{"id":65,"date":"2015-03-17T00:01:00","date_gmt":"2015-03-17T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/sobrevivencia\/"},"modified":"2015-03-17T00:01:00","modified_gmt":"2015-03-17T03:01:00","slug":"sobrevivencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/sobrevivencia\/","title":{"rendered":"SOBREVIV\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"\n<p>A presidente Dilma Rousseff relutou o quanto p\u00f4de, gaguejou ao responder a um questionamento, mas, pela primeira vez, assumiu publicamente que errou na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica nos \u00faltimos quatro anos. N\u00e3o foi uma confiss\u00e3o expl\u00edcita. Mas, a despeito de todas as ressalvas, ela mostrou que a voz das ruas \u2014 pelo menos 2 milh\u00f5es de pessoas gritaram \u201cFora Dilma\u201d, \u201cFora PT\u201d no \u00faltimo domingo \u2014 bateu forte no Pal\u00e1cio do Planalto. A ponto de a chefe do Executivo assumir uma postura humilde que nunca demonstrou, esbo\u00e7ar simpatia e at\u00e9 distribuir sorrisos em entrevista concedida depois de sancionar o C\u00f3digo de Processo Civil. <\/p>\n<p>\u00c9 quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Ainda que n\u00e3o seja uma raposa pol\u00edtica \u2014 est\u00e1 muito longe disso \u2014, Dilma sabe que os protestos s\u00f3 est\u00e3o no in\u00edcio. \u00c0 medida que o desemprego for dando as caras, o que n\u00e3o vai demorar, o descontentamento da popula\u00e7\u00e3o com o governo vai se acentuar. H\u00e1 articula\u00e7\u00f5es pelas redes sociais de novas manifesta\u00e7\u00f5es no meio de abril ou in\u00edcio de maio. At\u00e9 l\u00e1, a tend\u00eancia \u00e9 de as empresas acelerarem as demiss\u00f5es, uma vez que o n\u00edvel de atividade est\u00e1 despencando. Ser\u00e1 dif\u00edcil para as fam\u00edlias lidarem com a perda do emprego estando altamente endividadas. O Planalto est\u00e1 ciente de que esse quadro \u00e9 iminente. <\/p>\n<p>No entorno da presidente, a vis\u00e3o \u00e9 de que, com a forte cobran\u00e7a da sociedade, que se cansou da infla\u00e7\u00e3o alta e teme perder conquistas que lhes custaram caro, Dilma ficou mais dependente do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Por isso, vai bancar, at\u00e9 onde for poss\u00edvel, o ajuste fiscal preparado pela equipe econ\u00f4mica. Ela pode at\u00e9 fazer algumas concess\u00f5es para n\u00e3o destro\u00e7ar de vez a base aliada, mas sabe que n\u00e3o tem mais tempo e precisa entregar a meta de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB). O precip\u00edcio ficou muito mais perto do governo. <\/p>\n<p>Pelas proje\u00e7\u00f5es da Eurasia Group, mesmo com Dilma ainda longe de enfrentar uma crise de governabilidade, s\u00e3o de 20% as chances de ela sofrer um processo de impeachment. A institui\u00e7\u00e3o admite que se trata de uma probabilidade elevada, diante da dificuldade de se conduzir o afastamento de um presidente da Rep\u00fablica. Mas, a depender da forma como governo tocar o pa\u00eds, sobretudo, a economia, tudo pode acontecer. <\/p>\n<p>Os analistas da Eurasia destacam que chefes de governo podem sobreviver com \u00edndices de popularidade muito baixos. Foi o caso de Fernando Henrique Cardoso em 1999, cuja aprova\u00e7\u00e3o despencou para um d\u00edgito depois da desvaloriza\u00e7\u00e3o do real. Eles lembram que Dilma n\u00e3o \u00e9 forasteira como Fernando Collor, que, em 1992, renunciou \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica antes da conclus\u00e3o do processo de impedimento. Ela faz parte do maior partido de esquerda, com ra\u00edzes nas entidades trabalhistas e em movimentos sociais. <\/p>\n<p>Assim, destacam os especialistas, a maioria dos atores pol\u00edticos, tanto do centro quanto da oposi\u00e7\u00e3o, est\u00e3o plenamente conscientes de que a insist\u00eancia no impeachment da petista pode levar a um ambiente pol\u00edtico altamente vol\u00e1til, com consequ\u00eancias pesadas para a economia, que, neste ano, deve encolher 1,5%. Fiel da balan\u00e7a neste momento t\u00e3o delicado, o PMDB usar\u00e1 a fragilidade de Dilma para obter vantagens. Quer a presidente como ref\u00e9m. <\/p>\n<p>Com menos de tr\u00eas meses do segundo mandato, Dilma n\u00e3o pode mais errar. Acabou o tempo de promessas n\u00e3o cumpridas e de ficar pendurada em um marqueteiro especialista em fabricar mentiras. Como bem ressaltou ontem um banqueiro, ao avaliar as manifesta\u00e7\u00f5es, o Brasil cansou, a paci\u00eancia se esgotou. O pa\u00eds que sonhou em se tornar pot\u00eancia est\u00e1 de joelhos. Se conseguir atravessar 2015 sem traumas mais s\u00e9rios, pode at\u00e9 ser que comece a se reerguer. Mas sem ufanismo. Os brasileiros n\u00e3o querem mais viver de sonhos. Querem estabilidade econ\u00f4mica para olhar \u00e0 frente e planejar o futuro. A presidente, com todos os seus equ\u00edvocos, lhes roubou esse direito. <\/p>\n<p><b>Vis\u00e3o de fora<\/b> <\/p>\n<p>\u00bb Um grupo de economistas rec\u00e9m-chegado do exterior est\u00e1 assustado como os investidores locais est\u00e3o exacerbando a crise pol\u00edtica vivida pelo Brasil. Acreditam que h\u00e1 exageros em atribuir a forte disparada do d\u00f3lar ao esfacelamento da base aliada da presidente Dilma. A alta da moeda \u00e9 um movimento global. <\/p>\n<p><b>Desarranjo global<\/b> <\/p>\n<p>\u00bb Na Europa e nos Estados Unidos, os investidores est\u00e3o vendo o Brasil como uma pequena parcela de um mundo que ter\u00e1 de se ajustar ao fortalecimento da divisa dos Estados Unidos. A valoriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar provocou desarranjos em quase todos os pa\u00edses emergentes, sobretudo os dependentes de commodities. <\/p>\n<p><b>Foi a classe m\u00e9dia, est\u00fapido!<\/b>&nbsp;\u00bb Em conversa ontem, uma leva de empres\u00e1rios n\u00e3o escondia o desconforto com o fato de o PT tentar desqualificar as manifesta\u00e7\u00f5es de domingo, ao restringi-las aos ricos descontentes com governo. Um deles listou uma s\u00e9rie de protestos que n\u00e3o teve o pov\u00e3o como protagonista. <\/p>\n<p><b>L\u00edderes da elite<\/b> <\/p>\n<p>\u00bb Conforme o empres\u00e1rio, ao longo dos 20 anos de ditadura no pa\u00eds, a lista dos que foram para a frente de batalha tentar derrubar o regime foi a classe m\u00e9dia, que inclu\u00eda Fernando Gabeira, Fernando Henrique Cardoso, Jos\u00e9 Serra, Dilma Rousseff e Jos\u00e9 Dirceu. Nenhum deles era pobre. <\/p>\n<p><b>Tudo como sempre foi<\/b> <\/p>\n<p>\u00bb Nas Diretas J\u00e1, destaca o mesmo empres\u00e1rio, n\u00e3o se tem not\u00edcia de integrantes da baixa renda liderando as manifesta\u00e7\u00f5es na Cinel\u00e2ndia, na Candel\u00e1ria ou na Paulista. Na passeata dos 100 mil, s\u00f3 havia artista na frente de batalha. Os caras-pintadas que ajudaram a derrubar Collor eram da classe m\u00e9dia alta. \u201cPor que haveria de ser diferente agora?\u201d, questiona. <\/p>\n<p><i>Bras\u00edlia, 00h01min<\/i>   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A presidente Dilma Rousseff relutou o quanto p\u00f4de, gaguejou ao responder a um questionamento, mas, pela primeira vez, assumiu publicamente que errou na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica nos \u00faltimos quatro anos. N\u00e3o foi uma confiss\u00e3o expl\u00edcita. 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