{"id":235,"date":"2015-10-24T00:10:00","date_gmt":"2015-10-24T02:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/furacao_de_desconfianca\/"},"modified":"2015-10-24T00:10:00","modified_gmt":"2015-10-24T02:10:00","slug":"furacao_de_desconfianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/furacao_de_desconfianca\/","title":{"rendered":"FURAC\u00c3O DE DESCONFIAN\u00c7A"},"content":{"rendered":"\n<p>A presidente Dilma Rousseff est\u00e1 convencida de que conseguiu resgatar seu mandato. Com seu pior inimigo e algoz, o presidente da C\u00e2mara dos Deputados, Eduardo Cunha, na linha de tiro, ela acredita que se livrou do impeachment e, daqui por diante, conseguir\u00e1 retomar seu governo. A petista pode at\u00e9 estar certa, ainda que esteja pisando sobre areia movedi\u00e7a. Mas uma coisa \u00e9 certa: faltar\u00e1 a ela a for\u00e7a necess\u00e1ria para reconstruir o pa\u00eds que destruiu. <\/p>\n<p>Dilma levou o Brasil \u00e0 beira do precip\u00edcio. Desde que foi reeleita, em outubro do ano passado, foram fechadas mais de 1,2 milh\u00e3o de vagas com carteira assinada, n\u00famero que n\u00e3o se v\u00ea para tal per\u00edodo desde 1992, ano em que Fernando Collor de Mello foi defenestrado do poder. O desemprego n\u00e3o est\u00e1 perdoando ningu\u00e9m. Homens, mulheres, jovens, todos est\u00e3o sentido na pele o aprofundamento da recess\u00e3o. <\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 tr\u00e9gua. Chegou a um ponto em que nem o Banco Central consegue projetar quando a carestia voltar\u00e1 a diminuir. Na melhor das hip\u00f3teses, acredita a autoridade monet\u00e1ria, o custo de vida estar\u00e1 rondando os 4,5% em 2017. Isso, se a sorte ajudar e o governo fizer um ajuste fiscal, mesmo que insuficiente, para conter a escalada da d\u00edvida p\u00fablica. O problema \u00e9 que o governo n\u00e3o tem a menor no\u00e7\u00e3o de como est\u00e3o as contas p\u00fablicas. <\/p>\n<p>Havia a promessa de a equipe econ\u00f4mica anunciar ontem o tamanho do deficit fiscal de 2015, mas acabou imperando a frustra\u00e7\u00e3o. A cada rodada de an\u00e1lise dos n\u00fameros, o rombo fica maior. Num primeiro momento, falou-se em um buraco de R$ 50 bilh\u00f5es. Agora, com a determina\u00e7\u00e3o do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) de se pagar de uma \u00fanica vez as pedaladas fiscais do ano passado, de cerca de R$ 40 bilh\u00f5es, o rombo pode passar de R$ 90 bilh\u00f5es. T\u00e9cnicos do Planejamento falam, por\u00e9m, que ser\u00e1 poss\u00edvel abater da conta todos os investimentos do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC), o que deixar\u00e1 o deficit entre R$ 70 bilh\u00f5es e R$ 75 bilh\u00f5es. <\/p>\n<p>Qualquer que seja o rombo, ficar\u00e1 claro que o governo falhou na promessa ajustar as contas neste ano. Quando assumiu o Minist\u00e9rio da Fazenda, Joaquim Levy, prometeu uma arruma\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, o que permitiria a retomada do crescimento econ\u00f4mico j\u00e1 no segundo semestre. O que se viu, contudo, foi o Produto Interno Bruto (PIB) afundando e Levy tentando sobreviver a um bombardeio que parte, principalmente, de dentro do governo e do partido da presidente, o PT. <\/p>\n<p><b>Rota do desastre<\/b> <\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do economista Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do Banco Central, a indefini\u00e7\u00e3o sobre o buraco nas contas deste ano d\u00e1 a exata no\u00e7\u00e3o de como Dilma desestruturou o pa\u00eds. Pelas contas dele, o rombo fiscal est\u00e1, hoje, em torno de 1,8% do PIB, que n\u00e3o tem como ser revertido por meio de medidas paliativas. \u00c9 por isso que ningu\u00e9m acredita que Levy seja capaz de entregar superavit prim\u00e1rio (economia para o pagamento de juros) de 0,7% do PIB em 2016. Tudo leva a crer que ser\u00e3o tr\u00eas anos seguidos de deficit fiscal. <\/p>\n<p>Essa realidade, acrescenta Freitas, faz com que, em vez de caminhar em dire\u00e7\u00e3o ao futuro, o Brasil esteja flertando com o passado. \u201cCorremos o risco de repetir o que se viu no Plano Ver\u00e3o, de 1989, quando o pa\u00eds adotou uma moeda indexada. Tudo girava em torno dos t\u00edtulos emitidos pelo governo corrigidos pela Selic\u201d, explica. \u201cAinda n\u00e3o estamos l\u00e1, mas j\u00e1 caminhamos em dire\u00e7\u00e3o ao passado\u201d, frisa. O mais preocupante \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m hoje no governo com capacidade para inverter a rota do desastre. Nem mesmo Levy, que se tornou um ministro sem voz em decis\u00f5es estrat\u00e9gicas sobre as contas p\u00fablicas. <\/p>\n<p>O ministro da Fazenda, por sinal, deixou Bras\u00edlia na noite de quinta-feira, a despeito de todo o debate dentro do governo sobre a defini\u00e7\u00e3o da meta fiscal de 2015. Quando ele chegou ao governo, prometeu entregar superavit de 1,1% do PIB. A contragosto, foi obrigado a reduzir a meta fiscal deste ano para 0,15% assim como as de exerc\u00edcios seguintes. A maior derrota dele, por\u00e9m, foi o enviou ao Congresso da proposta or\u00e7ament\u00e1ria de 2016 com rombo de R$ 30,5 bilh\u00f5es. Ele sequer foi consultado. <\/p>\n<p><b>Descr\u00e9dito<\/b> <\/p>\n<p>Para Alexandre P\u00f3voa, presidente da Canepa Asset Brasil, levar\u00e1 tempo para reverter tantos erros. Ele acredita que, em 2016, ao contr\u00e1rio do que prega Levy, que fala em retomada da atividade, o PIB cair\u00e1 pelo menos 2%. Isso significa dizer que, em dois anos, a economia encolher\u00e1 mais de 5%, se confirmado o tombo de 3% em 2015. No entender dele, apesar de toda essa contra\u00e7\u00e3o, o BC ter\u00e1 que lidar com a infla\u00e7\u00e3o testando no teto da meta, de 6,5%. <\/p>\n<p>P\u00f3voa ressalta ainda que, diante da incapacidade de derrubar a infla\u00e7\u00e3o deste ano, de 10%, para 4,5%, no pr\u00f3ximo, o BC n\u00e3o deveria ter assumido tal compromisso p\u00fablico. Como, agora, foi obrigado a jogar a toalha, acabou perdendo credibilidade. \u201cO BC tem tido um comportamento err\u00e1tico. No primeiro mandato de Dilma, errou ao reduzir os juros mesmo com a infla\u00e7\u00e3o em alta. Neste momento, erra ao prometer o que n\u00e3o poderia cumprir. Da pr\u00f3xima vez que a autoridade monet\u00e1ria se comprometer com qualquer coisa, todos ficar\u00e3o perguntando quando mudar\u00e1 posi\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. <\/p>\n<p>Nesse quadro de tanta incerteza, fica dif\u00edcil olhar para a frente e ver sinais de melhora. O governo vai seguir a cartilha de Lula e difundir um discurso de que o pior j\u00e1 passou e a hora \u00e9 de falar em crescimento. Mas nem a melhor propaganda enganosa ser\u00e1 capaz de convencer quem perdeu o emprego, est\u00e1 endividado e sofre para botar comida \u00e0 mesa que os bons ventos est\u00e3o de volta. Infelizmente, est\u00e3o todos tragados pelo furac\u00e3o da recess\u00e3o e da desconfian\u00e7a. <\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 00h10min<\/i>   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A presidente Dilma Rousseff est\u00e1 convencida de que conseguiu resgatar seu mandato. Com seu pior inimigo e algoz, o presidente da C\u00e2mara dos Deputados, Eduardo Cunha, na linha de tiro, ela acredita que se livrou do impeachment e, daqui por diante, conseguir\u00e1 retomar seu governo. 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