{"id":494,"date":"2016-02-19T08:30:03","date_gmt":"2016-02-19T10:30:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=494"},"modified":"2016-02-19T09:14:41","modified_gmt":"2016-02-19T11:14:41","slug":"o-mantra-de-tombini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/o-mantra-de-tombini\/","title":{"rendered":"O MANTRA DE TOMBINI"},"content":{"rendered":"<p>O Banco Central est\u00e1 numa empreitada pesada para esvaziar a percep\u00e7\u00e3o dos agentes econ\u00f4micos de que n\u00e3o h\u00e1, pelo menos por ora, nenhuma inten\u00e7\u00e3o em se cortar a taxa b\u00e1sica de juros (Selic), fixada em 14,25% desde setembro do ano passado. Mas, dentro da institui\u00e7\u00e3o, o debate sobre o tema \u00e9 latente e vem sendo estimulado, sobretudo, pelo presidente do banco, Alexandre Tombini. Ele acredita, fortemente, que h\u00e1 um processo de desinfla\u00e7\u00e3o contratado que, em algum momento deste ano, permitir\u00e1 ao Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) dar a not\u00edcia que a presidente Dilma Rousseff tanto anseia.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Tombini, a equa\u00e7\u00e3o para a poss\u00edvel queda dos juros est\u00e1 fechada. Ele acredita que, com os Estados Unidos sendo atingindo pela crise que tomou conta dos pa\u00edses emergentes, do Jap\u00e3o e da Europa, o d\u00f3lar vai se desvalorizar, reduzindo as press\u00f5es sobre a infla\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. O BC contaria ainda a seu favor com o fato de o Produto Interno Bruto (PIB) estar rodando muito abaixo do seu potencial (hiato do produto) \u2014 queda anualizada de 4% \u2014 e com o aumento do desemprego. Essa tese \u00e9 compartilhada por todos os diretores que t\u00eam votado pela manuten\u00e7\u00e3o da Selic.<\/p>\n<p>Por mais que Tombini e companhia estejam corretos, \u00e9 preciso ter cautela. O BC n\u00e3o pode apostar todas as fichas de que o c\u00e2mbio potencializar\u00e1 o trabalho de levar a infla\u00e7\u00e3o para menos de 6,5% neste ano e para 4,5% at\u00e9 o fim de 2017, compromissos assumidos pela institui\u00e7\u00e3o. Qualquer movimento at\u00edpico no exterior tende a fazer estragos nas cota\u00e7\u00f5es da moeda norte-americana e a desviar o custo de vida da rota esperada pela autoridade monet\u00e1ria. \u00c9 essa possibilidade, por sinal, que embasa boa parte das proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o do mercado para este ano, entre 7,5% e 8%.<\/p>\n<p><strong>Perigos<\/strong><\/p>\n<p>O risco de o BC errar de novo \u00e9 alto. E esse alerta j\u00e1 foi feito a Tombini. Para os diretores do banco que t\u00eam destoado da maioria e insistido na necessidade de aumento dos juros, em vez de se apegar a possibilidades, a institui\u00e7\u00e3o deveria ter feito um ajuste na Selic, mesmo que m\u00ednimo. Dessa forma, passaria aos agentes econ\u00f4micos a percep\u00e7\u00e3o de que o compromisso com o combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o \u00e9 consistente, o que derrubaria as expectativas, que v\u00eam se deteriorando desde setembro do ano passado. Nesse contexto, certamente o Copom j\u00e1 estaria pronto para derrubar os juros e combater a grave recess\u00e3o.<\/p>\n<p>T\u00e9cnicos do BC chamam ainda a aten\u00e7\u00e3o para o discurso do diretor de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica, Altamir Lopes, muito alinhado a Tombini, de que as proje\u00e7\u00f5es futuras v\u00e3o cair \u00e0 medida que a infla\u00e7\u00e3o corrente ceder. O mercado admite que, nos pr\u00f3ximos meses, o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) cair\u00e1 pelo menos dois pontos percentuais, para pouco mais de 8%. Mas, ainda assim, mant\u00e9m firmes as estimativas para o indicador deste ano e dos pr\u00f3ximos bem acima do centro da meta perseguida pela BC, de 4,5%.<\/p>\n<p>O temor de alguns diretores do BC \u00e9 de que, ao mostrar uma postura mais flex\u00edvel com a infla\u00e7\u00e3o, a institui\u00e7\u00e3o se defronte com dois cen\u00e1rios nada animadores. O primeiro: ser obrigada, mais \u00e0 frente, a elevar os juros, mesmo com a economia em recess\u00e3o e o desemprego se fortalecendo. O segundo: aceitar como normal um IPCA rodando entre 7% e 8% ou mesmo cravado em 6,5%, o limite de toler\u00e2ncia previsto em lei.<\/p>\n<p>Levando-se em considera\u00e7\u00e3o o hist\u00f3rico do BC no governo Dilma, \u00e9 mais prov\u00e1vel que a segunda op\u00e7\u00e3o prevale\u00e7a. Desde 2011, ano a ano, o IPCA foi ganhando for\u00e7a sem que a autoridade monet\u00e1ria agisse com vigor para evitar que a carestia alcan\u00e7asse inaceit\u00e1veis 10,7%. Isso aconteceu apesar de o pa\u00eds ter afundado em uma recess\u00e3o de 4% e dos movimentos de alta da Selic, anulados pela desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica monet\u00e1ria e \u00e0 farra fiscal, para qual a equipe de Tombini fechou os olhos.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3rico ruim<\/strong><\/p>\n<p>Quem acompanha de perto o debate dentro do BC garante que as discuss\u00f5es s\u00e3o civilizadas. As diverg\u00eancias s\u00e3o colocadas sem que haja hostilidades por parte do grupo dominante. E \u00e9 assim que deve ser. O importante \u00e9 que as decis\u00f5es que venham a ser tomadas n\u00e3o comprometam ainda mais a fr\u00e1gil situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O Banco Central, como todo o governo Dilma, errou demais nos \u00faltimos anos e imp\u00f4s custos pesados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tombini e companhia n\u00e3o podem se apoiar na torcida do que pode acontecer ou do que querem que aconte\u00e7a. \u00c9 preciso ser firme e realista. O BC j\u00e1 queimou toda a sua reserva de credibilidade. Precisa ser um forte contraponto ao Minist\u00e9rio da Fazenda, que voltou a flertar com medidas nada convencionais na \u00e1rea fiscal. Se algu\u00e9m se der ao trabalho de pesquisar, ver\u00e1 que parte dos poucos avan\u00e7os que o ex-ministro Joaquim Levy conquistou j\u00e1 foi revertida sem que ningu\u00e9m de bom senso do governo levantasse a voz para repelir.<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 08h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Banco Central est\u00e1 numa empreitada pesada para esvaziar a percep\u00e7\u00e3o dos agentes econ\u00f4micos de que n\u00e3o h\u00e1, pelo menos por ora, nenhuma inten\u00e7\u00e3o em se cortar a taxa b\u00e1sica de juros (Selic), fixada em 14,25% desde setembro do ano passado. 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