados nas contas da Uni\u00e3o, uma vez que os Or\u00e7amentos de 2017 e de 2018 n\u00e3o foram feitos ainda. Certamente, quando as propostas forem encaminhadas ao Congresso, essas despesas extras contribuir\u00e3o para manter as contas p\u00fablicas no vermelho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Recria\u00e7\u00e3o da CPMF<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Marcos Lisboa, presidente da escola de neg\u00f3cios Insper, \u00e9 inadmiss\u00edvel que o governo provis\u00f3rio, que assumiu prometendo um forte ajuste fiscal, ceda a grupos de press\u00e3o e transfira uma fatura t\u00e3o pesada para a maior parte da sociedade, a come\u00e7ar pela proposta de recria\u00e7\u00e3o da CPMF sob a justificativa de que o imposto ser\u00e1 provis\u00f3rio, enquanto as contas p\u00fablicas s\u00e3o arrumadas. \u201cEstamos vivendo o maior desemprego da hist\u00f3ria, com 11,4 milh\u00f5es de desocupados, e aqueles que ainda se mant\u00eam no mercado de trabalho veem a renda cair. \u00c9 inaceit\u00e1vel que um grupo que tem estabilidade no emprego, que tem voz em Bras\u00edlia, transfira a conta para o restante da sociedade\u201d, afirma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mantido esse tipo de comportamento, Lisboa acredita que o governo Temer pode provocar uma crise ainda mais grave, pois a retomada da confian\u00e7a dos agentes econ\u00f4micos est\u00e1 longe de ser uma realidade. \u201cN\u00e3o h\u00e1 mais como atender a grupos de interesse. \u00c9 preciso pensar no pa\u00eds como um todo\u201d, refor\u00e7a. Para ele, a sociedade j\u00e1 pagou caro demais por pol\u00edticas direcionadas, que n\u00e3o trouxeram nenhum resultado pr\u00e1tico para a economia ou para a melhoria da qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O quadro se agrava, na vis\u00e3o de Lisboa, porque tudo est\u00e1 sendo tratado como se fosse a coisa mais natural do mundo. \u201cN\u00e3o \u00e9\u201d, enfatiza. No entender dele, o momento exige a redu\u00e7\u00e3o do tamanho do governo e n\u00e3o o seu aumento. \u201cN\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o se revoltar quando se v\u00ea a manuten\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios para poucos\u201d, assinala.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos reajustes de sal\u00e1rios, o Congresso aprovou a cria\u00e7\u00e3o de mais de 14 mil cargos para o setor p\u00fablico. O Minist\u00e9rio do Planejamento justifica que tamb\u00e9m essas vagas estavam previstas, mas que nenhuma delas ser\u00e1 preenchida neste ano nem em 2017. Ent\u00e3o, por que aprov\u00e1-las agora? Seria melhor discutir o assunto com a sociedade e, no tempo ideal, prop\u00f4-las, se comprovada a real necessidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Cota de sacrif\u00edcio<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Temer, ao avalizar o reajuste dos servidores \u2014 a conta vai aumentar, pois v\u00e1rias carreiras ainda n\u00e3o tiveram os projetos de reajuste votados pelo Congresso \u2014 e a amplia\u00e7\u00e3o de vagas em v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, est\u00e1 mostrando um sinal equivocado \u00e0 sociedade, que est\u00e1 disposta a dar sua cota de sacrif\u00edcio, mas quer um governo firme, comprometido com o ajuste fiscal. N\u00e3o uma administra\u00e7\u00e3o que brinque com fogo. A presidente afastada, Dilma Rousseff, se especializou em estripulias, manobras, pedaladas nas contas p\u00fablicas. Foi golpeada por um processo de impeachment e entrou para a hist\u00f3ria como uma das piores presidentes do Brasil \u2014 sen\u00e3o, a pior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A previs\u00e3o \u00e9 de que o rombo nas contas p\u00fablicas deste ano chegue a R$ 170,5 bilh\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 um deficit trivial, principalmente se levarmos em conta que 2016 ser\u00e1 o terceiro ano seguido de contas no vermelho. Dados do pr\u00f3prio governo mostram que, numa gest\u00e3o respons\u00e1vel, com enorme responsabilidade sobre os gastos, o pa\u00eds s\u00f3 voltar\u00e1 a ter superavit prim\u00e1rio (economia para pagar juros da d\u00edvida) daqui a oito anos. Essas proje\u00e7\u00f5es n\u00e3o contemplam irresponsabilidade como a farra de reajustes ao funcionalismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alguns economistas ainda acreditam ser poss\u00edvel virar o jogo e resgatar a confian\u00e7a dos agentes produtivos. Mas admitem que, na \u00e2nsia de antecipar a vota\u00e7\u00e3o do impeachment no Senado e de liquidar a fatura at\u00e9 julho, Temer pode abrir todas as portas e ceder a todos os grupos de press\u00e3o. Nesse quadro nada abonador, ele corre o risco de meter os p\u00e9s pelas m\u00e3os. N\u00e3o h\u00e1 mais toler\u00e2ncia da sociedade, que sofre com desemprego, infla\u00e7\u00e3o alta e recess\u00e3o, com governos comprometidos com grupos espec\u00edficos em detrimento da maioria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 00h01min<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 foi muito, mas muito maior a empolga\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rios e investidores com o governo de Michel Temer. 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