{"id":419,"date":"2016-01-29T08:30:07","date_gmt":"2016-01-29T10:30:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=419"},"modified":"2016-01-29T09:19:43","modified_gmt":"2016-01-29T11:19:43","slug":"tapas-e-beijos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/tapas-e-beijos\/","title":{"rendered":"TAPAS E BEIJOS"},"content":{"rendered":"<p>Quem conhece os meandros do governo sabe que o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, nunca comungaram das mesmas ideias. Sempre que podiam, nos bastidores, tratavam de detonar um ao outro. Pois n\u00e3o \u00e9 que a presidente Dilma Rousseff conseguiu o milagre de uni-los? Os dois se tornaram os maiores defensores do gradualismo nas pol\u00edticas fiscal e monet\u00e1ria. E com toda a flexibilidade poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ata do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom), divulgada no mesmo dia em que Barbosa anunciou um pacote de incentivos ao cr\u00e9dito de R$ 83 bilh\u00f5es, deixou claro que o BC j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais \u201cespecialmente\u201d preocupado com a converg\u00eancia da infla\u00e7\u00e3o para o centro da meta, de 4,5%, at\u00e9 o fim de 2017. Por mais que o discurso de Tombini reforce isso, as a\u00e7\u00f5es do BC v\u00e3o mostrar exatamente o contr\u00e1rio. E que ningu\u00e9m se espante se, ao longo deste ano, a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) cair.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto Tombini vai insistir nas incertezas externas e nos \u201ceventos internos n\u00e3o econ\u00f4micos\u201d para justificar a postura mais complacente do BC com a infla\u00e7\u00e3o, Barbosa trabalhar\u00e1 pesado para que o sistema de bandas fiscais seja, finalmente, adotado pelo governo. Banco Central e Fazenda falar\u00e3o a mesma l\u00edngua, ainda que, em alguns momentos, possam indicar que a sintonia n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o forte quanto dizem os maledicentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que BC e Fazenda unidos \u2014 o que deveria ser uma boa not\u00edcia \u2014 custar\u00e3o caro ao pa\u00eds. Num governo de Dilma Rousseff, isso significa s\u00e9rios riscos de estripulias na \u00e1rea econ\u00f4mica, muitas semelhantes \u00e0s que prevaleceram no primeiro mandato da petista e resultaram em pelo menos dois anos de recess\u00e3o \u2014 mais precisamente queda de quase 8% do Produto Interno Bruto (PIB). Essa vis\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ada pela pr\u00f3pria presidente, ao avisar que n\u00e3o abrir\u00e1 m\u00e3o de suas convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Subservi\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um observador atento do governo define bem o novo e male\u00e1vel Tombini. At\u00e9 divulgar, na ter\u00e7a-feira da semana passada, a surpreendente nota em que atribu\u00eda a decis\u00e3o de manter a Selic em 14,25% ao ano \u00e0s terr\u00edveis previs\u00f5es do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) para a economia brasileira, o presidente do BC era visto como um personagem do segundo escal\u00e3o do governo. A partir dali, finalmente foi al\u00e7ado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ministro, com tr\u00e2nsito livre no Planalto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos dizem que, ao se render de vez \u00e0 cartilha de Dilma, Tombini subiu de patamar e ficou mais forte no cargo. Na cabe\u00e7a dele, e, principalmente, na da presidente da Rep\u00fablica, \u00e9 a mais pura verdade. Perante a sociedade e os agentes econ\u00f4micos, por\u00e9m, o comandante do BC ficou menor. Pior: a subservi\u00eancia dele jogou para o buraco o que restava da credibilidade da autoridade monet\u00e1ria. \u201c\u00c9 o t\u00edpico caso de sede de poder\u201d, ressalta o observador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O tamanho do descr\u00e9dito em rela\u00e7\u00e3o a Tombini e ao BC pode ser medido pelas expectativas de infla\u00e7\u00e3o, que se deterioraram por completo depois do alinhamento do banco com a Fazenda e o Planalto. As proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o para 2016 saltaram de 7% para 7,23% e as de 2017, de 5,40% para 5,65%. Se forem levadas em considera\u00e7\u00e3o apenas as cinco institui\u00e7\u00f5es (Top 5) que mais acertam na pesquisa Focus, a desconfian\u00e7a fica maior. Para este ano, as estimativas pularam de 7,54% para 7,92% e, em 2017, de 5,50% para 7,19%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, segundo Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Partners, isso significa o empobrecimento dos trabalhadores \u2014 a renda registrou, em 2015, a primeira queda em 10 anos \u2014 e um custo maior para o Tesouro Nacional se financiar no mercado, pois as taxas de juros dos t\u00edtulos p\u00fablicos n\u00e3o param de subir. \u201cTudo ficou imprevis\u00edvel\u201d, afirma. Segundo ele, a pergunta que todos est\u00e3o se fazendo agora no mercado \u00e9 se h\u00e1 consist\u00eancia na pol\u00edtica de est\u00edmulos ao cr\u00e9dito num quadro de baixa confian\u00e7a e infla\u00e7\u00e3o muito acima do centro da meta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Buraco sem fundo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O entendimento, inclusive dentro do governo, \u00e9 de que, com a manuten\u00e7\u00e3o dos juros pelo BC e o pacote de R$ 83 bilh\u00f5es, Dilma est\u00e1 tentando sair do isolamento e angariar apoio pol\u00edtico para se livrar do impeachment. \u00c9 poss\u00edvel que, desse ponto de vista, obtenha sucesso. Mas acreditar que a economia vai se restabelecer por meio de mais endividamento das fam\u00edlias e das empresas chega a ser ingenuidade \u2014 ou m\u00e1-f\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Infelizmente, diz um graduado t\u00e9cnico da Fazenda, ao n\u00e3o querer assumir a real situa\u00e7\u00e3o da economia e enfrentar os problemas com medidas consistentes, que resgatem a confian\u00e7a dos agentes econ\u00f4micas, o Brasil continuar\u00e1 cavando o buraco da recess\u00e3o, do desemprego e das desigualdades sociais. Na situa\u00e7\u00e3o em que o pa\u00eds se encontra, n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda f\u00e1cil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 08h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem conhece os meandros do governo sabe que o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, nunca comungaram das mesmas ideias. Sempre que podiam, nos bastidores, tratavam de detonar um ao outro. 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