{"id":516,"date":"2016-02-24T08:30:13","date_gmt":"2016-02-24T11:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=516"},"modified":"2016-02-24T11:57:08","modified_gmt":"2016-02-24T14:57:08","slug":"gato-por-lebre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/gato-por-lebre\/","title":{"rendered":"GATO POR LEBRE"},"content":{"rendered":"<p>O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, alardeia que a infla\u00e7\u00e3o cair\u00e1 dois pontos percentuais ainda no primeiro semestre do ano, para algo entre 8,5% e 8,8%. Al\u00e9m de ser um tombo insignificante, j\u00e1 que o custo de vida continuar\u00e1 distante do limite de toler\u00e2ncia previsto em lei, de 6,5%, ele esquece de dizer que o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) s\u00f3 se livrar\u00e1 do impacto extra do reajuste das tarifas p\u00fablicas, sobretudo da energia el\u00e9trica. O saldo final continuar\u00e1 muito ruim. Tombini est\u00e1 vendendo gato por lebre.<\/p>\n<p>Um minucioso estudo feito por Ivo Chermont, economista-chefe da Itaim Asset, mostra que, na m\u00e9dia, desde 1999, quando entrou em vigor o regime de metas de infla\u00e7\u00e3o, o aumento dos pre\u00e7os administrados vem se mantendo entre 8% e 8,5% ao ano. Ou seja, na pr\u00e1tica, do tarifa\u00e7o de 18% promovido por Dilma Rousseff no ano passado, 10 pontos percentuais podem ser considerados, efetivamente, um choque, um evento extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Levando-se em conta que os pre\u00e7os administrados representam 25% do IPCA, os 10 pontos extras resultaram em infla\u00e7\u00e3o de 2,5%. Como o \u00edndice final de 2015 foi de 10,7%, a carestia real, sem o choque de tarifas, foi de 8,2%, resultado que incorpora todo o impacto da ala do d\u00f3lar e dos alimentos. Isso significa dizer que a infla\u00e7\u00e3o \u201climpa\u201d de eventos extraordin\u00e1rios foi semelhante \u00e0s taxas que Tombini diz que veremos dentro de alguns meses.<\/p>\n<p>No entender de Chermont, a infla\u00e7\u00e3o continua resistente, imune \u00e0 pol\u00edtica de eleva\u00e7\u00e3o de juros e, pior, mant\u00e9m a tend\u00eancia de alta. Para ele, n\u00e3o ser\u00e1 surpresa se o IPCA deste ano encostar nos 9%, apesar do aprofundamento da recess\u00e3o. Uma das raz\u00f5es para esse quadro \u00e9 a falta de confian\u00e7a dos agentes econ\u00f4micos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade do BC de p\u00f4r o custo de vida nos eixos, e, sobretudo, ao colapso fiscal que est\u00e1 em curso sob o comando do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.<\/p>\n<p><strong>A cara de 1981<\/strong><\/p>\n<p>O economista da Itaim Asset ressalta que, se o governo n\u00e3o tivesse represados as tarifas p\u00fablicas em 2013 e 214, de olho na campanha para a reelei\u00e7\u00e3o de Dilma, o IPCA j\u00e1 estaria rodando na casa dos 8% desde ent\u00e3o, quase o dobro da meta de 4,5% que o BC \u00e9 obrigado a perseguir. Ao segurar os reajustes de combust\u00edveis e da conta de luz, principalmente, a presidente da Rep\u00fablica criou uma falsa ilus\u00e3o de bem-estar, que lhe ajudou a garantir mais quatro anos de mandato.<\/p>\n<p>A manipula\u00e7\u00e3o dos \u00edndices de infla\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o impediu que os agentes econ\u00f4micos fossem incorporando em todos os pre\u00e7os a inseguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Instalou-se no pa\u00eds um movimento de remarca\u00e7\u00e3o preventiva que continua latente, como mostrou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) ao divulgar o IPCA-15, a pr\u00e9via do \u00edndice oficial. O indicador cravou alta de 1,42% em fevereiro, superando as previs\u00f5es mais pessimistas do mercado.<\/p>\n<p>Chermont chama ainda a aten\u00e7\u00e3o para o fato de as raz\u00f5es apontadas pelo BC para o recrudescimento da infla\u00e7\u00e3o \u2014 indexa\u00e7\u00e3o da economia, alta do d\u00f3lar e corre\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios acima da infla\u00e7\u00e3o \u2014 serem id\u00eanticos aos observados em 1981, quando o Brasil registrou um dos per\u00edodos mais longos de contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Quer dizer: o pa\u00eds avan\u00e7ou, avan\u00e7ou, mas, com Dilma no poder, voltou a ter a cara de uma na\u00e7\u00e3o afundada no caos.<\/p>\n<p>Ele acredita que n\u00e3o ser\u00e1 tarefa trivial sair da armadilha na qual o governo meteu o pa\u00eds. Para isso, seria necess\u00e1rio um choque de credibilidade, algo imposs\u00edvel de acontecer com o atual governo. Todas as medidas que v\u00eam sendo anunciadas, principalmente na \u00e1rea fiscal, s\u00f3 alimentam a desconfian\u00e7a. N\u00e3o por acaso, na melhor das hip\u00f3teses, os analistas s\u00f3 veem a infla\u00e7\u00e3o voltando para a meta em 2019, com o Brasil sob novo comando.<\/p>\n<p><strong>Oposi\u00e7\u00e3o petista<\/strong><\/p>\n<p>No que depender do PT, o caos econ\u00f4mico ser\u00e1 prolongado. Na sexta-feira, o partido comemorar\u00e1 36 anos e, durante a festan\u00e7a no Rio de Janeiro, ser\u00e1 lan\u00e7ado o que o presidente da legenda, Rui Falc\u00e3o, chama de \u201cPlano Nacional de Emerg\u00eancia\u201d. Quem teve acesso ao documento, que promete ser um plano econ\u00f4mico paralelo, mostrar\u00e1 um total descompromisso com a quest\u00e3o fiscal. O PT acredita que, para recuperar o crescimento e o emprego, n\u00e3o h\u00e1 nada demais o pa\u00eds conviver com as contas p\u00fablicas no vermelho por um longo per\u00edodo.<\/p>\n<p>O partido deixar\u00e1 claro, tamb\u00e9m, que n\u00e3o apoiar\u00e1 a reforma da Previd\u00eancia Social que a presidente Dilma diz que enviar\u00e1 ao Congresso at\u00e9 abril, com ou sem consenso. Um dirigente do PT diz que a legenda s\u00f3 dar\u00e1 aval \u00e0s mudan\u00e7as definidas pelo F\u00f3rum de Previd\u00eancia, que re\u00fane representantes do governo, empres\u00e1rios e trabalhadores.<\/p>\n<p>Como nada sair\u00e1 desse f\u00f3rum t\u00e3o cedo, pelos petistas, Dilma ficar\u00e1 falando sozinha. Mas, para n\u00e3o dizer que est\u00e1 sabotando o governo, o PT defender\u00e1 tr\u00eas pontos considerados importantes pela equipe econ\u00f4mica: a desvincula\u00e7\u00e3o de recursos da Uni\u00e3o (DRU), a recria\u00e7\u00e3o da CPMF e o aumento dos impostos sobre ganhos de capital.<\/p>\n<p><em>Bras\u00edlia, 08h30min<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, alardeia que a infla\u00e7\u00e3o cair\u00e1 dois pontos percentuais ainda no primeiro semestre do ano, para algo entre 8,5% e 8,8%. 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