{"id":211,"date":"2015-10-02T00:10:00","date_gmt":"2015-10-02T03:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/pior_dos_mundos-2\/"},"modified":"2015-10-02T00:10:00","modified_gmt":"2015-10-02T03:10:00","slug":"pior_dos_mundos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/pior_dos_mundos-2\/","title":{"rendered":"PIOR DOS MUNDOS"},"content":{"rendered":"\n<p> O ano de 2015 entrou na sua reta final, mas muitos j\u00e1 o est\u00e3o riscando do calend\u00e1rio como se fosse uma praga a ser extirpada. H\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas n\u00e3o se via um per\u00edodo t\u00e3o ruim para o pa\u00eds. A combina\u00e7\u00e3o de crise pol\u00edtica com terremoto na economia fez com que o Brasil regredisse pelo menos tr\u00eas anos, trazendo de volta fantasmas que, pensava-se, jamais voltariam a nos atormentar. Mas Dilma Rousseff, com sua capacidade de fazer estragos, abriu-lhes as portas sem a menor cerim\u00f4nia.        &nbsp;    Os \u00faltimos tr\u00eas meses do ano sempre foram pr\u00f3digos em boas not\u00edcias. \u00c9 um per\u00edodo que, historicamente, as f\u00e1bricas pisam no acelerador, ampliando turnos de produ\u00e7\u00e3o e a oferta de empregos. Mas, pelas contas da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI), em vez de ligar os motores, as empresas est\u00e3o apagando a luz. Quase um quarto das f\u00e1bricas no pa\u00eds est\u00e1 ocioso e h\u00e1 sete meses consecutivos os empregos s\u00f3 diminuem.        &nbsp;    No com\u00e9rcio, que tem no fim de ano o seu melhor momento, o quadro \u00e9 de decep\u00e7\u00e3o. O momento era de as lojas registrarem filas para a sele\u00e7\u00e3o de empregados tempor\u00e1rios, mas nove em cada 10 varejistas j\u00e1 avisaram que o atendimento \u00e0 clientela no Natal ser\u00e1 feito pelo quadro atual de funcion\u00e1rios. Com as vendas em queda, \u00e9 muito mais prov\u00e1vel haver demiss\u00f5es do que contrata\u00e7\u00f5es.        &nbsp;    Na avalia\u00e7\u00e3o do professor Sim\u00e3o Davi Silber, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), o Brasil mergulhou em uma paralisia assustadora. Quando se olha para a frente, em vez de melhora, o que v\u00ea \u00e9 um buraco sem fundo. A infla\u00e7\u00e3o, da qual se esperava uma tr\u00e9gua, voltou a ganhar f\u00f4lego, caminhando firme para um patamar acima de 10%. O desemprego tamb\u00e9m s\u00f3 aponta para o alto. \u00c9 poss\u00edvel que o pa\u00eds encerre o ano com mais de 10 milh\u00f5es de desocupados \u2014 em julho, essa massa somava 8,6 milh\u00f5es de pessoas.        &nbsp;    &#8220;Tudo isso est\u00e1 acontecendo porque o governo perdeu a capacidade de governar&#8221;, diz Sim\u00e3o. Para ele, ainda que o desastre comandado por Dilma puna a todos, ser\u00e3o os mais pobres os principais atingidos, j\u00e1 que eles n\u00e3o t\u00eam como se defenderem da infla\u00e7\u00e3o alta e s\u00e3o pouco qualificados para disputar vagas em um mercado de trabalho restrito. &#8220;Veremos a infla\u00e7\u00e3o elevada por pelo menos mais dois anos. A taxa de desemprego ficar\u00e1 rodando em torno de 10% at\u00e9 2018.&#8221;      &nbsp;        <b>Quatro crises<\/b> <\/p>\n<p>    Segundo Sim\u00e3o, o Brasil conjuga, atualmente, quatro crises, todas criadas pelo governo. A primeira, na \u00e1rea pol\u00edtica, decorre da inabilidade da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica de conduzir a base aliada. A rela\u00e7\u00e3o com o Congresso \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil, que um poss\u00edvel impeachment est\u00e1 cada vez mais presente na agenda. &#8220;A prometida reforma ministerial ter\u00e1 f\u00f4lego curto. Dificilmente, evitar\u00e1 o afastamento da presidente&#8221;, avalia.        &nbsp;    A segunda crise, na economia, foi agravada pela onda de desconfian\u00e7a detonada do Pal\u00e1cio do Planalto. Dilma cometeu erros em s\u00e9ries, que destru\u00edram a estabilidade, cujas bases permitiram ao Brasil, at\u00e9 2010, agregar mais de 50 milh\u00f5es de pessoas \u00e0 classe m\u00e9dia. Agora, parte dessas pessoas corre o risco de voltar \u00e0 pobreza. &#8220;Sei de fam\u00edlias que est\u00e3o escolhendo integrantes que v\u00e3o tomar banho de \u00e1gua quente para poder reduzir a conta de luz, pois n\u00e3o conseguem pag\u00e1-la&#8221;, ressalta.      &nbsp;        A terceira crise, acrescenta o professor da USP, \u00e9 a social, decorrente da economia. Sim\u00e3o diz que as pessoas est\u00e3o se sentindo enganadas, pois foram levadas a acreditar que, se viesse um ajuste, seria suave. A realidade, por\u00e9m, tem sido cruel, com o custo de vida nas alturas, pesado endividamento e desemprego. &#8220;N\u00e3o descarto a hip\u00f3tese de vermos cenas comuns nos anos 1980, de hiperinfla\u00e7\u00e3o, quando as pessoas saqueavam supermercados&#8221;, assinala.      &nbsp;        Para completar o quadro desolador, a quarta crise \u00e9 moral. N\u00e3o h\u00e1 hoje, no entender de Sim\u00e3o, uma s\u00f3 autoridade isenta de suspei\u00e7\u00e3o. A Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato revelou um mundo de corrup\u00e7\u00e3o muito maior do que se imaginava, sem ideologia. Pol\u00edticos de esquerda e de direita, se ainda for poss\u00edvel distingui-los, est\u00e3o sendo enredados pelas investiga\u00e7\u00f5es conduzidas pela Pol\u00edcia Federal.      &nbsp;        <b>Domin\u00e2ncia fiscal<\/b> <\/p>\n<p>Sair desse atoleiro levar\u00e1 tempo e muitas v\u00edtimas ser\u00e3o deixadas pelo meio do caminho. Na atual conjuntura, para tentar pelo menos acender uma luz no horizonte, ser\u00e1 preciso fazer um ajuste fiscal consistente, mesmo que o superavit prim\u00e1rio seja de apenas 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB). &#8220;O importante \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma Sim\u00e3o. No entender dele, o Brasil vive o que os economistas chamam de domin\u00e2ncia fiscal. De nada adianta o Banco Central aumentar os juros para tentar retomar o controle da situa\u00e7\u00e3o.      &nbsp;        Juros mais altos s\u00f3 agravar\u00e3o os problemas, pois quanto mais o governo gastar com a d\u00edvida, maior ser\u00e1 o rombo nas finan\u00e7as p\u00fablicas. O BC mostrou que, nos 12 meses terminados em agosto, o deficit nominal alcan\u00e7ou 9,2% do PIB, o equivalente a R$ 528,3 bilh\u00f5es. A d\u00edvida bruta saltou para 65,3% do PIB e pode pular para 70% ou 80% rapidamente. &#8220;Um ajuste fiscal s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se houver credibilidade, e o atual governo, infelizmente, n\u00e3o a tem&#8221;, enfatiza o professor.      &nbsp;        At\u00e9 agora, o ajuste apresentado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, \u00e9 feito de remendos. Por isso, os investidores est\u00e3o insatisfeitos, pressionando o d\u00f3lar, que eleva a infla\u00e7\u00e3o. Alguns economistas t\u00eam sugerindo que, diante da gravidade do quadro econ\u00f4mico, o BC abandone, temporariamente, o regime de metas de infla\u00e7\u00e3o e passe a atuar com bandas para o c\u00e2mbio, que seriam controladas por meio do uso das reservas internacionais, hoje de US$ 370 bilh\u00f5es.        &nbsp;    O dif\u00edcil, por\u00e9m, ser\u00e1 conduzir esse processo, visto como tabu por economistas mais ortodoxos, num governo de Dilma Rousseff. O temor \u00e9 de que a presidente acabe resvalando para o populismo, transformando o que poderia ser uma sa\u00edda para a crise em um canh\u00e3o que detone de vez o pa\u00eds. \u00c9 preciso que a presidente reflita sobre o que se passa no Brasil e n\u00e3o fique mais pensando em formas de se manter no poder. Ela j\u00e1 conseguiu a proeza de derrubar o PIB deste ano em pelo menos 3%, contratar queda de 1% ou mais em 2016 e de praticamente inviabilizar 2017. Mais que isso, ningu\u00e9m aguenta. <\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 00h10min    <\/i>     <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 2015 entrou na sua reta final, mas muitos j\u00e1 o est\u00e3o riscando do calend\u00e1rio como se fosse uma praga a ser extirpada. H\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas n\u00e3o se via um per\u00edodo t\u00e3o ruim para o pa\u00eds. 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