{"id":61,"date":"2015-03-10T00:01:00","date_gmt":"2015-03-10T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/razoes_de_sobra\/"},"modified":"2015-03-10T00:01:00","modified_gmt":"2015-03-10T03:01:00","slug":"razoes_de_sobra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/razoes_de_sobra\/","title":{"rendered":"RAZ\u00d5ES DE SOBRA"},"content":{"rendered":"\n<p>O governo sentiu o baque das manifesta\u00e7\u00f5es contra a presidente Dilma Rousseff na noite de domingo. O panela\u00e7o e o buzina\u00e7o registrados em v\u00e1rias capitais do pa\u00eds enquanto a chefe do Executivo fazia um pronunciamento da tev\u00ea deixaram claro que uma onda de insatisfa\u00e7\u00e3o est\u00e1 se espalhando e pode criar s\u00e9rios problemas ao Pal\u00e1cio do Planalto. <\/p>\n<p>Num primeiro momento, o PT e os aliados de Dilma tentaram desqualificar o movimento, atribuindo-o a uma a\u00e7\u00e3o restrita \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais rica, insatisfeita com os avan\u00e7os sociais dos \u00faltimos anos e com a reelei\u00e7\u00e3o da petista. Mas acabaram percebendo que as vaias \u00e0 presidente foram muito al\u00e9m da parcela abastada da popula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>H\u00e1 motivos de sobra para a gritaria contra Dilma. Nos \u00faltimos quatro anos, ela transformou um pa\u00eds promissor \u2014 o primeiro a sair da crise provocada pelo estouro da bolha imobili\u00e1ria dos Estados Unidos, em 2008 \u2014 numa grande decep\u00e7\u00e3o regada a corrup\u00e7\u00e3o. O crescimento m\u00e9dio do Produto Interno Bruto (PIB), que se manteve em 4,6% ao ano no segundo mandato de Lula, desabou para 1,5%. \u00c9 poss\u00edvel que a atividade tenha ca\u00eddo em 2014 e \u00e9 certo que ter\u00e1 retra\u00e7\u00e3o em 2015. A infla\u00e7\u00e3o, que afeta, sobretudo, os mais pobres, deve fechar este ano entre 8% e 9%, n\u00edveis que n\u00e3o se v\u00ea h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. <\/p>\n<p>At\u00e9 o ano passado, Dilma conseguiu minimizar os efeitos desses estragos no dia a dia dos brasileiros por meio da gastan\u00e7a desenfreada de recursos p\u00fablicos. N\u00e3o se preocupou, em nenhum momento, com as consequ\u00eancias que estavam a caminho. Para esconder o descalabro nas finan\u00e7as, recorreu a todo tipo de truque cont\u00e1bil. Mas a farra deixou de caber no Or\u00e7amento da Uni\u00e3o, a ponto de o rombo nas contas atingir quase 7% de todas as riquezas produzidas pelo pa\u00eds. <\/p>\n<p>N\u00e3o satisfeita, a presidente interveio em v\u00e1rios setores da economia. Reduziu, a f\u00f3rceps, as tarifas de energia el\u00e9trica e segurou, sem constrangimento, os pre\u00e7os dos combust\u00edveis. Criou, com a vis\u00e3o de que o Estado pode tudo, uma s\u00e9rie de desequil\u00edbrios que minou a confian\u00e7a do empresariado e dos investidores. Acreditou que poderia controlar as cota\u00e7\u00f5es do d\u00f3lar. <\/p>\n<p>Logo depois das elei\u00e7\u00f5es, em outubro passado, Dilma come\u00e7ou a dar sinais de que o pa\u00eds da fantasia que ela havia sustentado por quatro anos estava ruindo. Na tentativa de salvar o que fosse poss\u00edvel, autorizou o Banco Central a aumentar os juros. Logo depois, chamou Joaquim Levy para o Minist\u00e9rio da Fazenda, apostando que conseguiria evitar a derrocada da economia. Findo o primeiro mandato, explicitou que a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds era pior do que a alardeada pelos especialistas, classificados pelo Planalto, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, como terroristas e profetas do caos. <\/p>\n<p>Dilma, agora, pede \u201cpaci\u00eancia\u201d e \u201ccompreens\u00e3o\u201d aos brasileiros por todos os equ\u00edvocos que cometeu. E avisa que a fatura ter\u00e1 de ser repartida com todos. \u00c9 certo que boa parte dos que protestaram no domingo j\u00e1 se deram conta do sacrif\u00edcio a que ser\u00e3o submetidos. Mas o grosso da popula\u00e7\u00e3o s\u00f3 se deparar\u00e1 com a cruel realidade quando o desemprego chegar. \u00c9 a\u00ed que mora o perigo. <\/p>\n<p>Muitos no governo t\u00eam a consci\u00eancia de que o fim da sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar social \u00e9 quest\u00e3o de tempo. Trabalhadores que se endividaram com o carro, a casa pr\u00f3pria, o tablet, as viagens internacionais voltar\u00e3o para casa sem a garantia dos sal\u00e1rios e com d\u00edvidas enormes a arcarem. Neste momento, os panela\u00e7os e os buzina\u00e7os n\u00e3o se restringir\u00e3o mais \u00e0s \u00e1reas nobres das capitais. Acabar\u00e1 a divis\u00e3o de classe que os petistas teimam em incentivar no pa\u00eds. As ruas ser\u00e3o de todos. <\/p>\n<p><b>Rebaixamento mais pr\u00f3ximo<\/b> <\/p>\n<p>\u00bb Para Luciano Rostagno, economista-chefe do Banco Mizuho, se as manifesta\u00e7\u00f5es populares crescerem, como se imagina, diante da piora da economia, as ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o de risco poder\u00e3o apressar o rebaixamento do Brasil. Ele lembra que os protestos de junho de 2013 pesaram na decis\u00e3o da Standard &amp; Poor\u2019s (S&amp;P) de cortar a nota e deixar o pa\u00eds a um degrau no n\u00edvel especulativo. <\/p>\n<p><b>Juros ainda maiores<\/b> <\/p>\n<p>\u00bb Diante da fragilidade do governo, que enfrenta s\u00e9rias dificuldades para lidar com as crises pol\u00edtica e econ\u00f4mica, os investidores passaram a apostar na possibilidade de o Banco Central elevar a taxa b\u00e1sica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual em abril, para 13,50% ao ano. Quanto mais o Planalto demorar para aprovar o ajuste fiscal, maior ter\u00e1 de ser o arrocho promovido pelo BC. At\u00e9 a semana passada, o consenso era de que a autoridade monet\u00e1ria subiria a Selic em 0,25 ponto e encerraria o ciclo de alta. <\/p>\n<p><b>Colhendo os frutos<\/b> <\/p>\n<p>\u00bb Desde que os juros come\u00e7aram a subir, em abril de 2013, a taxa b\u00e1sica passou de 7,25%, o menor patamar da hist\u00f3ria, para 12,75% ano \u2014 alta acumulada de 5,5 pontos. Esse aperto monstruoso s\u00f3 contribuiu para empurrar a atividade para o buraco. Parte disso, contudo, n\u00e3o seria necess\u00e1rio se Dilma Rousseff n\u00e3o tivesse sido t\u00e3o leniente com a infla\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p><b>Respeito e maturidade<\/b> <\/p>\n<p>\u00bb Manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o importantes e fazem parte do regime democr\u00e1tico. Mas \u00e9 preciso respeito e saber claramente as consequ\u00eancias que vir\u00e3o delas. O Brasil tem dado demonstra\u00e7\u00f5es estupendas de maturidade. N\u00e3o pode recuar agora. <\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 00h01min<\/i>   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo sentiu o baque das manifesta\u00e7\u00f5es contra a presidente Dilma Rousseff na noite de domingo. 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