{"id":761,"date":"2016-04-12T06:30:41","date_gmt":"2016-04-12T09:30:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=761"},"modified":"2016-04-13T09:12:50","modified_gmt":"2016-04-13T12:12:50","slug":"calote-parcial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/calote-parcial\/","title":{"rendered":"CALOTE PARCIAL"},"content":{"rendered":"<p>PAULO SILVA PINTO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O d\u00f3lar abaixo de R$ 3,50 no preg\u00e3o de ontem \u00e9 uma clara demonstra\u00e7\u00e3o do otimismo dos operadores do mercado com a possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Se o clima vai continuar assim daqui a uma semana \u00e9 outra hist\u00f3ria. H\u00e1 muita \u00e1gua para passar por baixo da ponte, sobretudo considerando o caudaloso rio da pol\u00edtica brasileira em tempos recentes. As apostas, por ora, s\u00e3o de que, na semana que vem, a gangorra estar\u00e1 em uma posi\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel para quem espera mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m aguenta o aprofundamento da recess\u00e3o, que se deve, em grande parte, \u00e0 incerteza pol\u00edtica. Dilma no poder significa a continuidade da inc\u00f3gnita: qual ser\u00e1 o grau de convic\u00e7\u00e3o dela para promover o equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas? Qual a capacidade de conseguir apoio parlamentar para medidas amargas? Tudo isso tende a ser muito baixo, de acordo com a cren\u00e7a predominante entre os que compram e vendem ativos l\u00edquidos e valiosos \u2014 o que chamamos de mercado financeiro e de capitais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que Michel Temer tamb\u00e9m coleciona perguntas sem respostas. \u00c9, por ora, um conjunto de inten\u00e7\u00f5es, somado \u00e0 esperan\u00e7a de que consiga do Congresso o voto de confian\u00e7a que costuma ser atribu\u00eddo aos estreantes no Planalto.\u00a0\u00c9 f\u00e1cil prever que o d\u00f3lar vai se aproximar de R$ 3 caso o impeachment seja aprovado. E que vai passar de R$ 4, talvez mesmo e R$ 5, caso seja rejeitado. Mas nada garante que a gangorra pare depois disso. O otimismo em rela\u00e7\u00e3o ao novo presidente vai acabar se ele n\u00e3o apresentar solu\u00e7\u00f5es em breve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De Itamar Franco, quando substituiu Collor em 1992, esperava-se o equacionamento da superinfla\u00e7\u00e3o \u2014 que demorou, mas veio, na forma do Plano Real. Temer precisar\u00e1 promover uma solu\u00e7\u00e3o para o problema fiscal, que pressiona os pre\u00e7os e empaca a economia, desencorajando investidores brasileiros e estrangeiros ao risco, o motor do crescimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O problema de um ajuste fiscal \u00e9 o que costuma ocorrer com muitos tratamentos de sa\u00fade. No come\u00e7o, a impress\u00e3o \u00e9 de que o doente piora. S\u00f3 depois os resultados aparecem. Cortar gastos significa mexer na distribui\u00e7\u00e3o de recursos da sociedade, incluindo funcion\u00e1rios p\u00fablicos, fornecedores do Estado e benefici\u00e1rios de programas sociais. As medidas nas duas dire\u00e7\u00f5es precisam ser percebidas como transparentes, justas e eficazes para dar certo.\u00a0O b\u00f4nus \u00e9 garantir que o Estado ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de pagar suas obriga\u00e7\u00f5es no futuro, o que vai tirar do horizonte os riscos de uma grande desvaloriza\u00e7\u00e3o do real, com disparada da infla\u00e7\u00e3o, e de um calote na d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o diretor da Divis\u00e3o Econ\u00f4mica da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Com\u00e9rcio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes, um plano robusto de ajuste das contas p\u00fablicas n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o: \u00e9 algo indispens\u00e1vel, continue Dilma ou venha Temer. \u201cPrecisamos de uma \u00e2ncora fiscal\u201d, diz o economista, ex-diretor do Banco Central (BC).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Abrir m\u00e3o do ajuste, ele alerta, significa caminhar para um minicalote da d\u00edvida p\u00fablica. Houve v\u00e1rios nos anos 1980, que os bancos absorveram e repassaram aos clientes sem que eles notassem. O calote parcial mais recente foi o de 2002, quando o valor dos t\u00edtulos p\u00fablicos despencou. Houve tr\u00eas raz\u00f5es para isso: o calote dos pap\u00e9is da Argentina, o crescimento da d\u00edvida no governo de Fernando Henrique Cardoso e a perspectiva da elei\u00e7\u00e3o de Luiz In\u00e1cio Lula Silva. Naquela \u00e9poca, com tantos saques nos fundos de investimento, e diante do risco de os bancos ficarem com preju\u00edzo, foi determinada pelo BC a marca\u00e7\u00e3o a mercado dos t\u00edtulos, o que levou um monte de gente a se assustar com a redu\u00e7\u00e3o do saldo dos investimentos. \u201cMuitos investidores decidiram sair do pa\u00eds\u201d, conta Freitas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O temor \u00e9 de que, com a d\u00edvida bruta caminhando para 80% do Produto Interno Bruto (PIB) nos pr\u00f3ximos anos, essa megadesvaloriza\u00e7\u00e3o ocorra de novo. E quem vai pagar a conta s\u00e3o, basicamente, pessoas f\u00edsicas. Os fundos de previd\u00eancia detinham 17,7% dos t\u00edtulos do governo em 2007. Hoje, t\u00eam 22,7% do total. Os bancos tinham 37,8% do bolo em 2007. Hoje t\u00eam 23,6%. Os n\u00e3o residentes passaram de 5,1% para 17,7%, ou seja, a conta do calote parcial vai ser diretamente sentida por cotistas de planos de previd\u00eancia e por investidores estrangeiros. A menos que o governo e a sociedade tomem uma atitude.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 06h30min<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PAULO SILVA PINTO &nbsp; O d\u00f3lar abaixo de R$ 3,50 no preg\u00e3o de ontem \u00e9 uma clara demonstra\u00e7\u00e3o do otimismo dos operadores do mercado com a possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Se o clima vai continuar assim daqui a uma semana \u00e9 outra hist\u00f3ria. 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