{"id":234,"date":"2015-10-23T00:10:00","date_gmt":"2015-10-23T02:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/carta_de_tombini\/"},"modified":"2015-10-23T00:10:00","modified_gmt":"2015-10-23T02:10:00","slug":"carta_de_tombini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/carta_de_tombini\/","title":{"rendered":"CARTA DE TOMBINI"},"content":{"rendered":"\n<p>O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ter\u00e1 um trabalho enorme para explicar \u00e0 Na\u00e7\u00e3o por que falhou neste ano na miss\u00e3o que lhe foi dada: entregar a infla\u00e7\u00e3o na meta. Pelas regras em vigor, a carta endere\u00e7ada ao ministro da Fazenda deve conter tr\u00eas pontos b\u00e1sicos: 1) descri\u00e7\u00e3o detalhada das causas do descumprimento; 2) provid\u00eancias para assegurar o retorno da infla\u00e7\u00e3o aos limites estabelecidos; 3) prazo esperado para que as provid\u00eancias tomadas surtam efeito. Certamente, o governo ocupar\u00e1 a maior parte da correspond\u00eancia. O BC est\u00e1 pagando pelos erros da pol\u00edtica econ\u00f4mica dos \u00faltimos anos e, claro, da pr\u00f3pria omiss\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao controle do custo de vida. <\/p>\n<p>Mas vamos ao primeiro ponto, as causas do descumprimento da meta. A partir de 2012, a presidente Dilma Rousseff decidiu p\u00f4r em pr\u00e1tica a tal nova matriz econ\u00f4mica. Certa de que pol\u00edticas intervencionistas, semelhantes \u00e0s que vigoraram no regime militar, dariam um novo g\u00e1s \u00e0 atividade, ela decidiu represar reajustes de pre\u00e7os administrados, mais especificamente as tarifas de energia el\u00e9trica e o valor dos combust\u00edveis. Ao mesmo tempo, pisou no acelerador dos gastos p\u00fablicos, cuja contabiliza\u00e7\u00e3o passou a ser maquiada para mostrar uma sa\u00fade que as contas do Tesouro Nacional n\u00e3o tinham. <\/p>\n<p>Apesar de todos os alertas de que a nova matriz estava criando distor\u00e7\u00f5es na economia e alimentando uma onda de incertezas, o governo preferiu atacar os cr\u00edticos ampliando o intervencionismo. Nem mesmo o Banco Central escapou das garras de Dilma. A institui\u00e7\u00e3o foi obrigada a cortar a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) para que a presidente realizasse o sonho de gritar ao mundo que o Brasil havia se livrado de uma anomalia, e, finalmente, passaria a ter um custo civilizado para o dinheiro. A meta da petista era de juros reais de 2% ao ano. Para entregar o trof\u00e9u que Dilma tanto queria, a Selic caiu para 7,25% ao ano, o menor n\u00edvel da hist\u00f3ria, mesmo com a infla\u00e7\u00e3o flertando com o teto da meta, de 6,5%. <\/p>\n<p>N\u00e3o satisfeita, a presidente editou uma medida provis\u00f3ria, de n\u00famero 579, que reduziu as tarifas de energia ao longo de 2013. A promessa \u2014 na verdade, uma grande propaganda eleitoral \u2014 era dar um al\u00edvio ao or\u00e7amento das fam\u00edlias e reduzir o custo de produ\u00e7\u00e3o das empresas. O tom ufanista era tamanho que n\u00e3o faltou sequer o discurso em rede nacional de r\u00e1dio e televis\u00e3o. Naquele per\u00edodo, Dilma j\u00e1 estava concentrada na reelei\u00e7\u00e3o, e aprofundou o intervencionismo, apesar de o pa\u00eds estar enfrentando grave crise h\u00eddrica e de as concession\u00e1rias alegarem que a redu\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de 20% na conta de luz era invi\u00e1vel. <\/p>\n<p>A petista acelerou o passo. Imp\u00f4s um pesado preju\u00edzo \u00e0 Petrobras, ao manter os pre\u00e7os dos combust\u00edveis congelados, passou a manipular o c\u00e2mbio e come\u00e7ou a fazer as pedaladas fiscais, ao usar os bancos p\u00fablicos para honrar compromissos que eram do governo. J\u00e1 em frangalhos, as contas p\u00fablicas sa\u00edram dos superavits prim\u00e1rios que evitavam a explos\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica para deficits encobertos por manobras. A insist\u00eancia nessas estripulias detonou um pessimismo t\u00e3o grande na economia que o pa\u00eds mergulhou na recess\u00e3o. At\u00e9 a disputa por mais quatro anos no Pal\u00e1cio do Planalto, Dilma dizia que todas as suas maluquices eram inven\u00e7\u00f5es dos oposicionistas que queriam ape\u00e1-la do poder.<b> <\/p>\n<p>Salvador da p\u00e1tria<\/b> <\/p>\n<p>Com a reelei\u00e7\u00e3o de Dilma garantida \u00e0 base de muitas mentiras nas propagandas eleitorais, o Banco Central foi o primeiro a tomar provid\u00eancias para tentar arrumar a casa. Tr\u00eas dias depois de as urnas serem abertas, a taxa Selic subiu e continuou em alta at\u00e9 julho \u00faltimo, atingindo 14,25% ao ano. A justificativa era de que a infla\u00e7\u00e3o estava muito al\u00e9m do desej\u00e1vel. Logo depois, a presidente anunciou Joaquim Levy como ministro da Fazenda. Posando de salvador da p\u00e1tria, ele prometeu um forte e r\u00e1pido ajuste fiscal para que logo o Brasil voltasse a crescer. <\/p>\n<p>Um sentimento de euforia tomou conta dos agentes econ\u00f4micos. A sensa\u00e7\u00e3o era de que Dilma havia se conscientizado de todas as mazelas que havia imposto ao pa\u00eds. A meta fiscal de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano era um sinal de que os tempos de maquiagens nas contas haviam ficado para tr\u00e1s. Ao mesmo tempo, o governo decidiu deixar as cota\u00e7\u00f5es do d\u00f3lar flutuarem com maior liberdade e liberou os pre\u00e7os represados da energia e dos combust\u00edveis. As contas de luz tiveram reajuste m\u00e9dio superior a 50% e a gasolina e o diesel passaram a ter corre\u00e7\u00e3o mais frequentes nas bombas. Tudo para mostrar que os erros do passado estavam sendo corrigidos. <\/p>\n<p>Foram necess\u00e1rios sete meses para que a realidade se impusesse. O ministro forte que assumiu a Fazenda estava mais fraco do que nunca e o ajuste fiscal n\u00e3o havia sa\u00eddo do papel. A meta de 1,1% do PIB caiu para 0,15% e, agora, j\u00e1 se fala em rombo de 0,85%, ou seja, de mais de R$ 50 bilh\u00f5es. A desconfian\u00e7a empurrou o d\u00f3lar para R$ 4, a recess\u00e3o se agravou e a infla\u00e7\u00e3o passou a caminhar rapidamente para 10%. A crise econ\u00f4mica se juntou \u00e0s turbul\u00eancias pol\u00edticas e a possibilidade de a presidente sofrer um impeachment se tornou real. Um quadro de caos tomou conta do pa\u00eds. <\/p>\n<p>As provid\u00eancias do BC para retomar o controle da infla\u00e7\u00e3o se tornaram in\u00f3cuas. O \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) deve fechar este ano pr\u00f3ximo de 10% e, para 2016, analistas j\u00e1 falam em 7%, muito al\u00e9m do centro da meta de 4,5% definido pelo Conselho Monet\u00e1rio Nacional (CMN). Na \u00faltima quarta-feira, a autoridade monet\u00e1ria manteve a taxa Selic em 14,25% e avisou que n\u00e3o sabe quando poder\u00e1 cumprir sua miss\u00e3o. Sem um ajuste fiscal consistente, o BC est\u00e1 de m\u00e3os atadas. Se elevar os juros, o PIB desabar\u00e1 mais e a situa\u00e7\u00e3o da d\u00edvida se agravar\u00e1. Caso corte a taxa, estimular\u00e1 remarca\u00e7\u00f5es e piorar\u00e1 as expectativas dos agentes econ\u00f4micos. <\/p>\n<p>\u00c9 por isso que est\u00e3o todos esperando pela carta de Tombini. Ao prestar contas ao pa\u00eds, ele ter\u00e1 que especificar, sem rodeios, quando o custo de vida voltar\u00e1 para a meta. O mercado s\u00f3 v\u00ea a infla\u00e7\u00e3o na meta em 2019, quando Dilma j\u00e1 estar\u00e1 fora do Pal\u00e1dio do Planalto. <\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 00h10min<\/i>   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ter\u00e1 um trabalho enorme para explicar \u00e0 Na\u00e7\u00e3o por que falhou neste ano na miss\u00e3o que lhe foi dada: entregar a infla\u00e7\u00e3o na meta. 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