{"id":976,"date":"2016-05-14T08:30:35","date_gmt":"2016-05-14T11:30:35","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/?p=976"},"modified":"2016-05-16T18:31:21","modified_gmt":"2016-05-16T21:31:21","slug":"o-buraco-e-muito-mais-embaixo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/vicente\/o-buraco-e-muito-mais-embaixo\/","title":{"rendered":"O buraco \u00e9 muito mais embaixo"},"content":{"rendered":"<p>A heran\u00e7a maldita deixada pela presidente afastada, Dilma Rousseff, est\u00e1 longe de mostrar seu tamanho real. Em apenas dois dias do governo de Michel Temer j\u00e1 foi poss\u00edvel ver que o rombo das contas p\u00fablicas ser\u00e1 muito maior do que o estimado. Antes da abertura do processo de impeachment pelo Senado, a petista havia mandado um projeto ao Congresso para mudar a meta fiscal deste ano de superavit de R$ 24 bilh\u00f5es para deficit de R$ 96,6 bilh\u00f5es. Agora, se sabe que tal estimativa se tornou otimista. N\u00e3o ser\u00e1 surpresa se faltarem mais de R$ 150 bilh\u00f5es para fechar as contas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dar transpar\u00eancia aos n\u00fameros \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o do governo. Nos \u00faltimos anos, foi justamente o descaso em prestar contas \u00e0 sociedade que permitiu ao Minist\u00e9rio da Fazenda recorrer a maquiagens e a pedaladas fiscais que resultaram no processo de afastamento de Dilma. Meirelles n\u00e3o pode incorrer no mesmo erro. Ele deve evitar informa\u00e7\u00f5es seletivas, para poucos, como se tornou rotina no governo passado. Tanto com Guido Mantega quanto com Nelson Barbosa no comando do minist\u00e9rio, a pol\u00edtica era de liberar dados apenas \u00e0queles que fizessem parte do que classificavam de o \u201clado do bem\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A austeridade fiscal n\u00e3o pode ficar restrita \u00e0s palavras de Meirelles. H\u00e1 o risco de que se repita o que se viu com Joaquim Levy, que desembarcou na Fazenda como todo-poderoso, mas, aos poucos, foi sendo esvaziado e, de t\u00e3o humilhado, foi obrigado a pedir demiss\u00e3o. Temer prometeu dar todo o respaldo poss\u00edvel para que seu ministro corte gastos e apresente um programa fiscal consistente de longo prazo para conter a explos\u00e3o do endividamento p\u00fablico. Para isso, por\u00e9m, tamb\u00e9m ter\u00e1 que assumir publicamente a defesa do equil\u00edbrio das contas, a despeito do desgaste pol\u00edtico que o assunto provoca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dilma, infelizmente, nunca acreditou na import\u00e2ncia do ajuste fiscal para a manuten\u00e7\u00e3o da estabilidade econ\u00f4mica. Para ela, falar em deficit fiscal zero era \u201crudimentar\u201d. Na vis\u00e3o da petista, o melhor que o governo tinha a fazer era gastar. Era a forma de estimular a atividade. O resultado est\u00e1 a\u00ed: uma combina\u00e7\u00e3o perversa de recess\u00e3o, infla\u00e7\u00e3o e desemprego. Apenas entre 2014 e 2015, o rombo fiscal do governo, sem incluir os gastos com juros, foi de R$ 144 bilh\u00f5es. Quando inclu\u00eddos os encargos com a d\u00edvida, apenas no ano passado o buraco alcan\u00e7ou inacredit\u00e1veis 10% do Produto Interno Bruto (PIB).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BC aperta fiscaliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o de Meirelles, contudo, deve ir al\u00e9m do setor p\u00fablico. Assim como o governo est\u00e1 quebrado, com um rombo que n\u00e3o se pode estimar de imediato por causa do excesso de manobras cont\u00e1beis, o setor privado tamb\u00e9m enfrenta s\u00e9rias dificuldades. Na era PT, houve um forte est\u00edmulo ao endividamento no pa\u00eds e no exterior. Com a recess\u00e3o e a brutal queda do faturamento, grandes e m\u00e9dias companhias j\u00e1 n\u00e3o conseguem honrar seus compromissos em dia. A situa\u00e7\u00e3o se agravou com o fortalecimento do d\u00f3lar ante a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao governo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O risco de quebradeira \u00e9 enorme. Pode prejudicar a j\u00e1 combalida economia real. Para se ter uma ideia do tamanho do problema, somente os cinco maiores bancos do pa\u00eds \u2014 Ita\u00fa Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econ\u00f4mica Federal e Santander \u2014 gastaram R$ 26,8 bilh\u00f5es no primeiro trimestre do ano em provis\u00f5es para calote. O valor \u00e9 30% maior que o observado no mesmo per\u00edodo de 2015. Mantido esse ritmo, as institui\u00e7\u00f5es, que hoje est\u00e3o s\u00f3lidas, poder\u00e3o ter problemas a partir de 2017. N\u00e3o por acaso, o Banco Central intensificou as fiscaliza\u00e7\u00f5es no sistema financeiro. N\u00e3o quer ser surpreendido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diante desse quadro, t\u00e9cnicos graduados do governo consideram otimistas demais as estimativas que come\u00e7am a surgir para o crescimento do PIB no ano que vem. H\u00e1 bancos e consultorias aventando a possibilidade de a economia dar um salto de at\u00e9 2%, dada \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do governo Temer de enfrentar os problemas que afligem o pa\u00eds. A corre\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, vai demorar. Governo, fam\u00edlias e empresas demandar\u00e3o tempo para limpar o Or\u00e7amento. Tornar-se solvente requer disciplina, justamente o que faltou nos \u00faltimos anos, quando prevaleceu a farra dos gastos e do consumo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Velhas receitas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com o pa\u00eds quebrado, o governo Temer optou por velhas receitas, como o aumento de impostos, para tentar retomar o controle da situa\u00e7\u00e3o. Vai ser bombardeado por aliados de peso, como o presidente da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias de S\u00e3o Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, que fez uma pesada campanha contra a recria\u00e7\u00e3o da CPMF. Meirelles diz que todos devem dar sua cota de sacrif\u00edcio. Os trabalhadores, como se sabe, j\u00e1 foram convocados a bancar parte da fatura. Caso a reforma da Previd\u00eancia realmente saia do papel, ter\u00e3o que adiar por um bom per\u00edodo a aposentadoria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Pal\u00e1cio do Planalto acredita que pode compensar os donos do dinheiro mais \u00e0 frente, se o Banco Central conseguir reduzir a taxa b\u00e1sica de juros (Selic), que est\u00e1 em 14,25% ao ano. O discurso \u00e9 o de que, se, com Guido Mantega na Fazenda, Arno Augustin no Tesouro Nacional e Dilma Rousseff no comando do pa\u00eds, o BC chegou a reduzir os juros abaixo de 10%, certamente ser\u00e1 poss\u00edvel derrubar a Selic fazendo um programa fiscal consistente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Olhando para esse quadro, \u00e9 muito dif\u00edcil ser otimista no Brasil de hoje. Mas n\u00e3o d\u00e1 para jogar a toalha. O pa\u00eds tem potencial. S\u00f3 precisa de um bom governo, que realmente esteja comprometido com o bem de todos, e n\u00e3o de um grupelho que acredita que ainda vivemos nos tempos das capitanias heredit\u00e1rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 08h30min<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A heran\u00e7a maldita deixada pela presidente afastada, Dilma Rousseff, est\u00e1 longe de mostrar seu tamanho real. 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