{"id":506,"date":"2016-02-21T08:30:02","date_gmt":"2016-02-21T11:30:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=506"},"modified":"2016-02-21T17:43:22","modified_gmt":"2016-02-21T20:43:22","slug":"dilma-deixara-heranca-maldita-para-sucessor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/dilma-deixara-heranca-maldita-para-sucessor\/","title":{"rendered":"&#8220;DILMA DEIXAR\u00c1 HERAN\u00c7A MALDITA PARA SUCESSOR&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\u00bb PAULO SILVA PINTO<\/p>\n<p><em>Gustavo Loyola \u00e9 um economista que conversa de forma pausada, em voz baixa. Isso n\u00e3o reduz a contund\u00eancia do que diz. \u201cA presidente Dilma Rousseff deixar\u00e1, sim, uma heran\u00e7a maldita para seu sucessor\u201d, avisa. Presidente do Banco Central em dois momentos, no fim do governo de Fernando Collor e no in\u00edcio da gest\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso, ele diz que nunca lhe mandaram mexer na taxa de juros, diferentemente do que acredita estar ocorrendo atualmente. Para ele, o BC \u00e9 um dos maiores respons\u00e1veis pela crise atual. \u201cContribuiu para que fosse ferido de morte o regime de metas de infla\u00e7\u00e3o\u201d, assinala. Loyola duvida de que o atual governo ter\u00e1 convic\u00e7\u00e3o e for\u00e7a pol\u00edtica para levar adiante as reformas de que o pa\u00eds precisa para encurtar a crise, como a da Previd\u00eancia Social. Para o economista, as turbul\u00eancias que empurraram o pa\u00eds para uma grav\u00edssima recess\u00e3o s\u00f3 dever\u00e3o passar em 2017, deixando um pa\u00eds em frangalhos. \u201cQuando voltarmos a crescer, o tamanho das nossas pernas ser\u00e1 menor\u201d, acredita. Como met\u00e1fora da situa\u00e7\u00e3o que atravessa o pa\u00eds, um temporal batia \u00e0 janela da sala de reuni\u00f5es da Tend\u00eancias Consultoria Integrada, que tem Loyola como um dos s\u00f3cios, em S\u00e3o Paulo, durante a entrevista que ele concedeu ao Correio. Leia os principais trechos.<\/em><\/p>\n<p><strong><br \/>\nA crise econ\u00f4mica ser\u00e1 pior do que imagin\u00e1vamos h\u00e1 pouco tempo?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida. Em 2014, crescemos quase zero. Em 2015, a queda foi de quase 4% e, neste ano, a expectativa \u00e9 de um n\u00famero parecido com esse. Em 2017, esperamos que o Brasil atinja o fundo do po\u00e7o, sem varia\u00e7\u00e3o positiva. \u00c9 o pior per\u00edodo para a economia na nossa hist\u00f3ria. S\u00f3 rivaliza com a crise de 1929. N\u00e3o havia ainda o c\u00e1lculo do PIB, mas h\u00e1 estimativas de dois anos de recess\u00e3o ali. No Brasil contempor\u00e2neo, urbanizado, \u00e9 uma coisa in\u00e9dita.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nQuais os efeitos disso para o pa\u00eds a longo prazo?<\/strong><br \/>\nIsso tem consequ\u00eancias bastante s\u00e9rias do ponto de vista da recupera\u00e7\u00e3o. Nesse per\u00edodo de crise, se destr\u00f3i muito capital, inclusive capital humano. Pessoas se afastam do trabalho, perdem suas experi\u00eancias. E quando vem a retomada da economia, ela \u00e9 mais dif\u00edcil. Mesmo que a confian\u00e7a retome, voc\u00ea tem de construir, ao menos em parte, a capacidade produtiva que perdeu. Al\u00e9m disso, muitos investimentos feitos no Brasil nos \u00faltimos anos s\u00e3o pouco produtivos, que n\u00e3o dar\u00e3o capacidade para a retomada do crescimento.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 preciso fazer?<\/strong><br \/>\nCompartilho da opini\u00e3o de economistas de que o pa\u00eds precisa de reformas, que aumentem a produtividade e incentivem a aloca\u00e7\u00e3o correta de capital no Brasil. A gente precisa ter menos inger\u00eancia do Estado nas decis\u00f5es econ\u00f4micas. E superar a crise fiscal, que \u00e9 o grande n\u00f3 g\u00f3rdio.<\/p>\n<p><strong>A interfer\u00eancia do Planalto da \u00faltima reuni\u00e3o do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) prejudicou a credibilidade do Banco Central?<\/strong><br \/>\nA credibilidade do BC j\u00e1 vinha sendo machucada em v\u00e1rios epis\u00f3dios anteriores a esse. O BC foi um dos contribuidores para a crise atual. Em 2011, embarcou em uma pol\u00edtica de derrubada dos juros, no contexto da chamada Nova Matriz Econ\u00f4mica, que n\u00e3o guardava nenhuma correla\u00e7\u00e3o com o que estava acontecendo no ambiente inflacion\u00e1rio. As expectativas estavam j\u00e1 piorando, e o BC potencializava a pol\u00edtica expansionista feita do lado fiscal e do cr\u00e9dito dos bancos p\u00fablicos. Contribuiu, naquele momento, para que fosse ferido de morte o regime de metas de infla\u00e7\u00e3o. A comunica\u00e7\u00e3o com os agentes econ\u00f4micos come\u00e7ou a ficar dif\u00edcil, uma esp\u00e9cie de di\u00e1logo de surdos. Quando, em 2014, o BC retomou a alta de juros, interrompida no per\u00edodo eleitoral, ele estava procurando correr atr\u00e1s do preju\u00edzo.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nDesde ent\u00e3o, houve acertos?<\/strong><br \/>\nEm 2015, o BC fez, durante grande parte do ano, uma pol\u00edtica mais focada na busca por uma converg\u00eancia para a meta em 2016, tanto que as expectativas para a infla\u00e7\u00e3o se comportaram bem. Mas, recentemente, coincidindo com a mudan\u00e7a do ministro da Fazenda, o BC abandonou as declara\u00e7\u00f5es que vinha dando ao mercado. Sob pretexto da mudan\u00e7a do diagn\u00f3stico do FMI (Fundo Monet\u00e1rio Internacional) sobre a economia mundial, deu uma esp\u00e9cie de cavalo de pau na pol\u00edtica monet\u00e1ria. N\u00e3o me convenceu de que isso foi por causa de uma altera\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio externo. Entre dezembro e janeiro, n\u00e3o houve grande mudan\u00e7a. E o jeito como se fez, o fato de a mudan\u00e7a ter se seguido a um encontro do presidente do BC com a presidente da Rep\u00fablica, levanta a hip\u00f3tese de inger\u00eancia pol\u00edtica. Isso desancorou totalmente as expectativas. Basta observar a pesquisa Focus. O mercado reduziu as expectativas para as taxas de juros e aumentou as do c\u00e2mbio e da infla\u00e7\u00e3o. O BC hoje est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o complicada. Acho que seria defens\u00e1vel n\u00e3o ter elevado os juros em janeiro. Mas o banco destruiu o trabalho que estava construindo.<\/p>\n<p><strong><\/p>\n<p>O BC errou na constru\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio anterior, na mudan\u00e7a ou nas duas coisas?<\/strong><br \/>\nAcho que o BC tinha um quadro correto em dezembro: de que a infla\u00e7\u00e3o viria mais forte agora, e que corria o risco de fugir da meta. Mesmo assim, poderiam ter dito: apesar do nosso diagn\u00f3stico, vamos esperar mais um pouco, porque a atividade econ\u00f4mica est\u00e1 muito fraca. Sem abandonar o diagn\u00f3stico, poderia ter adiado a alta dos juros. S\u00f3 que o BC mudou o diagn\u00f3stico. Hoje, parece que a infla\u00e7\u00e3o se tornou um objetivo menor, ou adiado, mais uma vez, para 2017. Quer dizer: quando voc\u00ea chega perto da meta, voc\u00ea n\u00e3o dobra a meta (risos), mas adia.<\/p>\n<p><strong>Quando o senhor presidiu o BC, havia interfer\u00eancia pol\u00edtica?<\/strong><br \/>\nA interfer\u00eancia foi m\u00ednima, embora houvesse um di\u00e1logo muito pr\u00f3ximo com o Minist\u00e9rio da Fazenda e com o presidente da Rep\u00fablica. Nada do tipo \u201cbaixe os juros\u201d. Havia discuss\u00f5es sobre a estrat\u00e9gia da estabiliza\u00e7\u00e3o, que veio daquela obra coletiva que foi o Plano Real. Na minha gest\u00e3o, o tema dominante era a crise banc\u00e1ria. E, dadas as implica\u00e7\u00f5es, o BC n\u00e3o poderia fazer tudo sozinho. Mesmo na crise recente nos Estados Unidos, o Fed e a Secretaria do Tesouro trabalharam muito proximamente.<\/p>\n<p><strong>A autonomia tem chances de emplacar?<\/strong><br \/>\nAlgo intrigante nos nossos pol\u00edticos eleitos, independentemente do partido, \u00e9 que eles t\u00eam forte resist\u00eancia \u00e0 autonomia do BC, embora sejam favor\u00e1veis a mandatos para ag\u00eancias reguladoras. H\u00e1 uma incompreens\u00e3o sobre isso, como se isso desse ao BC as caracter\u00edsticas de um quarto poder. N\u00e3o: \u00e9 uma autonomia muito restrita para executar determinando objetivo, que \u00e9 a estabilidade da moeda. Em todos os pa\u00edses com BC independente, os pol\u00edticos exercem controle sob certas regras. Se n\u00e3o estiver cumprindo os objetivos, ou se algum objetivo maior se colocar. Tem um caso cl\u00e1ssico do BC mais poderoso que houve, o Bundesbank. No processo de reunifica\u00e7\u00e3o das duas Alemanhas, o parlamento n\u00e3o considerou a opini\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o e estabeleceu que um marco da Alemanha Oriental valeria o mesmo que um marco da Alemanha Ocidental. Ao se atribuir mandatos aos diretores, n\u00e3o quer dizer que eles s\u00e3o inamov\u00edveis. O BC \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o de Estado. N\u00e3o pertence ao governo do PT, do PSDB.<\/p>\n<p><strong>Os juros mudariam com a independ\u00eancia do BC?<\/strong><br \/>\nA credibilidade \u00e9 vista como um substituto parcial para os juros. Se voc\u00ea tem um BC que \u00e9 visto como l\u00edder de um processo de estabiliza\u00e7\u00e3o, aut\u00f4nomo e comprometido com determinados objetivos, quando sinaliza em determinada dire\u00e7\u00e3o, as expectativas dos agentes econ\u00f4micos come\u00e7am a sinalizar naquele caminho. Isso leva a uma mudan\u00e7a de comportamento que facilita alcan\u00e7ar os objetivos. O BC n\u00e3o precisa comprar credibilidade com altos juros.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nH\u00e1 riscos de disparada da infla\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, porque n\u00e3o existe combust\u00edvel para a infla\u00e7\u00e3o disparar, n\u00e3o tem demanda. O problema \u00e9 que ela pode se transformar em um processo cr\u00f4nico mais profundo, porque temos mecanismos de indexa\u00e7\u00e3o ainda fortes no Brasil. E \u00e9 um efeito cumulativo. Uma coisa \u00e9 perder 8% de seus rendimentos em um ano. Outra coisa \u00e9 isso em dois anos, tr\u00eas anos. A demanda por indexa\u00e7\u00e3o aumenta. E fica dif\u00edcil se opor. O custo para desinflacionar fica mais elevado. A infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 em um n\u00edvel relativamente alto.<\/p>\n<p><strong>Quais as outras limita\u00e7\u00f5es do BC?<\/strong><br \/>\nExiste a quest\u00e3o fiscal, extremamente delicada, que cria obst\u00e1culos para o BC usar a taxa de juros. Quando se cria essa percep\u00e7\u00e3o de que o BC est\u00e1 manetado pela pol\u00edtica fiscal, ele perde credibilidade. Isso n\u00e3o \u00e9 culpa das pessoas que est\u00e3o no BC. Hoje, n\u00f3s temos um problema que \u00e9 de lideran\u00e7a pol\u00edtica. O que a sociedade brasileira precisa \u00e9 da retomada de confian\u00e7a. Primeiro com uma cren\u00e7a na corre\u00e7\u00e3o dos rumos da pol\u00edtica fiscal. A ideia de que vai reverter o deficit e que a d\u00edvida p\u00fablica n\u00e3o vai ter trajet\u00f3ria explosiva. O outro aspecto s\u00e3o as expectativas de infla\u00e7\u00e3o. Resolver isso gera mudan\u00e7a das expectativas dos consumidores e dos empres\u00e1rios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia e um processo benigno de retomada. Mas isso n\u00e3o \u00e9 suficiente. O Brasil precisa de reformas. Temos um regime tribut\u00e1rio ruim.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nN\u00e3o vai sair a reforma?<\/strong><br \/>\nA chance \u00e9 muito baixa. Como baixas s\u00e3o as chances de ter a CPMF (Contribui\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria sobre a Movimenta\u00e7\u00e3o Financeira) para ajudar a resolver o deficit prim\u00e1rio. \u00c9 um c\u00edrculo vicioso: como n\u00e3o se recupera a confian\u00e7a, o Brasil n\u00e3o cresce, como n\u00e3o cresce, n\u00e3o recupera a receita. E \u00e9 uma crise fiscal que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do governo federal, \u00e9 dos estados e munic\u00edpios tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>O pa\u00eds ter descido mais um degrau na ag\u00eancia de classifica\u00e7\u00e3o de risco S&amp;P \u00e9 consequ\u00eancia disso?<\/strong><br \/>\nTem a ver, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Est\u00e1 se solidificando uma percep\u00e7\u00e3o de que a crise \u00e9 mais profunda e demorada do que o que se esperava no in\u00edcio, de que n\u00e3o vai ter uma recupera\u00e7\u00e3o, de que provavelmente durante o restante da administra\u00e7\u00e3o da presidente Dilma o Brasil vai continuar lutando contra os mesmos problemas. Na vis\u00e3o da S&amp;P, a nota do Brasil n\u00e3o chegou a um piso. Ela pode ser ainda pior.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nA rea\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o a isso n\u00e3o deveria ser mais forte?<\/strong><br \/>\nUma coisa que amortece no Brasil \u00e9 o fato de ter uma rede de prote\u00e7\u00e3o social que n\u00e3o \u00e9 desprez\u00edvel. Se somarmos as pessoas que dependem do governo, como aposentados e funcion\u00e1rios p\u00fablicos, al\u00e9m de Bolsa Fam\u00edlia, \u00e9 um n\u00famero muito grande. E, em geral, s\u00e3o pessoas de menor renda. Sem isso, os efeitos de dois anos de recess\u00e3o seriam muito grandes. Mas a presidente ter menos de 10% de popularidade reflete a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. As pessoas n\u00e3o est\u00e3o satisfeitas. Agora, se isso se transformar\u00e1 em um movimento, \u00e9 uma quest\u00e3o da sociedade. N\u00e3o podemos descartar que ocorra. O desemprego deve afetar mais as pessoas. Quem sofre mais \u00e9 a classe m\u00e9dia, que est\u00e1 \u201censanduichada\u201d. Perde renda, perde emprego. Isso vai gerar muita insatisfa\u00e7\u00e3o ainda. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o em que a presidente dificilmente conseguir\u00e1 recuperar a base pol\u00edtica. A Dilma, sim, deixar\u00e1 uma heran\u00e7a maldita. Quem for eleito em 2018 ter\u00e1 de lidar com tudo isso. O momento que estamos vivendo \u00e9 pior do que a d\u00e9cada perdida dos anos 1980 em termos de crescimento.<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 08h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00bb PAULO SILVA PINTO Gustavo Loyola \u00e9 um economista que conversa de forma pausada, em voz baixa. Isso n\u00e3o reduz a contund\u00eancia do que diz. \u201cA presidente Dilma Rousseff deixar\u00e1, sim, uma heran\u00e7a maldita para seu sucessor\u201d, avisa. 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