{"id":1386,"date":"2016-06-11T07:01:32","date_gmt":"2016-06-11T10:01:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=1386"},"modified":"2016-06-11T11:11:00","modified_gmt":"2016-06-11T14:11:00","slug":"coluna-no-correio-sinais-de-fragilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/coluna-no-correio-sinais-de-fragilidade\/","title":{"rendered":"Coluna no Correio: Sinais de fragilidade"},"content":{"rendered":"<p>O modelo de crescimento econ\u00f4mico baseado no consumo, que prevaleceu nos governo de Lula e de Dilma Rousseff, n\u00e3o s\u00f3 se mostrou insustent\u00e1vel, como deixou uma fatura pesada demais para o pa\u00eds carregar. Os dados s\u00e3o estarrecedores. Mais de 60 milh\u00f5es de pessoas f\u00edsicas est\u00e3o na lista de maus pagadores e 54,4% (4,42 milh\u00f5es) das empresas t\u00eam d\u00e9bitos em atraso, que totalizam R$ 105,6 bilh\u00f5es, quase 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Com o desemprego em alta e a recess\u00e3o longe do fim, reverter esse quadro levar\u00e1 anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse Brasil dos endividados est\u00e1 na base dos argumentos que gente gra\u00fada do governo de Michel Temer e pol\u00edticos travestidos de empres\u00e1rios v\u00eam usando para defender a r\u00e1pida queda das taxas de juros. Alegam que, sem condi\u00e7\u00f5es mais confort\u00e1veis para se renegociar os d\u00e9bitos, dificilmente o pa\u00eds conseguir\u00e1 sair do p\u00e2ntano da recess\u00e3o e voltar a crescer para gerar emprego e renda. O perigo desse discurso \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o de se resvalar para o populismo, criando ainda mais distor\u00e7\u00f5es numa economia que precisa de previsibilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos governos petistas, acreditou-se que, estimulando o endividamento e for\u00e7ando os bancos p\u00fablicos a darem cr\u00e9dito a rodo, o pa\u00eds cresceria indefinidamente. Com isso, em vez de se constru\u00edrem f\u00e1bricas para aumentar a oferta de mercadorias e reduzir o custo de vida, as cidades foram abarrotadas de shopping centers e de revendas de autom\u00f3veis. Bastou, por\u00e9m, o PIB perder for\u00e7a para que as op\u00e7\u00f5es erradas apresentassem as contas. As vendas ca\u00edram, a ind\u00fastria encolheu, as demiss\u00f5es aceleraram e a renda recuou. N\u00e3o h\u00e1 atividade que se sustente nesse ambiente hostil, contaminado ainda pela infla\u00e7\u00e3o alta, pela desconfian\u00e7a e por uma crise pol\u00edtica devastadora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Brasil teve tempo de sobra para mudar de rumo. Mas a intransig\u00eancia de Dilma p\u00f4s tudo a perder. Mesmo ciente de que as fam\u00edlias j\u00e1 n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de assumir mais d\u00edvidas, ela continuou insistindo no erro. Tanto que obrigou a Caixa Econ\u00f4mica Federal a criar o programa Minha Casa Melhor, para que os benefici\u00e1rios do Minha Casa Minha Vida pudessem mobiliar seus im\u00f3veis. Mais de 30% dos agraciados com um cart\u00e3o de R$ 5 mil nunca pagaram \u00e0 Caixa, que foi obrigada a lan\u00e7ar R$ 534 milh\u00f5es em preju\u00edzos em seu balan\u00e7o. A perda s\u00f3 n\u00e3o foi maior porque o banco transferiu para a Engea, empresa p\u00fablica especializada em cr\u00e9ditos podres, R$ 1 bilh\u00e3o em financiamentos que dificilmente ser\u00e3o recuperados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Recuos de Meirelles<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se realmente quiser mudar a cara desse Brasil dos endividados, em vez de ficar contando com o Banco Central para reduzir juros, o governo ter\u00e1 que abra\u00e7ar de vez o ajuste fiscal. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 a base de todos os problemas na economia. Com Henrique Meirelles no comando do Minist\u00e9rio da Fazenda, surgiu a real possibilidade de arruma\u00e7\u00e3o das contas p\u00fablicas. Mas, aos poucos, d\u00favidas v\u00e3o pairando no horizonte. O governo fiscalista j\u00e1 n\u00e3o se mostra t\u00e3o comprometido assim com as finan\u00e7as do pa\u00eds. Dia ap\u00f3s dia os sinais nessa dire\u00e7\u00e3o v\u00e3o ficando mais claros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agora, j\u00e1 se fala em flexibilizar a Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) que limita o aumento dos gastos \u00e0 infla\u00e7\u00e3o do ano anterior. De in\u00edcio, Meirelles garantiu que o projeto a ser encaminhado ao Congresso n\u00e3o teria prazo de vig\u00eancia, pois a prioridade era garantir que, ao longo do tempo, a d\u00edvida p\u00fablica entraria em trajet\u00f3ria de queda. Pressionado pela alta pol\u00edtica do governo, Temer admite fixar um prazo de at\u00e9 cinco anos de validade para a medida. Em vez de gritar contra, o ministro da Fazenda indicou que ceder\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim como est\u00e1 sendo complacente em rela\u00e7\u00e3o ao prazo para a PEC, Meirelles fechou os olhos para a farra de reajustes dos servidores p\u00fablicos. Em nenhum momento colocou empecilho para a aprova\u00e7\u00e3o, na C\u00e2mara dos Deputados, da fatura que pode chegar a R$ 100 bilh\u00f5es at\u00e9 2019. Mais que isso, avalizou uma manobra para que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) recebessem uma gratifica\u00e7\u00e3o no valor do reajuste que seria vetado por Temer para dar exemplo de austeridade. O ministro da Fazenda tamb\u00e9m sancionou o aumento de mais de R$ 38 bilh\u00f5es nos gastos p\u00fablicos, que ser\u00e3o acomodados na previs\u00e3o de rombo de at\u00e9 R$ 170,5 bilh\u00f5es. O certo seria manter esses recursos contingenciados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um auxiliar pr\u00f3ximo de Meirelles diz que esses recuos fazem parte do jogo. E menciona o exemplo de Joaquim Levy, que, de t\u00e3o intransigente na proposta de ajuste fiscal, perdeu apoio dentro do governo e no Congresso. O importante, avalia o t\u00e9cnico, \u00e9 que a ess\u00eancia do ajuste fiscal seja mantida. E, disso, o ministro da Fazenda n\u00e3o abre m\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 bem assim. Meirelles deixou de anunciar recentemente medidas para a melhora das contas, como a alta de impostos, que defendia com todas as for\u00e7as quando estava fora do governo, porque foi avisado que o momento pol\u00edtico n\u00e3o comporta a\u00e7\u00f5es impopulares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Tudo como est\u00e1<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os recuos de Meirelles se somam aos movimentos de patrocinadores de Ilan Goldfajn para a Presid\u00eancia do Banco Central, que passaram a defender uma postura mais branda no combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o. Dizem que, em vez da converg\u00eancia para a meta, de 4,5%, em 2017, o objetivo poderia ficar para 2018. Ainda que seja quase imposs\u00edvel para Ilan entregar o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) na meta no ano que vem, soa estranho que, antes mesmo de o novo presidente do BC se sentar na cadeira \u2014 a transmiss\u00e3o de cargo ocorrer\u00e1 na segunda-feira \u2014 haja um movimento para tornar a vida dele mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para quem est\u00e1 sofrendo com a grav\u00edssima crise econ\u00f4mica, como empresas e fam\u00edlias endividadas, a mudan\u00e7a de postura do governo, sobretudo da equipe econ\u00f4mica, que se apresenta como fiadora de Temer, \u00e9 o pior que pode acontecer. Indica que a t\u00e3o prometida melhora da economia vai atrasar. E isso significar\u00e1 mais desemprego, mais infla\u00e7\u00e3o, menos vendas, menos produ\u00e7\u00e3o. Quer dizer: o risco de tudo continuar como est\u00e1 passou a ser uma possibilidade nada desprez\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 07h01min<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O modelo de crescimento econ\u00f4mico baseado no consumo, que prevaleceu nos governo de Lula e de Dilma Rousseff, n\u00e3o s\u00f3 se mostrou insustent\u00e1vel, como deixou uma fatura pesada demais para o pa\u00eds carregar. Os dados s\u00e3o estarrecedores. 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