{"id":29,"date":"2015-01-23T15:58:00","date_gmt":"2015-01-23T17:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/jogados_as_tracas\/"},"modified":"2015-01-23T15:58:00","modified_gmt":"2015-01-23T17:58:00","slug":"jogados_as_tracas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/jogados_as_tracas\/","title":{"rendered":"JOGADOS \u00c0S TRA\u00c7AS"},"content":{"rendered":"\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/wp-content\/uploads\/blog-vicente\/714331778d78c30199b11cfd289cb20b.jpg\">  <\/p>\n<p>&#8220;De copo sempre cheio e cora\u00e7\u00e3o vazio, estou me tornando um cara solit\u00e1rio e frio&#8221; (Juliano Tchula e Mar\u00edlia Mendon\u00e7a)  <\/p>\n<p>&gt;&gt; DIEGO AMORIM  <\/p>\n<p>An\u00e1polis (GO) \u2014 Sorrateiramente, o \u00e1lcool fez ruir a fortuna de uma tradicional fam\u00edlia de An\u00e1polis, munic\u00edpio goiano a 160km de Bras\u00edlia. Em maio do ano passado, o delegado de pol\u00edcia Manoel Vanderic recebeu uma den\u00fancia an\u00f4nima: um senhor de 67 anos estaria abandonado em uma casa localizada em um bairro nobre. O caso estimularia, ainda naquele m\u00eas, a cria\u00e7\u00e3o da Delegacia do Idoso da cidade, que hoje recebe, em m\u00e9dia, 10 den\u00fancias por dia, 40% delas relacionadas ao \u00e1lcool.  <\/p>\n<p>No endere\u00e7o indicado pelo informante, Vanderic encontrou um idoso b\u00eabado, largado em um colch\u00e3o sujo e rasgado. O ambiente fedia a fezes e urina. O teto da espa\u00e7osa resid\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o tinha todas as telhas. \u201cEra uma cena de horror\u201d, lembra o delegado. O desenrolar da investiga\u00e7\u00e3o mostrou que a fam\u00edlia da v\u00edtima, um empres\u00e1rio bem-sucedido do segmento de oficinas, chegou a ter um patrim\u00f4nio de R$ 2 milh\u00f5es, montante torrado pelo \u00e1lcool \u2014 o que restou dos bens est\u00e1 jogado \u00e0s tra\u00e7as.  <\/p>\n<p>As bebedeiras do ex-comerciante eram quase sempre acompanhadas de jogos de azar, h\u00e1bito que, pelas contas de um dos filhos, teria consumido cerca de R$ 200 mil das economias da fam\u00edlia. Nos bares de An\u00e1polis, como ocorre em muitas outras cidades do pa\u00eds, exploradores das proibidas m\u00e1quinas de ca\u00e7a-n\u00edqueis se aproveitam da embriaguez dos frequentadores e montam esquemas para sugar o dinheiro dos mais velhos.  <\/p>\n<p>Pesquisas mais recentes indicam que pelo menos 9% das pessoas com mais de 65 anos no Brasil s\u00e3o alco\u00f3latras: um contigente de 1,3 milh\u00e3o de homens e mulheres que, quando t\u00eam acesso \u00e0s aposentadorias, consomem o dinheiro com a bebida e com os tratamentos advindos dela. O alcoolismo potencializa os gastos com a sa\u00fade na velhice, uma vez que aumenta os riscos de quedas, les\u00f5es, dem\u00eancias e agravamento de doen\u00e7as cr\u00f4nicas.  <\/p>\n<p>Nos idosos, o \u00e1lcool age mais r\u00e1pido e de maneira acentuada. O ex-comerciante de An\u00e1polis que se afundou na bebida adoeceu a mente e o corpo, al\u00e9m de ter amargado a fal\u00eancia financeira. Sem dinheiro nem mesmo para comer, ele n\u00e3o dispensava doa\u00e7\u00f5es de fi\u00e9is de uma igreja evang\u00e9lica a duas ruas de onde morava. Passava o dia perambulando pelos bares e pela cidade. Quando cansava, retornava \u00e0 casa abandonada pela mulher e pelos cinco filhos, todos indiciados por abandono e apropria\u00e7\u00e3o indevida da aposentadoria do pai.  <\/p>\n<p>No endere\u00e7o ao lado da casa em que ele repousava \u2014 hoje com as portas trancadas \u2014, o Correio localizou um dos herdeiros da embriaguez. Sem querer ser identificado, o filho de 40 anos conta que seguiu os mesmos caminhos do pai: trabalha com ret\u00edfica de motor e tamb\u00e9m caiu no alcoolismo, embora fa\u00e7a quest\u00e3o de dizer que largou a bebida \u201ch\u00e1 pouco tempo\u201d.  <\/p>\n<p>O patriarca, conta ele, ainda n\u00e3o conseguiu se livrar da cacha\u00e7a. Est\u00e1 vivendo com a m\u00e3e em um s\u00edtio afastado da cidade, \u201cdando muito trabalho\u201d, afirma ele. \u201cA pinga destruiu a vida do meu pai e quase a minha. Todo o dinheiro era para a bebida. Hoje, ele n\u00e3o tem nada. Se n\u00e3o fosse o \u00e1lcool, sei que estar\u00edamos ricos\u201d, comenta.  <\/p>\n<p>Invalidez  <\/p>\n<p>Outro caso emblem\u00e1tico do primeiro ano da Delegacia do Idoso em An\u00e1polis \u00e9 o de uma mulher de 49 anos, que, maltratada pela bebida, n\u00e3o aparenta a idade que tem: o \u00e1lcool a envelheceu da pior maneira. Os m\u00e9dicos disseram a ela que foi justamente o excesso de \u00e1lcool o principal respons\u00e1vel pelo acidente vascular cerebral (AVC) que quase a matou.  <\/p>\n<p>Abandonada pelas tr\u00eas filhas e vivendo em um abrigo p\u00fablico, hoje a mulher luta para se manter s\u00f3bria. Entre uma crise de abstin\u00eancia e outra, lembra que chegava a beber uma garrafa de pinga sozinha antes mesmo do caf\u00e9 da manh\u00e3. \u201cO \u00e1lcool s\u00f3 me deu preju\u00edzo. Fico revoltada, porque eu poderia estar trabalhando, ganhando meu dinheiro e estou aqui parada\u201d, reclama, segurando o choro.  <\/p>\n<p>M\u00e3e solteira, a mulher j\u00e1 trabalhou com cer\u00e2mica e reciclagem para sustentar a fam\u00edlia. Nunca gostou de ficar parada. Agora, est\u00e1 aposentada por invalidez em plena idade ativa. \u201cSei que a vida da gente \u00e9 essa hist\u00f3ria de cair e levantar, mas eu j\u00e1 levei tanto tombo\u2026\u201d, desabafa. Quando resgatada pela pol\u00edcia, ela estava vivendo presa a uma cadeira de rodas, em um barraco da periferia.  <\/p>\n<p>Os preju\u00edzos do \u00e1lcool nunca intimidaram um outro senhor, de 70 anos, cuja den\u00fancia de abandono tamb\u00e9m chegou \u00e0 delegacia especializada do munic\u00edpio goiano. As duas filhas cansaram do alcoolismo do pai e se mudaram para Minas Gerais. \u201cN\u00e3o devo nada a ningu\u00e9m. Est\u00e1 bom do meu jeito, me deixem morrer aqui\u201d, resmunga ele, que h\u00e1 mais de dois anos n\u00e3o corta as unhas. O pagamento do aluguel do quartinho colado a um posto de gasolina \u2014 repleto de lixo e fezes \u2014, no valor de R$ 260 por m\u00eas, est\u00e1, de fato, em dia. O restante da aposentadoria de um sal\u00e1rio m\u00ednimo ele conta que gasta com o \u00e1lcool. \u201cPosso lhe pedir um favor? Me esque\u00e7a\u201d, encerra a conversa.  <\/p>\n<p>Vulner\u00e1veis  <\/p>\n<p>Pesquisas norte-americanas publicadas na Revista de Psiquiatria Cl\u00ednica, editada pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), alertam para a preval\u00eancia de depress\u00e3o em idosos, tornando-os vulner\u00e1veis \u00e0 depend\u00eancia do \u00e1lcool e de jogos de azar. Pessoas envolvidas em jogatina teriam mais problemas de sa\u00fade, familiar, social, psiqui\u00e1trico e uma maior predisposi\u00e7\u00e3o para o consumo abusivo de \u00e1lcool. Outro estudo, divulgado em 2012 no Canad\u00e1, sugere que a pr\u00e1tica de jogos de azar on-line guarda rela\u00e7\u00e3o com o consumo de subst\u00e2ncias como o \u00e1lcool.  <\/p>\n<p>Interven\u00e7\u00e3o  <\/p>\n<p>A maioria dos aposentados brasileiros vive com um sal\u00e1rio m\u00ednimo, hoje no valor de R$ 788. No caso de alco\u00f3latras abandonados \u2014 que todos os meses despejavam o dinheiro em botecos \u2014, o benef\u00edcio muitas vezes acaba sendo surrupiado pela fam\u00edlia. No abrigo de idosos visitado pelo Correio em An\u00e1polis, a administra\u00e7\u00e3o do local, ap\u00f3s interven\u00e7\u00e3o policial e judicial, assumiu o controle das finan\u00e7as dos internos e utiliza os recursos para gastos como a compra de medicamentos.  <\/p>\n<p>Palavra de especialista  <\/p>\n<p>Carlos Salgado*  <\/p>\n<p>\u201cO alcoolismo tem vida longa. Em geral, come\u00e7a na adolesc\u00eancia e acompanha o indiv\u00edduo at\u00e9 o fim da vida. Nesses casos, a pessoa envelhece mais r\u00e1pido, porque o uso cr\u00f4nico do \u00e1lcool sobrecarrega o organismo, afeta a qualidade da mem\u00f3ria e favorece danos mais graves. Dentro desse contexto, quem chega \u00e0 vida adulta tem a capacidade de estudo prejudicada e certamente ter\u00e1 problemas para continuar desenvolvendo habilidades profissionais. Provavelmente, quem faz mal uso da bebida se aposenta precocemente. N\u00e3o s\u00e3o raros casos em que, sem ocupa\u00e7\u00e3o, o idoso passa a beber ainda mais, dificultando a situa\u00e7\u00e3o. O alco\u00f3latra tem uma biografia marcada por gastos m\u00e9dicos. Na terceira idade, tamb\u00e9m pesam muito as rela\u00e7\u00f5es familiares, e quem bebeu a vida inteira tende a viver solit\u00e1rio, uma vez que desgastou todos os la\u00e7os afetivos\u201d.  <\/p>\n<p>(*) M\u00e9dico integrante da comiss\u00e3o de depend\u00eancia qu\u00edmica da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria  <\/p>\n<p>ARTIGO  <\/p>\n<p> Danos s\u00e3o expressivos   <\/p>\n<p>Arthur Guerra de Andrade (*)  <\/p>\n<p>O uso de bebidas alco\u00f3licas ocorre h\u00e1 milhares de anos, atrelado a rela\u00e7\u00f5es de socializa\u00e7\u00e3o. No Brasil, \u00e9 um h\u00e1bito bastante difundido. O \u00e1lcool n\u00e3o costuma causar problemas para a maioria dos consumidores. Caracteriza-se como um bem de consumo significativo, com mercado crescente e produtores ocupando elevada posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u2014 movimentando bilh\u00f5es e gerando muitos empregos. No entanto, uma minoria das pessoas desenvolve situa\u00e7\u00f5es graves, cujos danos para a sa\u00fade individual, coletiva e econ\u00f4mica s\u00e3o expressivos.  <\/p>\n<p>A ind\u00fastria de bebidas, visando preservar a imagem vinculada \u00e0 responsabilidade social, precisa estar comprometida com esse tema. Embora o n\u00famero de bebedores n\u00e3o tenha aumentado entre 2006 e 2012 no Brasil, a quantidade e frequ\u00eancia do consumo de \u00e1lcool entre os que bebem cresceram. O brasileiro que consome \u00e1lcool o tem feito em padr\u00e3o potencialmente nocivo.  <\/p>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), a rela\u00e7\u00e3o entre \u00e1lcool e fatores econ\u00f4micos \u00e9 estreita e bilateral: o desenvolvimento de cada regi\u00e3o influencia aspectos como n\u00edvel de consumo, impacto do mercado informal, al\u00e9m de diferentes condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade de forma geral. O uso nocivo da bebida representa extensa sobrecarga para a sa\u00fade financeira de sistemas p\u00fablicos e privados.  <\/p>\n<p>Por exemplo, o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) acumula custos com doen\u00e7as atribu\u00eddas ao uso nocivo do \u00e1lcool. O sistema previdenci\u00e1rio gasta com benef\u00edcios a trabalhadores incapacitados por quadros de abuso ou depend\u00eancia e seus familiares. Para a sociedade com um todo, existem consequ\u00eancias alarmantes, como mortes em acidentes, atividade sexual desprotegida e at\u00e9 n\u00e3o consensual.  <\/p>\n<p>Especificamente em ambientes de trabalho, dados nacionais divulgados em 2014 apontam que 7,4 milh\u00f5es de trabalhadores admitiram j\u00e1 ter tido preju\u00edzo no emprego e 4,6 milh\u00f5es j\u00e1 perderam o sustento devido ao consumo de \u00e1lcool. Para empreendedores, fica evidente o maior custo gerado com rotatividade de m\u00e3o de obra, redu\u00e7\u00e3o da produtividade e acidentes de trabalho.  <\/p>\n<p>O Brasil vem investindo no combate aos desfechos negativos ligados ao \u00e1lcool e outras drogas. O governo federal separou R$ 4 bilh\u00f5es para a\u00e7\u00f5es nesse sentido no ano passado. Pol\u00edticas de regula\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool dever\u00e3o passar por maiores restri\u00e7\u00f5es, alinhadas com a meta global lan\u00e7ada pela OMS, de reduzir o uso nocivo em 10% at\u00e9 2025. A\u00e7\u00f5es preventivas e para garantir acesso ao tratamento devem ter multidisciplinaridade e embasamento cient\u00edfico. O engajamento dos diversos setores envolvidos com a quest\u00e3o pode melhorar os \u00edndices de consequ\u00eancias negativas e posicionar melhor o Brasil.  <\/p>\n<p>(*) Psiquiatra e especialista em depend\u00eancia qu\u00edmica, professor da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e da Faculdade de Medicina do ABC, al\u00e9m de presidente do Centro de Informa\u00e7\u00f5es sobre Sa\u00fade e \u00c1lcool (Cisa).  <\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 15h56min   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;De copo sempre cheio e cora\u00e7\u00e3o vazio, estou me tornando um cara solit\u00e1rio e frio&#8221; (Juliano Tchula e Mar\u00edlia Mendon\u00e7a) &gt;&gt; DIEGO AMORIM An\u00e1polis (GO) \u2014 Sorrateiramente, o \u00e1lcool fez ruir a fortuna de uma tradicional fam\u00edlia de An\u00e1polis, munic\u00edpio goiano a 160km de Bras\u00edlia. 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