{"id":25773,"date":"2022-09-12T18:19:34","date_gmt":"2022-09-12T21:19:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=25773"},"modified":"2022-09-14T22:25:43","modified_gmt":"2022-09-15T01:25:43","slug":"o-brasil-esta-crescendo-artificialmente-alerta-monica-de-bolle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/o-brasil-esta-crescendo-artificialmente-alerta-monica-de-bolle\/","title":{"rendered":"&#8220;O Brasil est\u00e1 crescendo artificialmente&#8221;, alerta Monica De Bolle"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\">ROSANA HESSEL<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Pesquisadora s\u00eanior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), conceituado think tank norte-americano, em Washington, a economista e escritora Monica de Bolle, considera cr\u00edtica o quadro da economia brasileira e alerta que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 imune ao ciclo estagflacion\u00e1rio em curso nas maiores economias do planeta.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\">Estagfla\u00e7\u00e3o \u00e9 o pior dos mundos em termos econ\u00f4micos, pois n\u00e3o h\u00e1 crescimento, os pre\u00e7os continuam subindo e o desemprego aumenta. O momento atual no pa\u00eds, de um pouco de crescimento e de infla\u00e7\u00e3o perdendo for\u00e7a \u2013 que vem sendo utilizado na campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL) \u2013\u00a0 \u00e9 tempor\u00e1rio e fruto de medidas fiscais adotadas por um governo que est\u00e1 mais preocupado em se reeleger, segundo a especialista. Ela ressalta que o pa\u00eds est\u00e1, apenas, em um timing diferente do resto do mundo. \u201cO descolamento \u00e9 tempor\u00e1rio. Ele nunca \u00e9 permanente, porque o Brasil n\u00e3o est\u00e1 em Marte\u201d, resume.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\">A escritora, que foi uma importante cr\u00edtica das mazelas econ\u00f4micas do governo Dilma Rousseff (PT), prev\u00ea que, ainda no come\u00e7o de 2023, o pa\u00eds vai mergulhar no processo de estagfla\u00e7\u00e3o global. Segundo ela, os efeitos por aqui podem ser muito piores, porque a economia n\u00e3o \u00e9 muito din\u00e2mica como os Estados Unidos e est\u00e1 muito desorganizada. Em grande parte, esse desarranjo \u00e9 culpa do atual governo que, para vencer as elei\u00e7\u00f5es a qualquer custo, est\u00e1 criando bombas fiscais que ser\u00e3o insustent\u00e1veis, segundo a economista.\u00a0 \u201cO Brasil est\u00e1 crescendo artificialmente. \u00c9 como se fosse um paciente sobrevivendo \u00e0 base de ventila\u00e7\u00e3o, cheio de tubo\u201d, ressalta.\u00a0 Por isso, o discurso otimista do governo, ignorando a realidade, \u00e9 meramente \u201cpol\u00edtico\u201d, \u201cde palanque\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\">Ao analisar os programas dos candidatos \u00e0 Presid\u00eancia, Monica de Bolle diz que s\u00e3o incompletos e n\u00e3o se preocupam com os impactos dessa desacelera\u00e7\u00e3o global. Ela tamb\u00e9m faz um alerta sobre a necessidade de os governos se preocuparem mais com as doen\u00e7as infectocontagiosas, pois o mundo n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo p\u00f3s-covid.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\">Depois das comemora\u00e7\u00f5es do bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia, em 7 de setembro, a escritora n\u00e3o tem d\u00favidas de que o pa\u00eds poder\u00e1 ter badernas como as que ocorreram em 6 de janeiro de 2021. Naquela data, houve a invas\u00e3o do Capit\u00f3lio, incentivada pelo ex-presidente dos EUA Donald Trump. \u201cBolsonaro \u00e9 a mesma coisa. \u00c9 um pregui\u00e7oso incompetente. E qual \u00e9 a melhor estrat\u00e9gia para um pregui\u00e7oso incompetente? Fazer bagun\u00e7a, criar baderna\u201d, emenda.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\">A seguir, os principais trechos da <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2022\/09\/5036092-mundo-caminha-para-um-ciclo-estagflacionario-diz-monica-de-bolle.html\">entrevista de Monica de Bolle concedida ao <\/a><strong>Correio Braziliense <\/strong>(vers\u00e3o ampliada):<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>A economia internacional est\u00e1 com um cen\u00e1rio de infla\u00e7\u00e3o elevada e desacelera\u00e7\u00e3o. Como a senhora avalia essa conjuntura, com os bancos centrais dos pa\u00edses desenvolvidos aumentando os juros e os impactos nos emergentes, como o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Bom, a conjuntura t\u00e1 muito complicada, porque h\u00e1 um choque de oferta no mundo de extrema relev\u00e2ncia, que \u00e9 a guerra na Ucr\u00e2nia e a resposta dos pa\u00edses em rela\u00e7\u00e3o ao petr\u00f3leo russo e ao g\u00e1s natural russo. E esse \u00e9 um problema para a Europa, apesar de estarem fazendo a transi\u00e7\u00e3o para a economia mais verde, tentando ir para o lado da energia renov\u00e1vel, mas o mundo usa combust\u00edveis f\u00f3sseis para muita coisa, por exemplo, toda a ind\u00fastria de pl\u00e1stico. Mesmo que voc\u00ea conseguisse, hoje, fazer uma transi\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para a energia renov\u00e1vel, ainda estar\u00edamos usando muito combust\u00edvel f\u00f3ssil. A depend\u00eancia que o mundo tem de petr\u00f3leo mesmo, em particular, menos de g\u00e1s natural, \u00e9 enorme. E nunca vemos a discuss\u00e3o sobre o que fazer com isso. O momento \u00e9 complicado para a Europa em termos de crescimento e de infla\u00e7\u00e3o, por conta do que est\u00e1 acontecendo. Antes da guerra na Ucr\u00e2nia, j\u00e1 havia v\u00e1rios outros choques tempor\u00e1rios de oferta relacionados com a pandemia. Mas esse sim \u00e9 um choque de oferta bem grande e mais permanente. Eu diria que \u00e9 um choque de oferta equipar\u00e1vel, pelo menos, ao primeiro choque do petr\u00f3leo nos anos 1970, em termos de impacto no mundo. E ainda tem outras sequelas e outros choques de oferta acontecendo em parte relevante da economia mundial. A China, por exemplo, com a pol\u00edtica de covid zero, com os lockdowns, proporciona um monte de choque de oferta junto \u00e0 guerra. De modo geral, para economia mundial, esse cen\u00e1rio \u00e9 meio estagflacion\u00e1rio. Voc\u00ea reduz o crescimento da economia mundial e tem que conviver com mais infla\u00e7\u00e3o. E \u00e9 um tipo de conviv\u00eancia com infla\u00e7\u00e3o mais elevada que n\u00e3o responde muito \u00e0 pol\u00edtica monet\u00e1ria tradicional, porque \u00e9 um choque de oferta. Os bancos centrais ficam numa esp\u00e9cie de sinuca de bico, porque eles v\u00e3o elevar as taxas de juros sim, pois existem efeitos de segunda ordem que precisam ser contidos, para n\u00e3o enraizar a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Mas a senhora acha que esse problema tende a durar enquanto houver a guerra na Ucr\u00e2nia?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Acaba indo al\u00e9m da guerra, porque suponhamos que nos pr\u00f3ximos meses, mesmo se a Ucr\u00e2nia ganhar a guerra, ser\u00e1 uma vit\u00f3ria de Pirro. Voc\u00ea ganha, entre aspas, tendo perdido um mont\u00e3o, porque boa parte do pa\u00eds foi destru\u00edda. E, por outro lado, a R\u00fassia continua sendo um p\u00e1ria internacional. Ent\u00e3o, esse quadro de aumento dos pre\u00e7os de energia, continuar\u00e1 a valer. Essas coisas n\u00e3o v\u00e3o desaparecer de uma hora para outra s\u00f3 porque a guerra acabou. E, olhando para a guerra e seus efeitos e o que acontece depois, o choque de oferta ser\u00e1 realmente prolongado. E, portanto, haver\u00e1 a conviv\u00eancia prolongada com um cen\u00e1rio meio estagflacion\u00e1rio para o mundo mesmo. Esse \u00e9\u00a0o pior dos mundos em termos de pol\u00edticos e em termos de pol\u00edtica econ\u00f4mica, porque voc\u00ea n\u00e3o tem muito bem como responder. \u00c9 aquilo que eu falei. N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edticas eficazes de controle inflacion\u00e1rio em um cen\u00e1rio estagflacion\u00e1rio causado por um choque de oferta. E principalmente, um choque de oferta dessa natureza em que voc\u00ea est\u00e1 tratando de energia. Nada funciona sem energia.<\/p>\n<p><strong>Esse problema pode se estender por 2023 e 2024? Vai ser dif\u00edcil para o mundo sair desse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Certamente se estende por 2023 e pode se estender por 2024. Para al\u00e9m de 2023, fica dif\u00edcil de dizer, porque depende muito de como os diferentes pa\u00edses v\u00e3o reagir e se haver\u00e1 mecanismos de compensa\u00e7\u00e3o via suprimentos de energia renov\u00e1vel, seja l\u00e1 o que for ou n\u00e3o. Ent\u00e3o, eu acho que falar para al\u00e9m de 2023 fica mais dif\u00edcil. Mas de toda maneira,\u00a0 muito provavelmente, voc\u00ea ainda tem alguma estagfla\u00e7\u00e3o em 2024. \u00c9, sim, um cen\u00e1rio longo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>E \u00e9 curioso, porque, aqui no Brasil o governo fala que o pa\u00eds est\u00e1 decolando e descolado do mundo\u2026 N\u00e3o \u00e9 um tanto quanto contradit\u00f3rio?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9. O Brasil, no momento, est\u00e1 crescendo. Mas \u00e9 um caso um pouco \u00e0 parte, porque est\u00e1 em um ciclo eleitoral e houve todas essas tentativas, que n\u00e3o tenho outra palavra, de comprarem os eleitores. Todos esses benef\u00edcios que foram dados para caminhoneiro, para taxista, para n\u00e3o sei mais quem e para n\u00e3o sei o qu\u00ea, tudo isso, acaba sendo um est\u00edmulo de curto prazo para a economia. Mas sabemos que nada disso \u00e9 sustent\u00e1vel. No fim das contas, voc\u00ea consegue isolar o Brasil por alguns meses, mas voc\u00ea n\u00e3o consegue se isolar para sempre. N\u00e3o vai dar pra sustentar tudo isso de nenhuma maneira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>E como explicar esses problemas para os brasileiros? O que podemos esperar dessas consequ\u00eancias desse pacote de medidas eleitoreiras no futuro? Qual o custo disso?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Isso tem um custo alto, porque as coisas nunca andam em sincronia perfeita. O ciclo estagflacion\u00e1rio que est\u00e1 acontecendo agora no mundo, ainda n\u00e3o ocorre no Brasil. Mas essa falta de sincronia entre o Brasil e o ciclo da economia global como um todo, \u00e9 normal. As coisas, na economia, nunca est\u00e3o em harmonia ou em sincronia perfeita. Agora, dado que o ciclo estagflacion\u00e1rio \u00e9 duradouro e ainda n\u00e3o sabemos quanto tempo vamos ficar com essas situa\u00e7\u00f5es extremamente complicadas nas m\u00e3os, isso vai afetar o Brasil. \u00c9 claro que vai afetar o Brasil de uma forma tamb\u00e9m muito mais complicada. \u00c9 dif\u00edcil para todos, at\u00e9 quando h\u00e1 espa\u00e7o fiscal e dinamismo econ\u00f4mico necess\u00e1rios, como \u00e9 o caso dos Estados Unidos. A economia norte-americana \u00e9 extremamente din\u00e2mica e n\u00e3o tem o mesmo problema energ\u00e9tico da Europa. O pa\u00eds pode continuar a ter um crescimento OK, ter com cria\u00e7\u00e3o de emprego, a despeito desse cen\u00e1rio estagflacion\u00e1rio no mundo. Mas, no Brasil, n\u00e3o \u00e9 assim. O Brasil n\u00e3o \u00e9 uma economia com dinamismo e j\u00e1 n\u00e3o era antes do Bolsonaro. Ficou pior. E \u00e9 um pa\u00eds que tem uma depend\u00eancia muito grande da economia global, de modo geral, e isso \u00e9 algo que tem repercuss\u00f5es positivas e negativas. Logo, de 2023, de um modo geral, o Brasil tamb\u00e9m atravessar\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o de estagfla\u00e7\u00e3o. Se o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) tem dificuldade para lidar com o cen\u00e1rio estagflacion\u00e1rio, imagina o Banco Central brasileiro. Tem mais dificuldade ainda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pois \u00e9. Na \u00e9poca da Dilma, o cen\u00e1rio era mais ou menos parecido e o pa\u00eds tinha risco de entrar no processo de domin\u00e2ncia fiscal. Os juros est\u00e3o quase no mesmo patamar daquele per\u00edodo, a economia estava com crescimento baixo. Esse cen\u00e1rio \u00e9 poss\u00edvel, agora, depois de tantas medidas fiscais e promessas do governo que est\u00e3o virando\u00a0 bombas fiscais que podem chegar, em algumas contas, a R$ 200 bilh\u00f5es, no ano que vem?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Acho que pode sim. Claro que pode, porque tem muita coisa fora do lugar. A economia brasileira est\u00e1 completamente fora do lugar e completamente desorganizada gra\u00e7as ao Paulo Guedes. Existe quadro de desorganiza\u00e7\u00e3o e de desorganiza\u00e7\u00e3o fiscal que pode sim, num cen\u00e1rio estagflacion\u00e1rio, acabar resultando em coisas delet\u00e9rias, como, por exemplo, voc\u00ea ter quadro de um certo grau de domin\u00e2ncia fiscal ou coisa que o valha. Isso pode, sem d\u00favida nenhuma, acontecer. Mas o que me preocupa mais, na verdade, \u00e9 o Brasil n\u00e3o ter como articular uma pol\u00edtica econ\u00f4mica nesse cen\u00e1rio global, porque a pol\u00edtica monet\u00e1ria tem seus limites em termos de conten\u00e7\u00e3o inflacion\u00e1ria. E na pol\u00edtica fiscal, h\u00e1 heran\u00e7a terr\u00edvel a\u00ed com a qual voc\u00ea vai ter que lidar, pois tem muitas demandas de gasto para a popula\u00e7\u00e3o, em particular. Ent\u00e3o, \u00e9 muito complicado conseguir ter um conjunto de pol\u00edticas racionais e que sejam eficazes nesse contexto. No governo Dilma Rousseff (PT), tamb\u00e9m houve um choque externo importante, com um quadro da Europa em crise. De certa forma, existem paralelos, mas tem uma diferen\u00e7a bem fundamental que \u00e9 a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atual. E nesse cen\u00e1rio, a estagfla\u00e7\u00e3o ser\u00e1 um problema grave n\u00e3o s\u00f3 para formuladores de pol\u00edtica econ\u00f4mica, mas para os sistemas pol\u00edticos. No cen\u00e1rio de estagfla\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica \u00e9 capaz de fazer muito pouco. E isso, em um lugar como o Brasil, que j\u00e1 est\u00e1 passando por isso de forma muito acentuada, tende a ser ainda pior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>E qual \u00e9 o tamanho desse choque para o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Se eu tivesse que dimensionar o tamanho do choque para o Brasil eu diria assim: voc\u00ea pega os efeitos dos anos do governo Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) em que o pa\u00eds teve um extraordin\u00e1rio choque externo, e reconfigura em termos negativos e a\u00ed teremos mais ou menos uma ideia do tamanho do problema para o Brasil. N\u00e3o \u00e9 apenas um choque de commodities. \u00c9 um choque de grande magnitude para o Brasil com muitas ramifica\u00e7\u00f5es relevantes e muitas delas tendem a exacerbar o quadro de fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de dificuldade para elaborar qualquer pol\u00edtica p\u00fablica. N\u00e3o s\u00f3 na \u00e1rea de economia, mas em qualquer outra. Para o pr\u00f3ximo governo, vai ser um problem\u00e3o, e n\u00e3o ser\u00e1 apenas fiscal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Na campanha, todos os candidatos j\u00e1 falam sobre a necessidade de um novo arcabou\u00e7o fiscal. O teto de gastos j\u00e1 est\u00e1 no ch\u00e3o. O Banco Central n\u00e3o vai conseguir baixar os juros t\u00e3o cedo. E que cen\u00e1rio ser\u00e1 esse sabendo que os benef\u00edcios criados pelo governo n\u00e3o v\u00e3o acabar no ano que vem?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O teto de gastos j\u00e1 caiu e n\u00f3s sabemos disso h\u00e1 algum tempo. Mas sab\u00edamos que isso era inevit\u00e1vel. Dado o volume de heran\u00e7a na \u00e1rea fiscal, n\u00e3o tem espa\u00e7o para colocarem uma regra completamente r\u00edgida feito o teto de gastos. O principal problema do teto de gastos nunca foi a ideia do teto em si, mas a maneira como ele foi implementado no Brasil. Ele ganhou um contorno de rigidez extrema que ia implodir. O teto perdeu credibilidade no momento em que o desenho dele ficou ruim. Agora n\u00e3o d\u00e1 para colocar no lugar do teto um outro teto. O problema agora \u00e9 que existem gastos que v\u00e3o surgir, porque eles j\u00e1 foram combinados, j\u00e1 est\u00e3o na pauta. Na verdade, em termos de regras fiscais, o pa\u00eds precisa ter um certo dinamismo na forma de elaborar essas regras, porque as coisas v\u00e3o mudando e o arcabou\u00e7o fiscal tem que acompanhar isso. Essa discuss\u00e3o j\u00e1 foi e j\u00e1 voltou, mas o que parece dar certo, pelo menos, em termos de experi\u00eancia internacional, s\u00e3o regras mais flex\u00edveis e que tenham uma certa compatibilidade com ciclo econ\u00f4mico pelo qual o pa\u00eds est\u00e1 passando. Acho que \u00e9 isso que se pode fazer. Mas \u00e9 algo para ser lidado mais a m\u00e9dio e longo prazos do que a curto prazo propriamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Agora, o atual governo teria credibilidade para mudar esse arcabou\u00e7o?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nem o atual governo, nem qualquer outro. A sociedade brasileira n\u00e3o est\u00e1 mais disposta a tolerar nada. Ent\u00e3o, fica dif\u00edcil voc\u00ea ver, a curto prazo, algu\u00e9m propondo corte e controle de gastos. \u00c9 muito dif\u00edcil vislumbrar isso. Por outro lado, voc\u00ea tem um problema imenso dentro do Congresso Nacional. O Congresso que vai sair das elei\u00e7\u00f5es deste ano ser\u00e1 mais ou menos o mesmo de hoje. \u00c9 um Congresso Nacional que est\u00e1 feliz em ficar recebendo dinheiro do Bolsonaro. E ele vai exigir isso de qualquer outro presidente, n\u00e3o importa quem for. Isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel. Eu n\u00e3o quero soar apocal\u00edptica, mas eu acho que, se a gente pensa, hoje, que o pa\u00eds est\u00e1 ingovern\u00e1vel, a tend\u00eancia \u00e9 que o pa\u00eds vai ficar mais ingovern\u00e1vel ainda, seja quem for que ganhe as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Pois \u00e9, a corda est\u00e1 esticando demais para o bolso do contribuinte. \u00c9 muita despesa para pouca renda, que s\u00f3 encolhe\u2026Como sustentar tudo isso?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 isso. E essa tend\u00eancia de corroer a renda do consumidor, do trabalhador, \u00e9 uma tend\u00eancia mais ou menos permanente em um quadro estagflacion\u00e1rio. E o que estamos vendo agora, como o crescimento do emprego, n\u00e3o vai durar. Ele vai cair, por conta do contexto global. Por isso, o cen\u00e1rio para o Brasil \u00e9 muito complicado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Olhando para as propostas de governo dos candidatos \u00e0 Presid\u00eancia, tem alguma solu\u00e7\u00e3o? Como a senhora avalia?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ningu\u00e9m prop\u00f5e solu\u00e7\u00e3o. E esse \u00e9 o principal problema que o Brasil tem. Os programas de governo, entre aspas, principalmente as pautas de candidatos \u00e0 Presid\u00eancia do Brasil, sempre tendem a ignorar a economia externa. Eles n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o o que est\u00e1 acontecendo no mundo e como isso vai impactar o Brasil e de que maneira isso torna vi\u00e1vel ou invi\u00e1vel determinadas propostas e pol\u00edticas p\u00fablicas. Nenhum plano de governo faz isso com esse tipo de lente ou com esse tipo de honestidade intelectual, digamos assim. Nenhum faz e jamais fez. Eles nunca s\u00e3o feitos dessa forma. Os economistas brasileiros que est\u00e3o eternamente no Brasil desde a d\u00e9cada de 1990 n\u00e3o fazem parte do debate internacional. Est\u00e3o completamente por fora. Se esperaria alguma renova\u00e7\u00e3o, mas ela n\u00e3o aconteceu. Todos os programas de governo diferentes candidatos t\u00eam problemas graves. Alguns t\u00eam uma ou outra proposta exequ\u00edvel, mas nenhum deles vai resolver a magnitude dos problemas que o Brasil vai enfrentar, para al\u00e9m dos problemas que o Brasil j\u00e1 tem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Mas o que mais te chamou aten\u00e7\u00e3o de propostas extremamente inexequ\u00edveis?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O problema \u00e9 que todas elas s\u00e3o fantasiosas e incompletas. Eu n\u00e3o chamaria as propostas necessariamente de absurdas. O problema \u00e9 que n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o o que significa o Brasil inserido no planeta Terra. O mundo passou por uma pandemia entre 2018 e 2022 e est\u00e1 extraordinariamente diferente do que era nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. H\u00e1 uma imensa descontinuidade que n\u00e3o \u00e9 levada em considera\u00e7\u00e3o por mais estranho que pare\u00e7a. N\u00e3o d\u00e1 para querer comparar ou querer pensar mais ou menos, com diretrizes parecidas com o que voc\u00ea estava pensando em 2018, porque nesses \u00faltimos quatro anos o mundo simplesmente mudou. \u00c9 outro mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E como inserir o Brasil nesse novo mundo? Ele perdeu o bonde da globaliza\u00e7\u00e3o e como evitar que ele continue ficando fora das novas mudan\u00e7as do cen\u00e1rio internacional?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Este \u00e9 o pior momento para o pa\u00eds tentar se inserir no que quer que seja. A globaliza\u00e7\u00e3o, de modo geral, est\u00e1 em retrocesso no mundo. O momento geopol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 o momento prop\u00edcio para o Brasil tentar se inserir no mundo e a concorr\u00eancia, de qualquer forma, ainda existe \u00e9 grande. O mais importante, nesse contexto, \u00e9 que os futuros formuladores de pol\u00edtica econ\u00f4mica pensem e reflitam um pouco melhor n\u00e3o s\u00f3 sobre o que \u00e9 importante para o Brasil do ponto de vista do que se passa internamente, mas como a inser\u00e7\u00e3o do Brasil no mundo \u00e9 afetada por choques em profus\u00e3o que estamos vendo na economia mundial. Falta esse olhar de que, mal ou bem, o Brasil pertence ao mundo e o que acontece no pa\u00eds, em termos de pol\u00edtica econ\u00f4mica, depende do que est\u00e1 acontecendo l\u00e1 fora. Formular pol\u00edtica econ\u00f4mica a partir dessa perspectiva \u00e9 cada vez mais importante, em vez de voc\u00ea ficar s\u00f3 olhando para o pr\u00f3prio umbigo. Quase n\u00e3o h\u00e1 discuss\u00e3o sobre pol\u00edtica internacional at\u00e9 na pr\u00f3pria imprensa brasileira. No governo Dilma, em 2014, j\u00e1 era poss\u00edvel enxergar de fora que as pol\u00edticas todas iam dar errado e que o Brasil ia ter um choque grande. Acabou sendo maior, at\u00e9 por causa da Lava-Jato. Sab\u00edamos que o Brasil ia ter uma parada s\u00fabita no crescimento. Mas, Dilma foi reeleita, em 2014, porque o desemprego estava muito baixo, a infla\u00e7\u00e3o ainda era toler\u00e1vel e ainda tinha um crescimento razo\u00e1vel. A economia, de fato, reage devagar. E, agora, o Brasil est\u00e1 crescendo artificialmente. \u00c9 como se fosse um paciente sobrevivendo \u00e0 base de ventila\u00e7\u00e3o, cheio de tubo. Esse crescimento e esse aumento do emprego est\u00e3o diretamente relacionados com o ciclo eleitoral e com a inten\u00e7\u00e3o do governo de ganhar as elei\u00e7\u00f5es custe o que custar. E, e a\u00ed naturalmente, os problemas se manifestam depois.\u00a0 A gente consegue enxergar isso, consegue falar sobre isso, mas convencer a popula\u00e7\u00e3o, em geral, de que isso est\u00e1 acontecendo \u00e9 uma tarefa quase que imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Mas o governo adora desqualificar quem faz esse tipo de alerta sobre esses riscos, e afirmam que os cr\u00edticos n\u00e3o enxergam a tend\u00eancia de crescimento para frente\u2026<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9. E n\u00e3o se trata disso. Acho que os economistas est\u00e3o olhando para frente sim. Agora, os economistas do Brasil se articulam muito mal. Tamb\u00e9m tem isso. \u00c9 dif\u00edcil para um economista no Brasil ter um discurso compreens\u00edvel para a popula\u00e7\u00e3o de modo geral. \u00c9 uma dificuldade imensa para fazer as pessoas entenderem como \u00e9 que \u00e9 que a economia realmente funciona na pr\u00e1tica. \u00c9 preciso saber mostrar que existe um problema de crescimento \u00e0 frente, mesmo que ele n\u00e3o esteja acontecendo agora e contar que as ra\u00edzes de um problema futuro est\u00e3o sendo plantadas neste momento. Se voc\u00ea consegue entender as ra\u00edzes, voc\u00ea consegue compreender porque \u00e9 que as pessoas est\u00e3o dizendo que o problema vai aparecer. Esse tipo de explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 dada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>E pela falta disso, o governo tem um discurso otimista. Afirma que o Brasil retomou em V, est\u00e1 descolado dos outros pa\u00edses e que a economia vai bombar\u2026<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">E nesse sentido, o que preciso dizer \u00e9 o seguinte: o descolamento \u00e9 tempor\u00e1rio. Ele nunca \u00e9 permanente, porque o Brasil n\u00e3o est\u00e1 em Marte. O Brasil est\u00e1 na Terra. O pa\u00eds s\u00f3 teria um descolamento permanente se o Brasil estivesse em outro planeta, mas n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>E eles ainda est\u00e3o ignorando nesse discurso otimista o impacto defasado da alta dos juros da pol\u00edtica monet\u00e1ria\u2026\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Completamente. Vamos combinar, porque n\u00e3o \u00e9 nem um pouco conveniente para o governo falar sobre todos problemas que v\u00e3o vir pela frente, porque o momento \u00e9 um momento de elei\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, eles t\u00eam que falar das entre aspas conquistas que n\u00e3o s\u00e3o conquistas.. \u00c9 o que eles fazem. Por enquanto, o discurso econ\u00f4mico \u00e9 um discurso pol\u00edtico. N\u00e3o \u00e9 um discurso t\u00e9cnico a respeito do que est\u00e1 acontecendo. \u00c9 um palanque.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Exatamente. E eles t\u00eam um argumento que tem a ajuda da infla\u00e7\u00e3o que est\u00e1 diminuindo a rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida-PIB. E isso \u00e9 a principal bandeira, mas tem um monte de precat\u00f3rio debaixo do tapete\u2026<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Mas esse argumento da d\u00edvida-PIB diminuindo por causa da infla\u00e7\u00e3o \u00e9 um argumento que a popula\u00e7\u00e3o em geral n\u00e3o consegue compreender. Esse \u00e9 um efeito totalmente alheio para qualquer pessoa comum. Eles n\u00e3o entendem. E nisso voc\u00ea cai no problema de comunica\u00e7\u00e3o. O importante \u00e9 comunicar que tem v\u00e1rias coisas plantadas que v\u00e3o estourar no ano que vem. \u00c9 importante dizer que o cen\u00e1rio \u00e9 inflacion\u00e1rio, independentemente do que fa\u00e7a o Banco Central, porque a infla\u00e7\u00e3o vai continuar. As pessoas precisam estar preparadas para isso. E, dado o que est\u00e1 acontecendo no mundo, com a guerra, enfim, uma por\u00e7\u00e3o de outras coisas, com os problemas da China e tal, a tend\u00eancia \u00e9 o crescimento do Brasil diminuir, tanto pelos problemas de fora, quanto pelos problemas de dentro. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea dizer isso para as pessoas. E, como ningu\u00e9m fala pras pessoas no Brasil, o discurso do governo prevalece. Mas as pessoas n\u00e3o se convencem necessariamente com isso porque est\u00e3o vendo a infla\u00e7\u00e3o comer o sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voltando um pouco a essa quest\u00e3o de como ser\u00e1 o mundo p\u00f3s-covid. A senhora est\u00e1 fazendo um mestrado na \u00e1rea m\u00e9dica, pode comentar?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Estou terminando o mestrado em imunologia e infectologia por conta da covid. Ent\u00e3o eu vou adicionar mais esse selo na minha \u00e1rea de experi\u00eancia. Mas o v\u00edrus \u00e9 um v\u00edrus que n\u00e3o vai embora. Ele j\u00e1 se estabeleceu firmemente entre humanos. Ele n\u00e3o vai sumir. Em algum momento, vamos entrar em uma fase que est\u00e1 acontecendo no mundo inteiro em que uma boa parte da popula\u00e7\u00e3o, a maioria, vai ter alguma imunidade contra esse v\u00edrus. Ent\u00e3o, voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o vai ter mais situa\u00e7\u00e3o em que \u00e9 um v\u00edrus novo e ningu\u00e9m tem defesas contra ele. E estamos bem perto disso. E isso \u00e9 importante porque isso significa que a gravidade da doen\u00e7a em si ela tende a ser menor. Ainda vai ter casos graves, porque existem pessoas com comprometimento. A doen\u00e7a \u00e9 resultado da intera\u00e7\u00e3o entre o v\u00edrus e o paciente. E nenhuma doen\u00e7a infectocontagiosa, a patog\u00eanese, ou seja, a doen\u00e7a, \u00e9 fruto \u00fanica e exclusivamente do agente infeccioso. N\u00e3o \u00e9. A patogenicidade \u00e9 fruto daquilo que o agente infeccioso faz no nosso organismo de um lado e como o nosso organismo responde de outro. No in\u00edcio da covid, o nosso organismo n\u00e3o tinha resposta, porque o v\u00edrus era novo. Hoje, o nosso organismo tem resposta. Ela ainda n\u00e3o \u00e9 completa. Agora, o v\u00edrus tem uma grande capacidade de muta\u00e7\u00e3o, assim, ele vai continuar mudando mais r\u00e1pido do que a gente \u00e9 capaz de responder.\u00a0 Ent\u00e3o, a doen\u00e7a vai continuar, enfim a covid n\u00e3o vai acabar e o v\u00edrus n\u00e3o vai sumir. Atualmente a maioria dos pa\u00edses j\u00e1 entrou numa esp\u00e9cie de adapta\u00e7\u00e3o. Os governos e a sociedade de um modo geral est\u00e3o agora alinhados na necessidade de conviver com o v\u00edrus. E conviver com o v\u00edrus significa que, eventualmente, voc\u00ea vai pegar. Nos Estados Unidos j\u00e1 at\u00e9 programaram uma vacina anual contra a covid. Agora, voc\u00ea ainda tem pa\u00edses como a China que est\u00e3o tentando de todo jeito fazer o imposs\u00edvel, com as pol\u00edticas de lockdown. Isso s\u00f3 vai prejudicar a popula\u00e7\u00e3o, e, agora sim, a economia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>O problema vai continuar?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O problema que a gente tem desde o in\u00edcio, em rela\u00e7\u00e3o a covid, \u00e9 que h\u00e1 uma falta de coordena\u00e7\u00e3o absoluta na maneira como os pa\u00edses implementaram pol\u00edticas para lidar com a situa\u00e7\u00e3o na medida em que a situa\u00e7\u00e3o foi evoluindo. E isso, de certa maneira, continua a dar a t\u00f4nica dos pr\u00f3ximos anos, embora de uma forma diferente porque mais e mais pa\u00edses v\u00e3o aderir a essa maneira de encarar a covid, o que \u00e9 bom. Mas ainda \u00e9 preciso ter cuidado com ela antes de encarar a ter uma certa normalidade. Agora, o nosso problema maior \u00e9 que a gente est\u00e1 passando por uma situa\u00e7\u00e3o, com mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se acentuando,\u00a0 em que as doen\u00e7as infectocontagiosas v\u00e3o ficar muito mais relevantes. Passamos por muitas d\u00e9cadas sob a ilus\u00e3o de que n\u00e3o havia mais tantos problemas na \u00e1rea de doen\u00e7as infectocontagiosas. Mas n\u00e3o temos mais essa situa\u00e7\u00e3o hoje em dia. A quantidade de bact\u00e9rias comuns que s\u00e3o resistentes a antibi\u00f3ticos \u00e9 cada vez maior. E h\u00e1 muitas esp\u00e9cies diferentes de bact\u00e9rias que s\u00e3o resistentes a muitos medicamentos. E o grande problema \u00e9 que n\u00e3o temos nada para substituir o que temos de antibi\u00f3ticos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">E esse \u00e9 um problema que n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o. Essas quest\u00f5es, juntando com a redu\u00e7\u00e3o da cobertura vacinal, devido ao movimento antivacina, juntado ao contexto de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas com novos v\u00edrus e novas bact\u00e9rias resistentes aparecendo, as doen\u00e7as infectocontagiosas v\u00e3o ter um papel de extrema relev\u00e2ncia como determinantes dos rumos de pol\u00edticas econ\u00f4micas de todos os pa\u00edses. E ningu\u00e9m est\u00e1 dando muita import\u00e2ncia a isso. Essa foi a raz\u00e3o para eu fazer o mestrado. Eu cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que ser economista sem entender de doen\u00e7a infectocontagiosa n\u00e3o funciona mais. A monkeypox, por exemplo, \u00e9 uma doen\u00e7a que vai evoluir, porque o v\u00edrus mudou muito em quatro anos. E olha que \u00e9 um v\u00edrus que n\u00e3o muda muito como o da covid-19. Essas quest\u00f5es est\u00e3o postas e o Brasil \u00e9 um pa\u00eds extremamente vulner\u00e1vel a novas doen\u00e7as infectocontagiosas por causa do clima, por causa da floresta com a qual est\u00e3o acabando e dos v\u00e1rios biomas que est\u00e3o sendo exterminados no Brasil tamb\u00e9m. \u00c9 um problema econ\u00f4mico grav\u00edssimo que n\u00e3o est\u00e1 sendo levado em conta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Como a senhora analisa a apropria\u00e7\u00e3o das comemora\u00e7\u00f5es do bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia pelo presidente Bolsonaro? O que podemos esperar das urnas em 2 de outubro?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Eu acho que assim tem tr\u00eas coisas que s\u00e3o relevantes. A primeira delas diz respeito\u00a0 a essa hist\u00f3ria de vai ter golpe, vai ter isso, vai ter aquilo. \u00c9 claro que esse risco existe. Estamos tratando do Bolsonaro, e sabemos como ele \u00e9. N\u00e3o vejo o Bolsonaro como uma pessoa capaz de realmente fazer aquilo que \u00e9 necess\u00e1rio para um golpe, que requer uma organiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso estruturar golpe. O Bolsonaro ataca as institui\u00e7\u00f5es, e, certamente, isso \u00e9 uma forma de se organizar um golpe, mas n\u00e3o \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o do golpe em si. \u00c9 apenas o in\u00edcio de um caminho. O Bolsonaro, na pr\u00e1tica, est\u00e1 muito mais interessado em bagun\u00e7a e em baderna com viol\u00eancia do que em golpe propriamente. Eu n\u00e3o acho que vai ser um enorme problema para o Bolsonaro perder as elei\u00e7\u00f5es, porque ele tem uma base imensa de pessoas que v\u00e3o continuar apoiando ele da mesma maneira e que ele pode usar para causar a bagun\u00e7a e a baderna que ele quiser. E para ele isso \u00e9 muito mais f\u00e1cil do que organizar um golpe agora. O Bolsonaro \u00e9 um grande influencer, no final das contas, como o Donald Trump. A invas\u00e3o do Capit\u00f3lio n\u00e3o foi uma tentativa de golpe. Foi o Trump fazendo bagun\u00e7a e baderna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Ou seja, podemos ter o mesmo aqui tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Sim. E isso da\u00ed vai ser um abalo para a economia. Vai ser um abalo para as nossas convuls\u00f5es pol\u00edticas. Mas \u00e9 com isso que vamos conviver. E Bolsonaro vai estar muito confort\u00e1vel incentivando isso, mais do que organizando um golpe e tendo que governar um pa\u00eds complicado de governar. Nisso ele n\u00e3o \u00e9 nem um pouco diferente do Trump. \u00c9 \u00f3bvio que o Trump n\u00e3o queria continuar presidente. \u00c9 muito mais confort\u00e1vel para ele fazer o que ele est\u00e1 fazendo. Ele vive nas manchetes. E ele n\u00e3o tem trabalho nenhum. O Bolsonaro \u00e9 a mesma coisa. \u00c9 um pregui\u00e7oso incompetente. E qual \u00e9 a melhor estrat\u00e9gia para um pregui\u00e7oso incompetente? Fazer bagun\u00e7a, criar baderna. \u00c9 isso que vai fazer.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ROSANA HESSEL Pesquisadora s\u00eanior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), conceituado think tank norte-americano, em Washington, a economista e escritora Monica de Bolle, considera cr\u00edtica o quadro da economia brasileira e alerta que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 imune ao ciclo estagflacion\u00e1rio em curso nas maiores economias do planeta. 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