{"id":21,"date":"2015-01-20T17:10:00","date_gmt":"2015-01-20T19:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/familias_perdem_tudo\/"},"modified":"2015-01-20T17:10:00","modified_gmt":"2015-01-20T19:10:00","slug":"familias_perdem_tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/familias_perdem_tudo\/","title":{"rendered":"FAM\u00cdLIAS PERDEM TUDO"},"content":{"rendered":"\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/wp-content\/uploads\/blog-vicente\/23d74a94a928d4b281c180ce33d3b9ec.jpg\"> <\/p>\n<p><i><b>&#8220;Se eu quiser beber, eu bebo. Pago tudo o que consumo com o suor do meu emprego\u201d<\/b><\/i>(Chico da Silva) <\/p>\n<p><b>\u00bb DIEGO AMORIM<\/b> <\/p>\n<p>Nas rodas de conversas da irmandade Alco\u00f3licos An\u00f4nimos, que completa 80 anos de exist\u00eancia em 2015, se conta a hist\u00f3ria de um homem que certa vez parou em frente a um bar e, esfor\u00e7ando-se para manter o equil\u00edbrio do corpo, come\u00e7ou a se questionar como que, por aquela pequena porta, tanta coisa podia ter entrado e se perdido: a apar\u00eancia, a dignidade, a reputa\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia, os bens, tudo. <\/p>\n<p>O mau uso do \u00e1lcool corr\u00f3i n\u00e3o apenas o f\u00edgado. Maltrata tamb\u00e9m a renda e o patrim\u00f4nio de quem n\u00e3o sabe mais viver sem a bebida, mesmo acreditando exercer dom\u00ednio sobre ela. O porre na sa\u00fade financeira deixa sintomas irrecuper\u00e1veis. Em n\u00e3o raros casos, pais e m\u00e3es de fam\u00edlias acumulam d\u00edvidas, poupam apenas o dinheiro da cacha\u00e7a e, por ela, abrem m\u00e3o de tudo o que conquistaram. <\/p>\n<p>Sem equil\u00edbrio emocional nem dom\u00ednio pleno das decis\u00f5es, quem n\u00e3o se d\u00e1 bem com o \u00e1lcool n\u00e3o consegue manter uma boa rela\u00e7\u00e3o com as contas. \u201c\u00c9 quase imposs\u00edvel encontrar um alco\u00f3latra com a vida financeira ajustada. Geralmente, \u00e9 perda total\u201d, diz o presidente da Dsop Educa\u00e7\u00e3o Financeira, Reinaldo Domingos. <\/p>\n<p><b>Vulner\u00e1veis<\/b> <\/p>\n<p>B\u00eabado costuma gastar mais do que poderia. Empresta e toma dinheiro no mercado com facilidade. Vira amigo de agiota, enrola o dono do bar, os amigos, os parentes e a si mesmo. Com muita frequ\u00eancia, sublinha Reinaldo, se enrosca nos juros do cheque especial e do cart\u00e3o de cr\u00e9dito e fica vulner\u00e1vel \u00e0s pegadinhas de profissionais especializados em dar golpes. <\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o financeira de um dependente de \u00e1lcool \u00e9 definida pelo educador financeiro Rog\u00e9rio Oleg\u00e1rio como caos total. \u201cSe a pessoa n\u00e3o sabe controlar a bebida, dificilmente saber\u00e1 cuidar do dinheiro\u201d, refor\u00e7a ele, rotineiramente procurado por filhos e mulheres de alco\u00f3latras dispostos a salvar o que restou do patrim\u00f4nio. <\/p>\n<p>O alco\u00f3latra arrasa tudo o que est\u00e1 ao seu redor. Quem convive com ele acaba tendo de se virar para arcar com os preju\u00edzos provocados pela bebida. A doen\u00e7a \u2014 assim considerada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) \u2014 acomete toda a fam\u00edlia. \u201cMuitas vezes, \u00e9 necess\u00e1rio vender bens para garantir o tratamento da pessoa ou minimizar os baques na vida financeira. Al\u00e9m disso, a produtividade de todos despenca\u201d, completa Oleg\u00e1rio, autor do livro Fam\u00edlia, afeto e finan\u00e7as. <\/p>\n<p><b>Carreira prejudicada<\/b> <\/p>\n<p>O primeiro gole de Marcelo* veio aos 7 anos. \u201cEra cacha\u00e7a das boas, direto da boca de engenho\u201d, lembra o mineiro, hoje com 75. Ele chegou a Bras\u00edlia em 1958, j\u00e1 de joelhos para a bebida, ainda que, \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o reconhecesse o v\u00edcio. Inspirado na rotina de um tio alco\u00f3latra, por quem tinha profunda admira\u00e7\u00e3o, bebia de tudo, at\u00e9 \u00e1lcool puro. \u201cMinha maior paix\u00e3o era o \u00e1lcool, era para ele que eu vivia\u201d, resume. <\/p>\n<p>Com os estudos conclu\u00eddos, conseguiu oportunidade em tr\u00eas \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e em um laborat\u00f3rio farmac\u00eautico. Foi demitido de todos eles. Chegava a faltar metade do m\u00eas. Quando ia ao trabalho, estava b\u00eabado ou de ressaca. \u201c\u00c0s sextas-feiras, nunca voltava do almo\u00e7o\u201d, recorda. N\u00e3o \u00e0 toa, a carreira nunca deslanchou.<b> <\/p>\n<p><\/b><b>Desvio mental<\/b> <\/p>\n<p>Foram pelo menos 40 interna\u00e7\u00f5es em um tempo em que n\u00e3o existia cl\u00ednica especializada. Em meio a crises epil\u00e9pticas, era tratado como louco nas alas de psiquiatria dos hospitais p\u00fablicos do Distrito Federal. No corpo e na alma, acumulou cicatrizes. Uma delas de um corte no pulso do dia em que quebrou a cristaleira do corredor que levava \u00e0 cozinha. Ao se ver no reflexo do m\u00f3vel, deduziu que havia outro homem em casa e come\u00e7ou a esmurrar os vidros. <\/p>\n<p>A mulher, que tinha decidido n\u00e3o trabalhar para cuidar mais de perto dos tr\u00eas filhos, mudou de ideia e foi em busca de emprego para sustentar a fam\u00edlia. Parte do dinheiro que ganhava, o marido roubava para beber e gastar nos cabar\u00e9s dos arredores da rec\u00e9m-inaugurada capital federal. Certa vez, em uma das in\u00fameras brigas com a mulher, jogou uma televis\u00e3o pela janela. Por sorte, n\u00e3o acertou ningu\u00e9m. <\/p>\n<p>No Minist\u00e9rio da Agricultura, por onde se aposentou em 1997, bebia escondido no subsolo. \u201cOs chefes tinham d\u00f3 de mim\u201d, conta ele, que andava com atestado de \u201cdesvio mental\u201d dobrado no bolso, para ser apresentado em casos de emerg\u00eancia. <\/p>\n<p>A reviravolta teve um marco: 17 de junho de 1980, quando participou da primeira reuni\u00e3o dos Alco\u00f3licos An\u00f4nimos. \u201c\u00c9 a data do meu nascimento\u201d, diz. Na luta di\u00e1ria pela sobriedade, sem reca\u00eddas at\u00e9 aqui, ele voltou a trabalhar. Deixou de frequentar o por\u00e3o para beber e foi transferido de setor. Formou-se em economia, viu nascer os sete netos e os dois bisnetos. \u201cEu sei que poderia estar bem melhor: o \u00e1lcool me cegou, acabou com as minhas finan\u00e7as e n\u00e3o me fez aproveitar as chances da vida. Mas meu maior patrim\u00f4nio hoje \u00e9 ser feliz e livre das amarras do \u00e1lcool.\u201d  <\/p>\n<p><b>Pingu\u00e7o, cachaceiro, p\u00e9 inchado, esponja<\/b> <\/p>\n<p>Manoel* jamais esquecer\u00e1 aquele dia: depois de mais uma noite de bebedeira, conseguiu levantar para ir ao trabalho, mas, quando voltou, n\u00e3o encontrou a mulher nem os dois filhos. \u201cEla costumava dizer: \u2018ou o \u00e1lcool ou eu\u2019. Eu respondia sempre que havia conhecido o \u00e1lcool antes dela, que ela aceitasse. Ela n\u00e3o suportou e saiu de casa. Fez bem. Foi a sacudida de que eu precisava\u201d, avalia ele, hoje aos 65 anos, sem beber h\u00e1 30. <\/p>\n<p>Ningu\u00e9m podia competir com o \u00e1lcool. Manoel n\u00e3o poupava um centavo e tirava dinheiro da alimenta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia para garantir as doses di\u00e1rias. Chegou a ter empr\u00e9stimo com seis agiotas ao mesmo tempo. \u201cPegava de um para pagar para o outro\u201d, relembra. <\/p>\n<p>O sal\u00e1rio ca\u00eda na conta e, no dia seguinte, Manoel j\u00e1 tinha se livrado dele. \u201cTodo b\u00eabado acha que \u00e9 rei do boteco. Eu mentia, dizia que era coronel do Ex\u00e9rcito, t\u00e9cnico da Sele\u00e7\u00e3o brasileira\u201d, relembra, sem achar mais o m\u00ednimo de gra\u00e7a de si mesmo. \u201cViajava sem poder, somente para esbanjar e encher a cara. Batia o carro com frequ\u00eancia. O que me importava era manter a tonturinha.\u201d <\/p>\n<p>Beber era prioridade. Por isso, nunca concluiu a faculdade. O curso de administra\u00e7\u00e3o ficou pela metade, porque as aulas eram \u00e0 noite, justamente a hora sagrada do bar. \u201cFui homem para come\u00e7ar a beber, mas n\u00e3o fui homem para parar de beber\u201d, diz ele, que recorreu ao \u00e1lcool pela primeira vez para \u201ccriar coragem e tirar as meninas para dan\u00e7ar nos bailes\u201d. <\/p>\n<p>Servidor aposentado pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, Manoel era mais visto no posto m\u00e9dico do \u00f3rg\u00e3o do que na sala de trabalho. \u201cA turma me chamava de pingu\u00e7o, cachaceiro, p\u00e9 inchado, esponja. E eu era tudo isso mesmo. Diziam que eu n\u00e3o tinha jeito, que eu ia morrer logo, logo. Estou aqui\u201d, comenta ele, que se dedica a levar esperan\u00e7a a quem j\u00e1 a perdeu. <\/p>\n<p><b>S\u00f3 restou a vergonha<\/b> <\/p>\n<p>O pai adotivo de Jos\u00e9*, pastor da Assembleia de Deus, morreu sem ver o filho parar de beber, um milagre que completou 15 anos. \u201cGra\u00e7as a Deus, estou vivo hoje para contar a minha hist\u00f3ria\u201d, acredita ele, que, por duas d\u00e9cadas, esteve dominado pela bebida. \u201cO \u00e1lcool n\u00e3o escolhe. Chega e, se voc\u00ea deixar, entra e destr\u00f3i tudo\u201d, emenda, com autoridade. <\/p>\n<p>A cacha\u00e7a passou a ocupar espa\u00e7o nobre na vida de Jos\u00e9 depois que colegas exigiram que ele \u201cvirasse homem\u201d e parasse de tomar \u201capenas refrigerante\u201d. O v\u00edcio sem freio come\u00e7ou com alguns copos de quent\u00e3o em uma festa junina durante a Copa do Mundo de 1970. De orgulho do casal que o adotou, Jos\u00e9 virou um peso. Envergonhado, afastou-se de quem p\u00f4de. <\/p>\n<p>Pai de cinco filhos, ele n\u00e3o convive com nenhum da maneira como gostaria. Enquanto bebeu, perdeu as tr\u00eas fam\u00edlias com as quais a vida lhe presenteou. \u201cN\u00e3o tem quem aguente conviver com um homem chato, b\u00eabado, que fica dias sem tomar banho, cheirando a \u00e1lcool\u201d, desabafa um dos pioneiros de Bras\u00edlia, hoje com 63 anos. Aposentado h\u00e1 quatro pelo Senado Federal, ele n\u00e3o acumulou bem algum. O apartamento no Plano Piloto ficou com uma das ex-mulheres. Hoje, mora em uma casa financiada com muito custo no Novo Gama, munic\u00edpio goiano no Entorno de Bras\u00edlia. <\/p>\n<p>Enquanto recorda o passado, Jos\u00e9 vez ou outra se confunde na fala. O \u00e1lcool, logo justifica ele, atrapalhou a capacidade de raciocinar. \u201cDesculpe, n\u00e3o estou conseguindo. A bebida era meu calmante, minha raz\u00e3o de ser\u201d, desabafa, com os olhos marejados. Jos\u00e9 ainda fica irritado com a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria. Tem dificuldade de aceit\u00e1-la e pressa para reconstru\u00ed-la. Quer recuperar o tempo e o dinheiro perdidos. \u201cEu n\u00e3o abria as contas de casa e s\u00f3 n\u00e3o vendi meu apartamento porque n\u00e3o tinha jeito\u201d, conta.<b> <\/p>\n<p><\/b><b>Desequil\u00edbrio<\/b> <\/p>\n<p>No Senado, chefes de tr\u00eas gabinetes o mandaram de volta para o setor de recursos humanos. S\u00f3brio, Jos\u00e9 era um bom funcion\u00e1rio. Mas isso era algo raro. Cansado de si mesmo, chegou a pedir exonera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha \u00e2nimo para bater ponto e desejava mais tempo para beber antes, durante e depois das partidas de domin\u00f3 nas pra\u00e7as. <\/p>\n<p>Jos\u00e9 s\u00f3 bebia se fosse para ficar b\u00eabado. N\u00e3o sabe como nunca se desequilibrou da janela do sexto andar onde morava. Um dia, come\u00e7ou a noite em um bar e a terminou em outro: acabou perdendo um Passat que comprara h\u00e1 pouco. At\u00e9 hoje, n\u00e3o faz ideia de onde o carro pode ter sido estacionado. Ap\u00f3s uma briga com uma ex-mulher, em An\u00e1polis (GO), Jos\u00e9 capotou um outro ve\u00edculo na BR-060, quando a pista ainda n\u00e3o era duplicada. O carro teve perda total e os bombeiros se surpreenderam por ele ter sobrevivido. <\/p>\n<p>(*) Nomes fict\u00edcios.  <\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 17h10min   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Se eu quiser beber, eu bebo. 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