{"id":23939,"date":"2022-03-13T16:28:32","date_gmt":"2022-03-13T19:28:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=23939"},"modified":"2022-03-13T18:48:09","modified_gmt":"2022-03-13T21:48:09","slug":"para-belluzzo-choque-de-oferta-da-guerra-deve-ser-pior-do-que-o-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/para-belluzzo-choque-de-oferta-da-guerra-deve-ser-pior-do-que-o-da-pandemia\/","title":{"rendered":"Para Belluzzo, choque de oferta da guerra deve ser pior do que o da pandemia"},"content":{"rendered":"<h2>ROSANA HESSEL<\/h2>\n<h2>VICENTE NUNES<\/h2>\n<h2>O Brasil est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o muito vulner\u00e1vel para enfrentar um per\u00edodo prolongado de guerra entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia, acredita\u00a0o economista Luiz Gonzaga\u00a0Belluzzo, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Al\u00e9m de a economia do pa\u00eds estar flertando com a recess\u00e3o, a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 em disparada e os juros, de 10,75% ao ano, v\u00e3o subir mais.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8221; O Brasil n\u00e3o poderia ter chegado em pior forma neste momento&#8221;, afirma. De acordo com ele, o choque de oferta que dever\u00e1 ser provocado pelo conflito no Leste Europeu ser\u00e1 pior do que o da pandemia, &#8220;dependendo da intensidade da guerra e dos setores que ser\u00e3o atingidos&#8221;.\u00a0 Contudo, para ele, o &#8220;o Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds perdido&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Para tentar minimizar os impactos econ\u00f4micos provocados pelos conflitos no Leste Europeu, ele defende programas como os adotados durante a pandemia do novo coronav\u00edrus, em que a presen\u00e7a do Estado foi preponderante.\u00a0\u00a0No caso espec\u00edfico dos combust\u00edveis, que foram reajustados em at\u00e9 25% pela Petrobras na \u00faltima quinta-feira, Belluzzo defende a cria\u00e7\u00e3o de um fundo de estabiliza\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os para absorver choques externos. Esse instrumento, inclusive, seria importante para preservar a pol\u00edtica de pre\u00e7os da estatal, que acompanha o mercado internacional de petr\u00f3leo. N\u00e3o h\u00e1, no entender dele, porque sacrificar a estatal. &#8220;A sa\u00edda \u00e9 criar um fundo de estabiliza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o deixar passar o choque de pre\u00e7os para dentro. E esse fundo pode ser criado com imposto sobre exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo&#8221;, diz.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O professor, de linha desenvolvimentista \u2014 linha adotada em todas as situa\u00e7\u00f5es p\u00f3s-guerras \u2014, critica o\u00a0protagonismo excessivo dos economistas no debate pol\u00edtico e ressalta que o caminho para a retomada do crescimento sustentado da economia passa pela reindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Para ele, a crise atual est\u00e1 mostrando, mais uma vez, como o discurso liberal, que prega o Estado m\u00ednimo, est\u00e1 vazio. Em busca de prote\u00e7\u00e3o, os investidores recorreram aos t\u00edtulos p\u00fablicos, pois sabem que o risco de levarem calote \u00e9 m\u00ednimo. A seguir, os principais trechos da entrevista ao\u00a0<b>Correio<\/b>\u00a0que n\u00e3o couberam na edi\u00e7\u00e3o impressa deste domingo (13\/3).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Estamos diante do conflito no Leste Europeu, com a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia. Que impactos isso pode ter para o Brasil e para o mundo?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Esse conflito \u00e9 complicado. \u00c9 muito mais complicado do que a m\u00eddia em geral est\u00e1 falando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Quando a gente olha, de imediato, parece um conflito dos Estados Unidos com a R\u00fassia. Mas tem processos mais profundos que, na verdade, envolvem a emerg\u00eancia da China. \u00c9 um fen\u00f4meno muito curioso esse da China, porque, de uma certa forma, lembra bem as emerg\u00eancias dos Estados Unidos e da Alemanha no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do S\u00e9culo XX, que soterraram a hegemonia inglesa. O poder econ\u00f4mico dos EUA e da Alemanha n\u00e3o pode ser entendido sem ver a forma como a Inglaterra se relacionou com eles, como uma pot\u00eancia industrial mercantil. Isso \u00e9 muito parecido com o que aconteceu com os Estados Unidos ap\u00f3s o reconhecimento da China como pa\u00eds considerado confi\u00e1vel e democr\u00e1tico com (Richard) Nixon (ex-presidente dos Estados Unidos), em 1972. A partir da\u00ed, a China come\u00e7a a fazer reformas, e, logo depois, os EUA promovem a abertura financeira e comercial.\u00a0A China foi a grande benefici\u00e1ria da abertura financeira do ponto de vista do investimento estrangeiro direto. E, nesse mesmo movimento, o Brasil perdeu o protagonismo. Naquela \u00e9poca, o pa\u00eds era o mais industrializado entre os ditos, hoje, emergentes, e foi perdendo posi\u00e7\u00e3o para a China, que conseguiu se transformar em uma pot\u00eancia mundial. Eu diria que a economia da China \u00e9 a mais poderosa do mundo. E \u00e9 isso que est\u00e1 perturbando um pouco a vis\u00e3o e o sentimento dos Estados Unidos, que estava habituado com a constru\u00e7\u00e3o da hegemonia no p\u00f3s-guerras.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A China, agora, tem uma participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o manufatureira global que chega a 29%, enquanto os EUA t\u00eam 18% e o Brasil, 0,97%. Essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 importante e n\u00e3o podemos desconhecer que isso est\u00e1 no joint statement assinado pela R\u00fassia e pela China na abertura das Olimp\u00edadas de inverno, que mostra que a China est\u00e1 articulada com a R\u00fassia, ou vice-versa, e isso tem uma import\u00e2ncia econ\u00f4mica muito grande. Eu n\u00e3o estou torcendo para nenhum lado. Estou tentando analisar as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a que est\u00e3o amparadas em rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Uma das quest\u00f5es centrais do poder norte-americano \u00e9 o poder do d\u00f3lar. Precisamos ficar muito atentos para olhar os componentes estruturais desse conflito que v\u00eam desde o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da emerg\u00eancia da China como pot\u00eancia econ\u00f4mica e regional, e, al\u00e9m disso, desenvolvendo um projeto de expans\u00e3o da rota da seda, muito bem dosado. N\u00e3o estou fazendo ju\u00edzo de valor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Mas como fica o Brasil nesse contexto global de guerra?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Na verdade, temos que admitir que o peso do Brasil na economia mundial diminuiu muito a partir dos anos 1980, com a crise da d\u00edvida externa. E isso se acentuou muito com as pol\u00edticas econ\u00f4micas que foram levadas a cabo no per\u00edodo seguinte, nos anos 1990, depois do Plano Real. Quando eu falo isso, perguntam se eu sou contra o Plano Real que acabou com a hiperinfla\u00e7\u00e3o. Eu respondo que n\u00e3o se trata de ser contra ou a favor, trata-se de analisar. Na gest\u00e3o do Real, sofremos muito com a taxa real de juros (Selic) de 22% at\u00e9 1998 e a valoriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar. N\u00e3o se pode explicar o decl\u00ednio brasileiro sem compreender esse fen\u00f4meno. O Brasil deixou de ser um protagonista importante, um receptor de capitais. Agora, o que est\u00e1 entrando, \u00e9 capital de portf\u00f3lio. \u00c9 a arbitragem de c\u00e2mbio e juros e dos pre\u00e7os dos ativos na Bolsa. Mas \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o puramente financeira. Voc\u00eas t\u00eam uma ideia de um novo investimento estrangeiro de constru\u00e7\u00e3o de f\u00e1brica nos \u00faltimos anos? Eles s\u00f3 compram um ativo, empresas preexistentes. Isso \u00e9 t\u00edpico de um capitalismo que est\u00e1 financeirizado no mundo inteiro.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, est\u00e1 tentando reverter essa tend\u00eancia, assim como os europeus, em seu programa de facilita\u00e7\u00e3o de investimentos. Mas a verdade \u00e9 que isso ainda est\u00e1 no in\u00edcio.\u00a0E, no caso do Brasil, o pa\u00eds est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o em que sofreu uma regress\u00e3o industrial. N\u00e3o s\u00f3 porque perdeu muitos setores, como da inform\u00e1tica, que estava come\u00e7ando a construir, como n\u00e3o conseguiu incluir os setores da quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial. Portanto, quando se fala em reindustrializa\u00e7\u00e3o, essa tarefa \u00e9 muito mais complexa do que foi nos anos 1950, com Juscelino Kubitschek,\u00a0quando o capital estrangeiro veio aqui e foi usado para articular a ind\u00fastria nacional, como a automobil\u00edstica, de autope\u00e7as, de bens de capital. Essa tarefa, agora,\u00a0vai exigir, sobretudo, aten\u00e7\u00e3o para essa mudan\u00e7a da natureza da ind\u00fastria. Um dia desses eu vi uma pessoa, amigo meu at\u00e9, falando que o mundo est\u00e1 vivendo um per\u00edodo de desindustrializa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 isso. O mundo est\u00e1 vivendo um per\u00edodo de hiper industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Porque todas as atividades, servi\u00e7os, agricultura, est\u00e3o se tornando industrializadas, e a din\u00e2mica delas \u00e9 movida pelo avan\u00e7o tecnol\u00f3gico. Olha a agricultura avan\u00e7ada no pa\u00eds, com colheitadeiras, semeadeiras, sistemas de irriga\u00e7\u00e3o. Tudo isso \u00e9 muito industrializado, assim como servi\u00e7os. \u00c9 muito diferente do que vivemos no passado.\u00a0O Brasil est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o subordinada e teve a m\u00e1 sorte de contar com, digamos, sobretudo depois dos anos 2015 e 2016, de forte retra\u00e7\u00e3o, com pol\u00edticas econ\u00f4micas ditas liberais. Francamente, n\u00e3o queria pensar t\u00e3o mal do liberalismo econ\u00f4mico, que \u00e9 uma coisa realmente deplor\u00e1vel, prim\u00e1ria, e eu chamo de liberalismo das cavernas. At\u00e9 o jurista (Jeremy) Bentham,\u00a0um dos pais do liberalismo, advogou a estatiza\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito para poder desenvolver no come\u00e7o do s\u00e9culo XIX. Um liberal viu uma oportunidade. Depois da Segunda Guerra Mundial, todos os pa\u00edses olharam a possibilidade do capitalismo se renovar e se transformar em um sistema inclusivo e com muita capacidade de expans\u00e3o. O que eu quero dizer \u00e9 que o Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds perdido, de maneira nenhuma, mas precisa de uma outra energia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>E qual \u00e9 essa outra energia?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Essa energia, se voc\u00eas me permitem, primeiro, vou fazer uma considera\u00e7\u00e3o. Eu fico muito incomodado com a proemin\u00eancia dos economistas no debate pol\u00edtico, porque os economistas deveriam, como diria (John Maynard) Keynes, apenas ter um protagonismo de um barbeiro, que cumpre a sua tarefa, porque as decis\u00f5es s\u00e3o pol\u00edticas. Esse protagonismo excessivo dos economistas revela o empobrecimento da sociedade. Os economistas devem ser chamados para opinar, para ajudar, para construir. N\u00e3o pode entregar esse protagonismo, sobretudo, as decis\u00f5es apenas, dada a complexidade do sistema econ\u00f4mico. (Joseph) Schumpeter, Keynes e (Karl) Marx tinham vis\u00e3o dessa complexidade. O debate econ\u00f4mico atual parece um coro gregoriano. \u00c9 o teto de gastos, \u00e9 o risco fiscal, e ningu\u00e9m \u00e9 capaz, por exemplo, de relacionar os fatores externos e os movimentos do fluxo de capitais com a arquitetura monet\u00e1ria internacional, que s\u00e3o muito importantes. Veja s\u00f3: o Brasil tem US$ 356 bilh\u00f5es de reservas e a R\u00fassia, US$ 630\u00a0bilh\u00f5es. Isso nos coloca em uma posi\u00e7\u00e3o diferente e distinta de outros pa\u00edses, por exemplo, da Argentina, que tem uma vulnerabilidade externa permanente desde os anos 1930. O Brasil teve oscila\u00e7\u00f5es e fez essa asneira de se entupir de d\u00edvida externa. E todo mundo hoje sabe que \u00e9 um risco enorme, que desabou nos anos 1980 e que nos levou a essa situa\u00e7\u00e3o atual.\u00a0Estamos pagando o pre\u00e7o por essa decis\u00e3o, ainda que tenhamos revertido, em parte, por causa das reservas que nos deixa em uma posi\u00e7\u00e3o mais confort\u00e1vel.\u00a0Mas o projeto de pol\u00edtica econ\u00f4mica tem que respeitar, da maior maneira poss\u00edvel, a vontade popular. Tem que ser baseado nos desejos da popula\u00e7\u00e3o, como melhorar sua vida, sair dessa situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria em que est\u00e1 todo mundo metido.\u00a0Est\u00e1 muito claro o que se precisa fazer na pol\u00edtica econ\u00f4mica imediatamente. \u00c9 salvar essas pessoas que est\u00e3o submetidas a esse padecimento. A essas dores terr\u00edveis de comer em caminh\u00e3o de lixo. O que \u00e9 isso? E tem mais essa:\u00a0a economia, quando se coloca na posi\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia, mas n\u00e3o sabe nem o que \u00e9 ci\u00eancia. Vamos combinar, os economistas conservadores n\u00e3o t\u00eam n\u00edvel cultural para discutir essas quest\u00f5es. Eles vestem de tal maneira os sapatos, os tamancos da ci\u00eancia e acham que n\u00e3o d\u00e1 para fazer nada, porque o governo est\u00e1 ruim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>E como se faz? Qual \u00e9 o caminho?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O capitalismo desenvolveu formas, desde o Renascimento, constituindo as institui\u00e7\u00f5es. Os bancos, por exemplo, que, primeiro, financiavam os reis. Vamos pegar a Inglaterra, 1694, quando foi criado o Banco da Inglaterra, que aperfei\u00e7oou o mercantilismo. E o que o Banco da Inglaterra fez de fundamental? Come\u00e7ou a emitir cr\u00e9dito e financiar a d\u00edvida p\u00fablica para permitir a transi\u00e7\u00e3o do feudalismo para o capitalismo monet\u00e1rio. E n\u00e3o \u00e9 compreensiva a revolu\u00e7\u00e3o industrial sem duas coisas: o Banco da Inglaterra e a sua d\u00edvida p\u00fablica, que virou riqueza privada. E veja o que est\u00e1 acontecendo agora: o sistema do mundo est\u00e1 correndo para t\u00edtulos p\u00fablicos, porque s\u00e3o os investimentos com mais seguran\u00e7a em um momento como esse.\u00a0O capitalismo desenvolveu esse sistema de cria\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria dos bancos privados com supervis\u00e3o do Banco Central. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada que se aperfei\u00e7oou e foi funcionando ao longo do tempo. Os bancos centrais europeu e dos Estados Unidos enfrentaram a crise financeira de 2008 emitindo moeda. Compraram os t\u00edtulos p\u00fablicos. O Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) tem em sua carteira cerca de 50% dos t\u00edtulos p\u00fablicos emitidos, assim como no caso da Europa. N\u00e3o vamos falar do Jap\u00e3o, porque ultrapassa qualquer limite. Na verdade, se o governo n\u00e3o exercesse essa sua faculdade, o setor de cr\u00e9dito privado tinha sumido, colapsado.\u00a0A economia capitalista vive sempre nesse equil\u00edbrio entre o poder do Estado emitir moeda e a capacidade dos bancos distinguirem qual \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o mais arriscada e menos arriscada. \u00c9 o p\u00fablico e o privado convivendo.\u00a0Logo, essa hist\u00f3ria do teto de gastos \u00e9 a coisa mais idiota que eu j\u00e1 vi na minha vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O Brasil, hoje, est\u00e1 mais preparado para enfrentar uma guerra ou est\u00e1 mais vulner\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Vou responder com a maior sinceridade. A depender da continuidade da execu\u00e7\u00e3o dessas pol\u00edticas, o Brasil vai ficar muito vulner\u00e1vel e muito enfraquecido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>As pol\u00edticas que o senhor fala s\u00e3o as neoliberais que v\u00eam sendo tocadas pelo ministro Paulo Guedes?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Na verdade, o governo n\u00e3o tem pol\u00edtica nenhuma. \u00c9 uma s\u00e9rie de promessas, de coisas que n\u00e3o est\u00e3o se realizando. Al\u00e9m disso, tem uma vis\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do\u00a0Estado com o mercado que \u00e9 completamente esdr\u00faxula, sem nenhum fundamento, porque n\u00e3o existe oposi\u00e7\u00e3o entre o Estado e o mercado. E existe, sim, \u00e0s vezes, a contradi\u00e7\u00e3o. E contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma coisa ruim, porque quer dizer que voc\u00ea est\u00e1 em uma passagem. Na pol\u00edtica monet\u00e1ria existe, o tempo inteiro, essa contradi\u00e7\u00e3o, e, a mesma coisa, na pol\u00edtica fiscal. Agora, todo mundo est\u00e1 reconhecendo que existe uma capacidade fiscal e monet\u00e1ria do Estado que pode socorrer o setor privado. Na teoria econ\u00f4mica, no fundo, \u00e9 que se cria uma defesa para evitar avan\u00e7o do Estado sobre o setor privado. Mas existe uma articula\u00e7\u00e3o interna fundamental entre ambos desde o in\u00edcio do capitalismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Mas existe limite para o Estado. O que importa \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o entre o Estado e o setor privado?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Sim, mas depende. \u00c9 um ecossistema onde um depende do outro. E o que interessa nesse ecossistema \u00e9 que gere o que \u00e9 desejado, como crescimento, cria\u00e7\u00e3o de empregos e boas oportunidades para todos. \u00c9 isso que interessa. A\u00ed vem um e outro criticando que tem muito Estado. O que \u00e9 isso? Isso \u00e9 um neg\u00f3cio prim\u00e1rio. Economistas que falam isso s\u00e3o pouco estudados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O senhor acha que muito do que o Brasil est\u00e1 passando hoje tem a ver com essa vis\u00e3o equivocada de que h\u00e1 muita presen\u00e7a do Estado e economia privada de menos?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Seguramente. Na verdade, se fossemos rever o per\u00edodo de crescimento brasileiro que vem l\u00e1 dos anos 1930, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o permanente entre Estado e setor privado. Eu ajudei no Documento dos Oito, que foi escrito em 1979 por todos os grandes industriais brasileiros. Se voc\u00ea ler o documento, ver\u00e1 a concep\u00e7\u00e3o, o conhecimento, a no\u00e7\u00e3o que eles tinham das rela\u00e7\u00f5es entre Estado e mercado e do projeto de industrializa\u00e7\u00e3o brasileira. O que aconteceu nos anos 1980 e 1990 foi varrido, porque as concep\u00e7\u00f5es, como diria o Schumpeter, s\u00e3o muito importantes. Os economistas incultos s\u00e3o muito narrativos e n\u00e3o d\u00e3o import\u00e2ncia ao sentido das coisas e n\u00e3o veem direto a realidade. Como mostraram alguns fil\u00f3sofos, como (Georg Wilhelm Friedrich)\u00a0Hegel, sobre o intelecto e a raz\u00e3o. O intelecto \u00e9 quando voc\u00ea entra em contato com as coisas e a raz\u00e3o, quando voc\u00ea compreende as coisas. E o que vemos, \u00e9 muito diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Durante a pandemia, vimos como o Brasil estava vulner\u00e1vel nessa quest\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds ficou muito dependente da China e de pa\u00edses asi\u00e1ticos, o mundo como um todo. Ali ficou claro o quanto o pa\u00eds errou na pol\u00edtica industrial ao n\u00e3o proteger esse setor?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Perfeitamente. E isso n\u00e3o \u00e9 verdade s\u00f3 para o Brasil. Nos Estados Unidos, o (Donald) Trump precisou importar m\u00e1scaras da China produzidas pela 3M, que \u00e9 americana. Na Fran\u00e7a, tamb\u00e9m revelaram as car\u00eancias da ind\u00fastria francesa para fornecer insumos n\u00e3o apenas para produtos farmac\u00eauticos, mas tamb\u00e9m para outros aparelhos necess\u00e1rios para hospitais. E, no caso do Brasil, essa defici\u00eancia tamb\u00e9m ficou muito clara.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O pa\u00eds precisa de um novo programa de industrializa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">N\u00f3s precisamos de um programa muito abrangente, que inclua essa quest\u00e3o tecnol\u00f3gica, e, sem isso, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel. Tem gente muito mais capacitada do que eu para falar disso. Eu sei disso de uma maneira muito geral. Mas n\u00e3o tenho d\u00favida nenhuma de que a industrializa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante. Tem gente que diz que a ind\u00fastria n\u00e3o tem import\u00e2ncia, e que produzir banana e computador \u00e9 a mesma coisa. O que \u00e9 importante para a ind\u00fastria s\u00e3o as articula\u00e7\u00f5es por dentro da economia, porque voc\u00ea gera\u00a0uma divis\u00e3o do trabalho entre v\u00e1rios setores e isso tem uma estrutura que tem uma din\u00e2mica. Quando olhamos os processos de industrializa\u00e7\u00e3o mais recentes, como o da Coreia e o da China, vemos que eles foram supervisionados e coordenados pelo Estado.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Um dia, conversando com um alto funcion\u00e1rio chin\u00eas e ele me disse que, na China, quem dirige a economia s\u00e3o os estrategistas engenheiros. E perguntei: e os economistas? Os economistas, a gente bota a\u00ed para dar uns palpites, respondeu. Existe um problema estrat\u00e9gico no Brasil, que \u00e9 tamb\u00e9m um problema pol\u00edtico. C\u00e1 entre n\u00f3s, sem montar um ambiente pol\u00edtico no Congresso, no debate com a sociedade, favor\u00e1vel \u00e0 qualidade de vida, voc\u00ea vai continuar prisioneiro de grupos minorit\u00e1rios que t\u00eam o controle das coisas. E quem tem esse controle das coisas, hoje, no Brasil, e em boa parte do mundo, \u00e9 o mercado financeiro, que determina a aloca\u00e7\u00e3o de recursos. E ele est\u00e1 se tornando disfuncional, porque s\u00f3 tem rela\u00e7\u00f5es entre si.\u00a0\u00c9 preciso regular, estabelecer regras, procedimentos e criar est\u00edmulos e incentivos, como foi criado em outras ocasi\u00f5es para que o mercado financeiro atue. Em uma economia capitalista, voc\u00ea n\u00e3o pode eliminar o mercado financeiro. Voc\u00ea tem que regul\u00e1-lo, control\u00e1-lo e disciplin\u00e1-lo, como foi feito no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O Brasil foi pego pela guerra no Leste Europeu com infla\u00e7\u00e3o alta, juros subindo e a economia flertando com a recess\u00e3o. Como ficamos se essa guerra perdurar por muito tempo?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Essa situa\u00e7\u00e3o de anomalia, de anormalidade, j\u00e1 estava posta na sa\u00edda da pandemia, que foi assim\u00e9trica. Alguns setores sa\u00edram mais r\u00e1pido do que outros, porque houve um choque de oferta. Vamos lembrar que, no p\u00f3s-guerras, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, houve choque de oferta e controle do choque de pre\u00e7os criando um fundo de estabiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixando passar tudo para a economia.\u00a0Eu n\u00e3o consigo, francamente, entender como \u00e9 que um governo minimamente respons\u00e1vel e esclarecido possa trazer para dentro os choques de pre\u00e7os de petr\u00f3leo quando o Brasil \u00e9 autossuficiente na produ\u00e7\u00e3o de \u00f3leo cru.\u00a0Mas faz o que a Noruega fez, um fundo de estabiliza\u00e7\u00e3o. Voc\u00eas viram o lucro da Petrobras (de R$ 106,7 bilh\u00f5es em 2021) e n\u00e3o fizeram nada?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O que o senhor est\u00e1 dizendo \u00e9 que tem que mudar a pol\u00edtica de pre\u00e7os da Petrobras?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">N\u00e3o. Tem que, na verdade, estabilizar. N\u00e3o se pode danificar a Petrobras como empresa. A sa\u00edda \u00e9 criar um fundo de estabiliza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o deixar passar o choque de pre\u00e7os para dentro. E esse fundo pode ser criado com imposto sobre exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo.\u00a0Agora, que o petr\u00f3leo passou de US$ 100\u00a0e querem danar\u00a0a vida de todo mundo, encarecer o g\u00e1s de cozinha, dos combust\u00edveis etc.\u00a0 A ideia dessa (equipe da) Economia \u00e9 n\u00e3o mexer na pol\u00edtica de pre\u00e7os. N\u00e3o vou falar Michel Foucault (fil\u00f3sofo franc\u00eas) para eles, porque v\u00e3o pensar que \u00e9 o ponta esquerda da Fran\u00e7a. O Foucault diz que o mercado \u00e9 visto como locus da verdade, que conta a verdade na vis\u00e3o dos conservadores. Ele n\u00e3o \u00e9 o lugar da Justi\u00e7a, mas da verdade. Mas, no caso do petr\u00f3leo, tem oferta demais, mas tem um cartel (controlando os pre\u00e7os). Ali\u00e1s, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma livre concorr\u00eancia em nenhum setor da economia. H\u00e1 um grau de concentra\u00e7\u00e3o e de centraliza\u00e7\u00e3o de controle. Hoje em dia, 2% dos acionistas controlam 70% dos ativos financeiros do mundo. E o que eles est\u00e3o fazendo? Forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o, de cartel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Voltando para infla\u00e7\u00e3o, juros e recess\u00e3o. Como fica o Brasil nisso?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">H\u00e1 um choque de oferta e \u00e9 preciso ter estoques reguladores para o controle de pre\u00e7os. O mercado de derivativos era para se defender de uma situa\u00e7\u00e3o e acabou gerando valor em si mesmo.\u00a0O (Milton) Friedman (pai do liberalismo) dizia que a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno monet\u00e1rio. O Brasil n\u00e3o poderia ter chegado em pior forma neste momento. Na verdade, n\u00f3s n\u00e3o fizemos o que eles chamam de dever de casa, que era aplainar o choque de pre\u00e7os, sobretudo do petr\u00f3leo e das commodities, se tivesse os instrumentos, e a\u00ed poderia se fazer uma pol\u00edtica monet\u00e1ria mais suave. Mas, agora, o que vai ser feito: dar uma cacetada nos juros e nas expectativas de crescimento. A economia vai patinar e vai demorar para derrubar a infla\u00e7\u00e3o. Diante do risco de o PIB cair de maneira violenta, acho que o Roberto Campos Neto ser\u00e1 um pouco mais moderado do que outros banqueiros centrais. Vamos lembrar que, nos Estados Unidos, com um novo choque de oferta, o Fed pode subir a taxa de juros em 3,0 pontos, em vez de 0,25 e 0,50 ponto. Se isso acontecer, vai interromper o crescimento l\u00e1 e aqui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O choque de oferta que pode vir dessa guerra pode ser maior do que vimos na pandemia?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Pode ser maior, dependendo da intensidade da guerra e dos setores que ser\u00e3o atingidos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>E isso \u00e9 mais infla\u00e7\u00e3o e mais juros?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Sim, mas a\u00ed seria preciso adotar os princ\u00edpios de uma economia de guerra. Ou seja, tratar esses fen\u00f4menos como an\u00f4malos e danosos para a economia e adotar procedimentos de uma economia de guerra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>E, para isso, \u00e9 preciso de um Estado mais forte, o que \u00e9 questionado pelos liberais?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9. Mas com a situa\u00e7\u00e3o, digamos, de conflito, de crise como essa, \u00e9 melhor esquecer esse neg\u00f3cio. Tem outro instrumento para cuidar dessa crise? O bloqueio do Mar Negro, por exemplo, \u00e9 um mega choque de oferta. Porque atinge gregos e troianos. Os que foram bloqueados e os que bloquearam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O senhor acha que o Brasil vai sofrer mais do que outros pa\u00edses?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Vai sofrer se prolongarem a guerra. Espero que ela n\u00e3o se prolongue e chegue algu\u00e9m com bom senso e ajeite as coisas.\u00a0Mas eu n\u00e3o estou vendo essa perspectiva. O Brasil vai sofrer muito, porque tem uma depend\u00eancia muito grande da importa\u00e7\u00e3o de produtos manufaturados. E n\u00f3s ter\u00edamos que nos defender com a\u00e7\u00f5es mais incisivas no sentido de reconstituir setores que n\u00f3s perdemos. T\u00ednhamos o projeto de uma f\u00e1brica de semicondutores, mas desmanchamos.\u00a0O Brasil toma muitas decis\u00f5es erradas. Quando \u00e9 que vamos parar com isso?\u00a0S\u00f3 podemos parar com a\u00e7\u00e3o coletiva. Se conseguirmos eleger um grupo de dirigentes que tenha uma preocupa\u00e7\u00e3o diferente, com uma outra vis\u00e3o.\u00a0Isso tamb\u00e9m precisa de uma mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade. Ela n\u00e3o est\u00e1 mobilizada para pedir para participar das decis\u00f5es e do debate p\u00fablico. As redes sociais n\u00e3o s\u00e3o espa\u00e7o adequado para o debate, porque s\u00f3 t\u00eam afirma\u00e7\u00f5es. Por isso, a grande imprensa teria um papel muito importante desde que se desvencilhasse do unilateralismo. \u00c9 muito importante o debate p\u00fablico, com a participa\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias for\u00e7as sociais que est\u00e3o comprometidas com o crescimento, porque n\u00e3o acredito em automatismo e nem sabedoria cient\u00edfica dos economistas. Se n\u00e3o tivermos um debate muito intenso, vai ser muito dif\u00edcil sair dessa enrascada.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Diante da conjuntura atual, olhando para o que aconteceu durante a pandemia, as solu\u00e7\u00f5es para a crise deixaram de lado o liberalismo. Agora, de novo, com essa guerra na Ucr\u00e2nia, o senhor acha que \u00e9 uma p\u00e1 de cal para enterrar as teorias neoliberais?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Essas coisas n\u00e3o terminam assim repentinamente.\u00a0Estamos vivendo uma crise muito profunda e muito antiga. Estamos observando movimentos de reestrutura\u00e7\u00e3o, de recondu\u00e7\u00e3o e de mudan\u00e7a na natureza das decis\u00f5es. Mas isso leva tempo, porque, do outro lado, existe muita resist\u00eancia ainda. N\u00e3o vamos nos iludir. Essa crise, na verdade, nos proporcionou, sim, uma rediscuss\u00e3o muito importante do fundamento da nossa sociedade, da nossa economia, da nossa cultura, etc. Mas isso n\u00e3o vai se resolver do dia para a noite. Vamos ter que caminhar.\u00a0Vamos ter que continuar na briga, na discuss\u00e3o, no bom debate, porque a ci\u00eancia e o conhecimento se fundamentam na d\u00favida.\u00a0 Eu sempre digo isso para os meus alunos. E quando voc\u00ea come\u00e7a a duvidar de alguma coisa que te dizem com tanta certeza, voc\u00ea come\u00e7a a descobrir os caminhos do conhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O Brasil enfrentou uma pandemia e pode enfrentar uma guerra com Bolsonaro no poder?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Olha, acho que, no caso da pandemia, voc\u00eas j\u00e1 sabem os resultados. A guerra, eu n\u00e3o sei. Se a guerra se generalizar, n\u00e3o sei qual \u00e9 a capacidade do Brasil de se ajustar. A julgar pelo desempenho dele, e n\u00e3o por conta da declara\u00e7\u00e3o de solidariedade \u00e0 R\u00fassia, o problema de Bolsonaro \u00e9 o de n\u00e3o compreender o que est\u00e1 acontecendo. Isso \u00e9 muito fora dos par\u00e2metros dele. Ele n\u00e3o tem capacidade de compreender nada. Ele s\u00f3 pula de um lado para outro. Ele vai pular do lado da R\u00fassia. Ele precisa fazer uma avalia\u00e7\u00e3o no sentido de proteger o Brasil. Na Segunda Guerra Mundial, Get\u00falio Vargas oscilou, o tempo inteiro, de um lado para outro para criar uma defesa para o Brasil e foi ajeitando as coisas para criar uma economia de guerra. Ele negociou a base americana no Rio Grande do Norte, conseguiu a vinda da sider\u00fargica ao Brasil e foi se ajustando e s\u00f3 entrou na guerra em 1942 do lado dos aliados, conseguiu um equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>A pol\u00edtica est\u00e1 muito tensionada, o que \u00e9 muito ruim para o setor produtivo\u2026<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Sim, muito ruim. Eu vejo que as coisas muito extremadas. Essas opini\u00f5es da pol\u00edtica econ\u00f4mica de que o Estado n\u00e3o pode isso ou aquilo, \u00e9 muito ruim. \u00c9 preciso construir. Essa \u00e9 a palavra. O que assistimos nos \u00faltimos anos foi destruir, uma desconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O PIB de 2021 cresceu 4,6%, segundo o IBGE. \u00c9 poss\u00edvel afirmar que houve aquela retomada em V que o ministro Paulo Guedes fala? As proje\u00e7\u00f5es para 2022 e 2023 j\u00e1 eram ruins sem a guerra\u2026<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Se a economia crescesse 5%, n\u00e3o conseguir\u00edamos voltar ao n\u00edvel de 2013. Esse \u00e9 o problema. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o sei do que ele est\u00e1 falando. Em n\u00edvel de atividade, estamos abaixo do patamar de 2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ROSANA HESSEL VICENTE NUNES O Brasil est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o muito vulner\u00e1vel para enfrentar um per\u00edodo prolongado de guerra entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia, acredita\u00a0o economista Luiz Gonzaga\u00a0Belluzzo, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Al\u00e9m de a economia do pa\u00eds estar flertando com a recess\u00e3o, a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 em disparada e os juros, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":22,"featured_media":23946,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[600],"tags":[378,6027,6026,589,676,14,6025,6024],"class_list":["post-23939","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","tag-brasil","tag-choque-de-oferta","tag-combusiveis","tag-economia","tag-guerra","tag-inflacao","tag-leste-europeu","tag-luiz-gonzaga-belluzzo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/22"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23939"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23939\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23948,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23939\/revisions\/23948"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23946"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23939"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}