{"id":203,"date":"2015-09-25T00:23:00","date_gmt":"2015-09-25T03:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/brisa_no_deserto\/"},"modified":"2015-09-25T00:23:00","modified_gmt":"2015-09-25T03:23:00","slug":"brisa_no_deserto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/brisa_no_deserto\/","title":{"rendered":"BRISA NO DESERTO"},"content":{"rendered":"\n<p>O cacife do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, aumentou muito no Pal\u00e1cio do Planalto desde a manh\u00e3 de ontem. At\u00e9 bem pouco tempo amea\u00e7ado de perder o status de ministro, o que o levaria a se subordinar a Joaquim Levy, o chefe da autoridade monet\u00e1ria foi tratado como her\u00f3i no entorno da presidente Dilma Rousseff t\u00e3o logo o mercado financeiro fechou. Tombini teve papel preponderante para que o d\u00f3lar ca\u00edsse abaixo de R$ 4. <\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do governo, depois de dias de grande tormenta, ser\u00e1 poss\u00edvel uma noite de paz. O d\u00f3lar acima de R$ 4 \u00e9 visto no Planalto como o maior s\u00edmbolo de derrota de Dilma. \u00c9 um sinal claro de que a presidente perdeu toda a capacidade de convencer os agentes econ\u00f4micos de que ainda \u00e9 poss\u00edvel salvar o pa\u00eds. Por mais que a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha a exata no\u00e7\u00e3o do que representa a disparada da moeda norte-americana, o alarde feito em torno do tema acaba espalhando o medo, a certeza de que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 saindo do controle. <\/p>\n<p>Mas como bem definiu um ministro, o que se viu ontem foi apenas uma brisa soprando no meio de um deserto do qual n\u00e3o se sabe o caminho. Conseguiu-se desligar o sinal de p\u00e2nico dos mercados, mas a guerra est\u00e1 longe de acabar. O quadro da economia brasileira \u00e9 dram\u00e1tico e a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a Dilma \u00e9 gigante. Como ningu\u00e9m acredita na petista e o ministro da Fazenda j\u00e1 \u00e9 visto com ressalvas pelos investidores, foi preciso que o presidente do BC quebrasse o protocolo e anunciasse, fora dos documentos oficiais do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom), que os juros v\u00e3o continuar em 14,25% por um \u201ctempo suficientemente prolongado\u201d. E que, se preciso for, a institui\u00e7\u00e3o lan\u00e7ar\u00e1 m\u00e3o de reservas internacionais para derrubar o d\u00f3lar. <\/p>\n<p>Mais, do que as palavras enf\u00e1ticas de Tombini, o que o mercado queria era uma dire\u00e7\u00e3o. Entre os investidores, s\u00e3o imensas as queixas sobre ao vaiv\u00e9m do governo. Desde que come\u00e7ou o segundo mandato, Dilma mostrou v\u00e1rias facetas. A primeira delas agradou, por indicar que a presidente havia se rendido \u00e0 ortodoxia e estava disposta a fazer um ajuste fiscal consistente. Aos poucos, por\u00e9m, foram se evidenciando as contradi\u00e7\u00f5es e, pior, o renascimento da chefe do Executivo que tentou implantar a nova matriz econ\u00f4mica nos \u00faltimos quatro anos, um desastre sem precedentes em mais de um quarto de s\u00e9culo. <\/p>\n<p>As d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o ao governo s\u00e3o muitas. O que Tombini conseguiu foi conter os excessos do mercado. Contudo, nada impede que, depois de uma noite bem-dormida, os investidores retomem o ataque especulativo ao qual submeteram o real desde a \u00faltima segunda-feira. N\u00e3o se sabe para onde vai o ajuste fiscal. O governo insiste que entregar\u00e1 o minguado superavit prim\u00e1rio de 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, mas, a cada dia, surgem mais dificuldades para o equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas. Boa parte das receitas extraordin\u00e1rias esperadas para 2015 est\u00e3o virando p\u00f3. E, para o pr\u00f3ximo ano, o buraco que se v\u00ea \u00e9 muito mais profundo. <\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, a quest\u00e3o dos vetos presidenciais que est\u00e3o sob an\u00e1lise do Congresso. \u00c9 verdade que o governo conseguiu uma vit\u00f3ria parcial mantendo, por exemplo, o fator previdenci\u00e1rio, que resultaram em uma boa economia aos cofres da Previd\u00eancia Social. Mas fantasmas como o reajuste do Judici\u00e1rio se mant\u00eam presentes. Por isso, em vez de comemorar o recuo do d\u00f3lar ontem, o governo deveria trabalhar para garantir que os parlamentares n\u00e3o aproveitem a brisa soprada por Tombini para pregar sustos que podem piorar o que j\u00e1 est\u00e1 muito ruim. <\/p>\n<p><b>Congelamento<\/b> <\/p>\n<p>Na economia real, o estrago do ataque especulativo j\u00e1 est\u00e1 feito. O d\u00f3lar acima de R$ 4 e a disparada dos juros fizeram com que o mercado de cr\u00e9dito praticamente congelasse, principalmente para as empresas que t\u00eam d\u00edvidas no exterior. Os bancos engavetaram todos os pedidos de empr\u00e9stimos, temendo uma onda de calote e quebradeira. Somente desde junho, os d\u00e9bitos de um grupo de 110 companhias, incluindo a Petrobras, aumentaram quase R$ 160 bilh\u00f5es. <\/p>\n<p>Segundo o executivo de um grande banco, nas \u00faltimas semanas, quando a crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica se multiplicou, as libera\u00e7\u00f5es de recursos ca\u00edram para 20% do n\u00edvel considerado normal. As institui\u00e7\u00f5es financeiras tamb\u00e9m passaram a exigir mais garantias das companhias. \u201cO horizonte escureceu por completo, com chuvas e trovoadas\u201d, diz. \u201cQuando se chega a esse ponto, \u00e9 melhor botar o p\u00e9 no freio do que ser obrigado a lan\u00e7ar cr\u00e9ditos de dif\u00edcil liquida\u00e7\u00e3o nos balan\u00e7os, o que arranha a nossa imagem no mercado\u201d, acrescenta. <\/p>\n<p>Pelos c\u00e1lculos do BC, at\u00e9 agosto, o sistema financeiro deu como perdidos R$ 96,2 bilh\u00f5es. Essa montanha de dinheiro representa 59,4% do total das provis\u00f5es feitas pelos bancos para cobrir calotes. A tend\u00eancia \u00e9 de que tanto as perdas quanto as reservas para cobrir eventuais preju\u00edzos aumentem nos pr\u00f3ximos meses. A percep\u00e7\u00e3o de que as coisas est\u00e3o ruins v\u00e3o se traduzir, nos pr\u00f3ximos meses, em muito sofrimento real, a come\u00e7ar pelo fechamento de empresas e demiss\u00f5es em massa de trabalhadores. <\/p>\n<p>Tombini, ao agir ontem, tentou evitar \u2013 ou minimizar \u2013 esse quadro de colapso. Mas, mesmo sentado sob reservas internacionais de US$ 370 bilh\u00f5es, o poder de fogo \u00e9 limitado. A capacidade de estrago do Planalto \u00e9 muito, mas muito maior. <\/p>\n<p><b>Chacota com Levy<\/b> <\/p>\n<p>No Planalto, n\u00e3o se perde a oportunidade de se fazer chacota com o ministro da Fazenda. Ontem, os gaiatos diziam que mais valia um Tombini na m\u00e3o do que mil Levys voando. Muitos consideram que o chefe da equipe econ\u00f4mica falou tanto, que poucos j\u00e1 lhe d\u00e3o ouvidos. <\/p>\n<p><b>Dilma foi, mas crise continua<\/b> <\/p>\n<p>A presidente Dilma Rousseff viajou para os Estados Unidos, mas n\u00e3o levou a crise com ela. As articula\u00e7\u00f5es para encurtar o mandato da petista continuam a todo vapor. Mesmo entre os chamados aliados, a conspira\u00e7\u00e3o \u00e9 forte. N\u00e3o h\u00e1 reforma ministerial que d\u00ea jeito nisso. <\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 00h25min   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cacife do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, aumentou muito no Pal\u00e1cio do Planalto desde a manh\u00e3 de ontem. 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