{"id":1248,"date":"2016-06-05T00:01:44","date_gmt":"2016-06-05T03:01:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1248"},"modified":"2016-06-05T11:56:53","modified_gmt":"2016-06-05T14:56:53","slug":"coluna-no-correio-cheiro-de-naftalina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-cheiro-de-naftalina\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Cheiro de naftalina"},"content":{"rendered":"<p>POR ANTONIO MACHADO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato assombra os pol\u00edticos com m\u00e3os sujas, o cheiro de naftalina, caracter\u00edstico de coisa velha, re\u00fane a soma de todos os medos deste in\u00edcio vacilante do governo interino de Michel Temer. O bolor pespegado na administra\u00e7\u00e3o e nas ideias de Dilma Rousseff \u00e9 o que cabe \u00e0 gest\u00e3o atual remover para aspirar \u00e0 perman\u00eancia at\u00e9 2018. Ela ser\u00e1 fun\u00e7\u00e3o do fim da recess\u00e3o, da revers\u00e3o do desemprego e da retomada do investimento. As condi\u00e7\u00f5es para tanto n\u00e3o vir\u00e3o de espertezas das raposas peemedebistas, mas da coragem de arrostar as corpora\u00e7\u00f5es do setor p\u00fablico e impor efici\u00eancia \u00e0 gest\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As confus\u00f5es na escolha dos ocupantes dos cargos-chaves s\u00e3o sinais de que o PMDB n\u00e3o se preparou para a queda de Dilma. J\u00e1 o recuo em decis\u00f5es estrat\u00e9gicas, mais frequente que o razo\u00e1vel, sugere receio de Temer, sempre cordato, em desagradar, al\u00e9m de algo pior: a falta de convic\u00e7\u00e3o &#8212; mesmo que a tenha &#8212; sobre o que precisa ser feito.\u00a0 Foi isso o que transmitiu ao avalizar a aprova\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara de uma baciada de 14 projetos de aumentos de sal\u00e1rios de 38 categorias do funcionalismo federal, de juiz do Supremo (teto no setor p\u00fablico, elevado para R$ 39,2 mil, mas que ningu\u00e9m respeita) a servidores da C\u00e2mara e do Senado, al\u00e9m de criar 14 mil cargos. S\u00f3 o aumento de sal\u00e1rio implicar\u00e1 at\u00e9 2018 gasto extra de R$ 58 bilh\u00f5es. N\u00fameros do PSDB indicam um \u00f4nus maior: R$ 100 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso aconteceu uma semana depois de o Congresso autorizar o novo governo a realizar d\u00e9ficit prim\u00e1rio, fora juros, de at\u00e9 R$ 170,5 bilh\u00f5es este ano (com juros, vai a R$ 555 bilh\u00f5es). Significa que todos os aumentos aprovados exigem emiss\u00e3o de d\u00edvida, que pressiona os juros. N\u00e3o h\u00e1 caixa nem para gastos ordin\u00e1rios, j\u00e1 que a receita cresce abaixo do gasto desde 1989 e afundou depois de 2014, devido \u00e0 recess\u00e3o (piorada pelo pr\u00f3prio desarranjo fiscal).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E tudo isso por qu\u00ea? O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, \u00e9 experiente e chegou com a proposta de impor um teto para o aumento do gasto a partir de 2017, baseado no or\u00e7amento deste ano corrigido apenas pela infla\u00e7\u00e3o anual. Exatamente para aprovar esta proposta, assim como a da idade m\u00ednima nas aposentadorias. Trata-se da velha f\u00f3rmula do \u00e9 dando que se recebe. Com anos de janela nesse jogo, o PMDB sabe que primeiro teria de receber antes de dar o que fosse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sabe aquele prov\u00e9rbio?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 bem de hesita\u00e7\u00e3o do novo governo, mas seu car\u00e1ter provis\u00f3rio. Temer preferiu agradar o funcionalismo, enquanto n\u00e3o se aprova no Senado o impeachment da presidente. Tamb\u00e9m admite lanhar a sua imagem, cedendo a quem fale grosso (artistas, sem teto etc.). Fato \u00e9 que os que lhe antecederam no Pal\u00e1cio do Planalto fizeram o mesmo e se deram mal. Todos. FHC escondeu a desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial at\u00e9 obter a reelei\u00e7\u00e3o, como Dilma, que se reelegeu mentindo sobre o rombo fiscal. E Lula? Armou a maioria no Congresso que o PT n\u00e3o lhe deu e terminou com mensal\u00e3o, petrol\u00e3o &#8212; apoio arrendado que levou \u00e0 pulveriza\u00e7\u00e3o dos partidos. Com cinismo: \u00e0 \u201csocializa\u00e7\u00e3o\u201d do butim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Oriundo desse meio, j\u00e1 que desde as elei\u00e7\u00f5es de 1994 n\u00e3o concorre \u00e0 Presid\u00eancia, supunha-se que o PMDB tentasse um jeito diferente de formar maioria, ainda mais num Congresso escaldado pela Lava-Jato. Mas sabe aquele prov\u00e9rbio? O uso do cachimbo faz a boca torta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cumplicidade para o bem<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 tudo perdido, como o marketing do PT busca inculcar, al\u00e9m de Temer ter certa condescend\u00eancia pela falta de op\u00e7\u00f5es vi\u00e1veis. As expectativas talvez fossem mais otimistas se se pautassem pela <em>Ponte para o Futuro<\/em>, programa com ideias consensuais, que estiveram com Dilma no fim de 2014 e com o ent\u00e3o ministro Joaquim Levy no meio de 2015. O plano foi para Temer a \u201cponte\u201d para chegar ao empresariado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meirelles e o pr\u00f3ximo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, viram no texto assumido pelo PMDB um bom programa. Deveriam rel\u00ea-lo. Na proposta do teto do gasto or\u00e7ament\u00e1rio, por exemplo, fala-se l\u00e1 de desindexa\u00e7\u00e3o gradual, aplicando-se a meta da infla\u00e7\u00e3o oficial projetada (n\u00e3o a passada, como disse Meirelles), de modo a tornar a sociedade c\u00famplice e parceira da estabilidade fiscal e monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O mal das ideias mofadas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As ideias para desbastar o custo dos investimentos e simplificar a atividade empresarial tamb\u00e9m s\u00e3o pontes para o progresso. O social-desenvolvimentismo que Dilma julgou praticar foi tosco por ignorar o desenvolvimento (fun\u00e7\u00e3o de lucro, investimento, emprego e renda) como esteio do bem-estar. Exauriu a economia sem cuidar de repor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O governo Temer ser\u00e1 curto para tentar voos mais altos. Ent\u00e3o, que n\u00e3o se intimide pela burocracia nem por grupos progressistas s\u00f3 de boca. Tome-se a Petrobras: foi seu presidente, Pedro Parente, falar contra o monop\u00f3lio no pr\u00e9-sal para, em nota, a Federa\u00e7\u00e3o \u00danica dos Petroleiros dizer que, se acontecer, \u201ca empresa perder\u00e1 82 bilh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo\u201d. Mas n\u00e3o a Uni\u00e3o, isto \u00e9, a sociedade, \u00fanica dona do pr\u00e9-sal. O pa\u00eds n\u00e3o pode esperar a estatal desendividar-se. As ideias mofadas alienam o futuro e desgra\u00e7am o presente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ouvir, dizer n\u00e3o e ousar<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A esta altura em que surgem sinais de redu\u00e7\u00e3o do ritmo da recess\u00e3o \u00e9 importante n\u00e3o perder a oportunidade, que continuar\u00e1 m\u00ednima. Nas contas do economista Fernando Montero, a recess\u00e3o e a ociosidade (a ind\u00fastria operou em abril com apenas 76,9% de sua capacidade) devem vergar a infla\u00e7\u00e3o. Se acrescentar um ajuste fiscal cr\u00edvel, diz ele, abre-se o campo \u201cposs\u00edvel e necess\u00e1rio\u201d para juros nominais e reais \u201csubstancialmente\u201d menores. E sem o risco de repique da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o com a produ\u00e7\u00e3o 23% abaixo do \u00faltimo pico (setembro de 2013), 62% mais desempregados que h\u00e1 dois anos, o PIB acumulando perda de 7,3% em oito trimestres e o somat\u00f3rio entre investimento e consumo murchando 13,3%. Tais dados indicam, na vis\u00e3o de Montero, o espa\u00e7o da oferta para a retomada c\u00edclica. Temer vai usufru\u00ed-la. Se fizer pouco mais na \u00e1rea fiscal (sem subir imposto), ser\u00e1 consagrado. Mas ter\u00e1 de ouvir mais, aprender a dizer n\u00e3o e pensar fora da caixa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 00h01min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR ANTONIO MACHADO &nbsp; Se a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato assombra os pol\u00edticos com m\u00e3os sujas, o cheiro de naftalina, caracter\u00edstico de coisa velha, re\u00fane a soma de todos os medos deste in\u00edcio vacilante do governo interino de Michel Temer. 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