{"id":19,"date":"2015-01-19T00:01:00","date_gmt":"2015-01-19T02:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/industria_do_atestado\/"},"modified":"2015-01-19T00:01:00","modified_gmt":"2015-01-19T02:01:00","slug":"industria_do_atestado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/industria_do_atestado\/","title":{"rendered":"IND\u00daSTRIA DO ATESTADO"},"content":{"rendered":"\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/wp-content\/uploads\/blog-vicente\/714331778d78c30199b11cfd289cb20b.jpg\">   <\/p>\n<p>&#8220;Vamos simbora prum bar: beber, cair e levantar\u201d Marcelo Marrone, Bruno Caliman e Thiago Basso    <\/p>\n<p>\u00bb DIEGO AMORIM   <\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse a destrui\u00e7\u00e3o de 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do pa\u00eds todos os anos, o alcoolismo tem impulsionado a invis\u00edvel e criminosa ind\u00fastria do falso atestado m\u00e9dico. Ressacados, principalmente no in\u00edcio da semana, trabalhadores pagam por documentos ilegais que os livram da obriga\u00e7\u00e3o de ir ao servi\u00e7o. As aus\u00eancias forjadas pelo \u00e1lcool alimentam a pr\u00e1tica da falsidade ideol\u00f3gica e atingem em cheio a produtividade de empresas e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos.   <\/p>\n<p>O Correio conseguiu um atestado m\u00e9dico falso para escancarar a facilidade com que isso \u00e9 feito. Bras\u00edlia, 12h18 de uma segunda-feira: a reportagem aborda, em frente ao Conic, no Setor de Divers\u00f5es Sul, um dos homens que, identificados com coletes, dizem trabalhar com \u201couro e atestado m\u00e9dico admissional\u201d. \u201cO senhor quer atestado para faltar ao servi\u00e7o, n\u00e3o \u00e9? Esse s\u00f3 uma mulher que faz, a gente concentra nela\u201d, adianta.   <\/p>\n<p>A tal mulher se apresenta como Jane e aparenta ter pouco mais de 40 anos. Interrompeu o almo\u00e7o para atender, conforme as contas dela mesma, o 10\u00ba \u201ccliente\u201d daquela manh\u00e3. Atenciosa, inicia as explica\u00e7\u00f5es: \u201c\u00c9 o seguinte: a gente trabalha com dois m\u00e9dicos. Um \u00e9 cl\u00ednico geral do Hospital do Parano\u00e1; a outra, \u2018otorrina\u2019 do Hospital de Base. Eles mesmos emitem o atestado, o senhor vai conferir\u201d, garante.   <\/p>\n<p>Utilizando-se de um discurso que soa recorrente e decorado, Jane emenda: \u201cA partir do momento em que voc\u00ea \u00e9 atendido aqui, seu nome vai automaticamente para a portaria do hospital, entendeu? N\u00e3o tem erro\u201d. Em seguida, a mulher diz que a irm\u00e3 trabalha com os m\u00e9dicos h\u00e1 nove anos. \u201cPara eles atenderem aqui, s\u00f3 se for com a minha confian\u00e7a.\u201d   <\/p>\n<p>Conclu\u00edda a met\u00f3dica introdu\u00e7\u00e3o, no intuito de tranquilizar o interessado no atestado falso, Jane avan\u00e7a para a parte pr\u00e1tica. \u201cOnde voc\u00ea mora?\u201d, pergunta ela, relembrando que o documento s\u00f3 pode ser emitido pelo Hospital de Base do Distrito Federal ou pelo Hospital do Parano\u00e1. \u201cCorreto, Hospital de Base para voc\u00ea. Mas l\u00e1 tem que ser uma sinusite, dor de garganta ou dor de ouvido\u201d, imp\u00f5e.   <\/p>\n<p>Diagn\u00f3stico   <\/p>\n<p>Indagada sobre o que mais leva as pessoas a recorrerem a ela, Jane n\u00e3o titubeia: \u201cMatar o servi\u00e7o por causa de ressaca\u201d. A seguir, quando escuta da reportagem que o sintoma era dor de cabe\u00e7a justamente por causa de ressaca, ela logo diagnostica: \u201cPronto: sinusite. Nome completo do senhor?\u201d. Ap\u00f3s pedir para ser aguardada em um dos bancos de uma lanchonete, a negociadora desaparece e, menos de tr\u00eas minutos depois, retorna com o atestado preenchido. \u201cEst\u00e1 aqui\u201d, mostra, confirmando as informa\u00e7\u00f5es dadas anteriormente.   <\/p>\n<p>Jane volta a dizer que vende atestados falsos h\u00e1 nove anos e que nunca teve problema. \u201cMas dobra, dobra direito (o atestado)\u201d, pede ela, pela primeira vez preocupada com a movimenta\u00e7\u00e3o de pessoas pr\u00f3ximas. A licen\u00e7a de um dia custa R$ 30 na m\u00e3o de Jane. \u201cMas a partir de cinco dias, a gente faz por R$ 15 cada, t\u00e1?\u201d, informa ela. O pagamento precisa ser feito em dinheiro.   <\/p>\n<p>Por fim, mantendo a simpatia, a mulher tenta fazer fregu\u00eas: \u201cMeu nome \u00e9 Jane, trabalho das 9h da manh\u00e3 \u00e0s 5h da tarde. Se quiser, \u00e9 s\u00f3 me chamar. Chega aqui e pergunta: a Jane est\u00e1 a\u00ed? A\u00ed eles me chamam\u201d. Na despedida, ela ainda agradece e, certa do uso do atestado falso que acabara de conceder, deseja \u201cbom descanso\u201d.   <\/p>\n<p>Espanto   <\/p>\n<p>No documento comprado pelo Correio, consta o carimbo de Elaine Alves de Oliveira, residente em otorrinolaringologia do Hospital de Base do DF. Avisada do fato pela reportagem, a m\u00e9dica de 28 anos reage com espanto. \u201cEstou sendo v\u00edtima de um crime, essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grave. Posso garantir que o uso do meu nome nesse atestado n\u00e3o tem proced\u00eancia\u201d, afirma ela, que acredita na possibilidade de ter tido o carimbo furtado e clonado. Na \u00faltima semana, ela procurou a pol\u00edcia e informou o Conselho Regional de Medicina (CRM). \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Nunca trabalhei fora do hospital e sou extremamente r\u00edgida com a emiss\u00e3o de atestado\u201d, refor\u00e7a.   <\/p>\n<p>A Secretaria de Sa\u00fade informa ter encaminhado para a corregedoria a den\u00fancia dos falsos atestados. A comiss\u00e3o de resid\u00eancia m\u00e9dica abrir\u00e1 sindic\u00e2ncia, permitindo \u00e0 profissional envolvida amplo direito de defesa. O \u00f3rg\u00e3o deixa claro que irregularidades como essa podem resultar na demiss\u00e3o de m\u00e9dicos e que o CRM poder\u00e1 ser acionado para uma investiga\u00e7\u00e3o paralela. O conselho n\u00e3o se pronunciou.   <\/p>\n<p>Quem vende atestado ilegal comete crimes, como o de falsidade ideol\u00f3gica, cuja pena pode chegar a cinco anos de reclus\u00e3o. Os m\u00e9dicos que emitem o documento podem ser enquadrados no delito espec\u00edfico de falsidade de atestado m\u00e9dico, com puni\u00e7\u00e3o que varia de um m\u00eas a um ano de deten\u00e7\u00e3o. J\u00e1 quem apresenta atestado m\u00e9dico falso no trabalho fica sujeito \u00e0 demiss\u00e3o por justa causa. No ano passado, um jovem de 26 anos, morador de Vit\u00f3ria (ES), conseguiu uma libera\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o alegando estar com dor de cabe\u00e7a e sinusite. Acabou desmascarado pela empresa e, al\u00e9m de perder o emprego, foi levado \u00e0 delegacia pelo crime de uso de documento falso.   <\/p>\n<p>Incentivo \u00e0 viol\u00eancia   <\/p>\n<p>O \u00e1lcool encoraja o crime ou conduz a ele sem avisar. Qualquer agente de seguran\u00e7a p\u00fablica tem consci\u00eancia do efeito do alcoolismo na criminalidade, principalmente a que ocorre dentro de casa. Se as estat\u00edsticas s\u00e3o fr\u00e1geis, a rotina das delegacias por si s\u00f3 reflete essa constata\u00e7\u00e3o. Mesmo aqueles que jamais se considerariam viciados em bebida ficam sujeitos, impelidos pela embriaguez, a cometerem atos de viol\u00eancia.   <\/p>\n<p>No Distrito Federal, os dados mais recentes indicam que o \u00e1lcool e outras drogas aparecem como estopim em 27% das ocorr\u00eancias. Essa propor\u00e7\u00e3o pode ser bem maior, uma vez que os boletins n\u00e3o trazem os detalhes de toda a investiga\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 indiscut\u00edvel que o \u00e1lcool potencializa o crime. O indiv\u00edduo perde as amarras sociais, fica sem no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 certo ou errado\u201d, sentencia Paulo Henrique de Almeida, delegado da Pol\u00edcia Civil do DF.   <\/p>\n<p>A influ\u00eancia do \u00e1lcool prevalece em homic\u00eddios, estupros e agress\u00f5es dom\u00e9sticas. Na delegacia de An\u00e1polis (GO), a 160 km de Bras\u00edlia, sete em cada 10 pris\u00f5es em flagrante t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta ou indireta com o \u00e1lcool. \u201cDelegacia \u00e9 lugar de b\u00eabado\u201d, resume o delegado Manoel Vanderic. No ano passado, conta ele, tr\u00eas garotos apreendidos ap\u00f3s cometerem latroc\u00ednio na cidade confessaram ter \u201cenchido a cara\u201d para vencer o medo de agir.   <\/p>\n<p>Transgress\u00f5es   <\/p>\n<p>Realizar o flagrante de uma pessoa embriagada \u00e9, naturalmente, mais dif\u00edcil. O suspeito, fora de si, n\u00e3o consegue responder ou, no m\u00ednimo, n\u00e3o leva a s\u00e9rio as perguntas dos agentes. Al\u00e9m disso, atrapalha a realiza\u00e7\u00e3o de eventuais exames de corpo de delito e, ainda, pode, no dia seguinte, j\u00e1 s\u00f3brio, ser orientado por advogados a optar pelo sil\u00eancio, dificultando a conclus\u00e3o do inqu\u00e9rito.   <\/p>\n<p>Geralmente, os b\u00eabados travam o funcionamento da delegacia: fazem barulho, tentam se soltar, quebram objetos e desacatam policiais. \u201cAt\u00e9 refrigerante a gente j\u00e1 comprou para ver se melhorava a situa\u00e7\u00e3o de um suspeito embriagado. A equipe perde um tempo que poderia estar sendo dedicado a outros inqu\u00e9ritos\u201d, pontua Almeida.   <\/p>\n<p>No entanto, o alcoolismo tamb\u00e9m n\u00e3o perdoa os pr\u00f3prios agentes de seguran\u00e7a. No Rio de Janeiro, levantamentos indicam que metade do efetivo das pol\u00edcias Civil e Militar faz uso de \u00e1lcool mais de uma vez por semana. Em Alagoas, oito em cada 10 atendimentos registrados no Centro de Assist\u00eancia Social da Pol\u00edcia Militar s\u00e3o motivados pelo consumo exagerado de bebida alco\u00f3lica, o que favorece as transgress\u00f5es disciplinares, como falta ao trabalho e crimes praticados nas horas de descanso.   <\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 00h01min   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Vamos simbora prum bar: beber, cair e levantar\u201d Marcelo Marrone, Bruno Caliman e Thiago Basso \u00bb DIEGO AMORIM N\u00e3o bastasse a destrui\u00e7\u00e3o de 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do pa\u00eds todos os anos, o alcoolismo tem impulsionado a invis\u00edvel e criminosa ind\u00fastria do falso atestado m\u00e9dico. 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