{"id":404,"date":"2016-01-21T08:30:43","date_gmt":"2016-01-21T10:30:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=404"},"modified":"2016-01-21T11:38:31","modified_gmt":"2016-01-21T13:38:31","slug":"a-marca-da-desconfianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/a-marca-da-desconfianca\/","title":{"rendered":"A MARCA DA DESCONFIAN\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p>O Banco Central seguiu \u00e0 risca o roteiro definido por seu presidente, Alexandre Tombini, e manteve a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) inalterada pela quarta vez seguida. Desde a manh\u00e3 de ter\u00e7a-feira, quando o comandante da autoridade monet\u00e1ria provocou como\u00e7\u00e3o nos mercados, ao soltar uma nota comentando previs\u00f5es do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) para a economia brasileira, j\u00e1 havia sido batido o martelo em torno da decis\u00e3o do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos n\u00e3o se via um tumulto t\u00e3o grande em torno dos rumos da Selic. Os ru\u00eddos provocados por Tombini tiraram a legitimidade de uma decis\u00e3o que parece acertada, dado o estado de calamidade da economia. Apesar de todos reconhecerem que um aumento dos juros agora s\u00f3 contribuiria para empurrar a atividade de vez para para o buraco, nada do que os integrantes do BC venham a dizer daqui por diante ser\u00e1 levado em considera\u00e7\u00e3o. A desconfian\u00e7a se tornar\u00e1 marca, pois o banco deixou de ser um agente t\u00e9cnico para atuar de acordo com interesses pol\u00edticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As perspectivas s\u00e3o de que todas as proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o para este ano e os pr\u00f3ximos, captadas pelas pesquisas Focus, sejam revistas para cima. V\u00e3o refletir a perda de credibilidade da pol\u00edtica monet\u00e1ria. Assim como ningu\u00e9m acredita no compromisso do Minist\u00e9rio da Fazenda de fazer um ajuste fiscal consistente, ficar\u00e1 sempre a d\u00favida se realmente o BC far\u00e1 o que for necess\u00e1rio para levar a infla\u00e7\u00e3o para o centro da meta, de 4,5%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Excesso de erros<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo quando ainda tinha o respeito do mercado, o BC errou feio. Jamais conseguiu entregar a infla\u00e7\u00e3o no centro da meta. Sempre que o fracasso na empreitada se tornava evidente, a institui\u00e7\u00e3o tratava de ampliar o prazo de converg\u00eancia. At\u00e9 o meio do ano passado, Tombini e companhia garantiam que o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) chegaria aos 4,5% ao fim de 2016. Mas foram obrigados a reconhecer que a tarefa era imposs\u00edvel, diante da resist\u00eancia do custo de vida pr\u00f3ximo dos 11%. A promessa atual \u00e9 de entregar a infla\u00e7\u00e3o no centro da meta no encerramento de 2017.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se at\u00e9 a nota de Tombini ainda havia alguma possibilidade de o IPCA ficar abaixo de 6,5% neste ano, ela foi enterrada por completo, dizem os especialistas. E n\u00e3o apenas por causa das surpresas negativas deste in\u00edcio de ano, como o reajuste disseminado de tarifas de \u00f4nibus. A tend\u00eancia \u00e9 de que os setores que tiverem espa\u00e7o recorrer\u00e3o a aumentos preventivos, j\u00e1 que n\u00e3o veem mais um compromisso forte do BC com o controle da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para as fam\u00edlias, ser\u00e1 um desastre. A leni\u00eancia no combate \u00e0 carestia obrigou muitas donas de casa a retirarem itens essenciais dos carrinhos de supermercado. Quase 4 milh\u00f5es de pessoas que ascenderam socialmente nos \u00faltimos anos voltar\u00e3o para a pobreza. Pelo menos 2 milh\u00f5es de trabalhadores ser\u00e3o demitidos. Com isso, o consumo, que j\u00e1 est\u00e1 fraco, vai desabar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, quase a metade das redes de varejo n\u00e3o abrir\u00e1 lojas neste ano. O movimento ser\u00e1 para fechar pontos de venda. Dez dos 20 shoppings previstos para ser\u00e3o inaugurados continuar\u00e3o no papel. Certamente, n\u00e3o se chegaria a esse quadro t\u00e3o assustador se o BC n\u00e3o tivesse falhado tanto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sobreviv\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Banco Central sempre foi visto como um foco de sensatez dentro de um governo dominado pela incompet\u00eancia. Mesmo com todos os erros recentes, muitos se apegavam aos sinais emitidos pelos dirigentes da institui\u00e7\u00e3o como forma de sobreviv\u00eancia. Agora, h\u00e1 um vazio enorme, que levar\u00e1 anos para ser preenchido. \u201cPobre de um pa\u00eds que tem uma autoridade monet\u00e1ria dominada pelos interesses pol\u00edticos\u201d, diz um funcion\u00e1rio do BC.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Pal\u00e1cio do Planalto, o pensamento \u00e9 bem diferente. Ao ser informado sobre a decis\u00e3o do Copom de manter os juros em 14,25% ao ano, um dos assessores da presidente Dilma Rousseff disparou: \u201cO BC fez o que tinha que ser feito. Tombini merece o nosso respeito\u201d. Para o pa\u00eds, no entanto, a fatura ser\u00e1 o prolongamento do sofrimento de uma infla\u00e7\u00e3o que chegou de mansinho, foi bem recebida, recebeu um regime de engorda e, agora, se recusa a sair de cena.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 08h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Banco Central seguiu \u00e0 risca o roteiro definido por seu presidente, Alexandre Tombini, e manteve a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) inalterada pela quarta vez seguida. 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