Em um ano, 240 mil admissões no setor público

Publicado em Servidor

Apesar da crise fiscal e das sucessivas promessas de corte de gastos, União, estados e municípios aumentaram o quadro de servidores nos últimos 12 meses. Governo federal terá R$ 700 milhões para contratações em 2018

ALINE DO VALLE

ESPECIAL PARA O CORREIO

Nos últimos 12 meses, o setor público contratou 240 mil servidores, apesar de sucessivos anúncios de corte de gastos. A maioria foi admitida entre julho e setembro deste ano. Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), naquele trimestre, 191 mil pessoas passaram a fazer parte do quadro de funcionários de prefeituras, governos estaduais e do Executivo federal. Em 2016, o número de contratados no mesmo período havia sido de apenas 29 mil. No total, o funcionalismo público brasileiro soma 11,5 milhões de trabalhadores.

O Ministério do Planejamento informou que, entre janeiro e setembro, o governo federal admitiu 14.934 funcionários por concurso público. No início da semana, o ministro Dyogo Oliveira disse que, com o novo projeto de Orçamento de 2018, a União terá R$ 700 milhões para contratar servidores no próximo ano. Para isso, o Palácio do Planalto encaminhou ao Congresso medidas provisórias adiando o reajuste de servidores do ano que vem para 2019 e elevando a contribuição previdenciária deles de 11% para 14%. No momento, existem 4.292 vagas em aberto no Executivo. Isso porque a diferença entre o número de contratados não superou o de aposentados entre janeiro e setembro — 19.226.

O governo do Distrito Federal também contratou. No último trimestre, foram nomeados 470 servidores para as secretarias de Saúde, Educação, Criança e também para Polícia Civil, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros. As nomeações só foram possíveis após o GDF sair, em outubro, do limite para gastos com pessoal estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que é de 60% da receita corrente líquida.

Para o professor de administração pública da Universidade de Brasília (UnB) José Matias-Pereira, a movimentação é natural, visto que muitos servidores se aposentam e outros se desligam ou morrem. Ele acredita que a alta do último trimestre tem mais relação com o novo cenário econômico. “Quando a economia dá sinais de recuperação e a arrecadação cresce, os gestores buscam suprir as áreas com maior deficiência”, opina. “Em anos eleitorais, muitos deles costumam assumir postura mais arriscada em relação a contratações. Mas, neste ano, ainda não teve isso. Frente ao risco de infringir a LRF, é melhor não arriscar.”

O economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, classifica a nova onda de contratações como perigosa. “O salário do funcionalismo público é mais de uma vez e meia maior do que o salário médio da economia. Isso é um baita problema, principalmente para estados e municípios que estão com a corda no pescoço e não conseguem pagar os servidores”, lamenta. A principal consequência disso, ressalta, é ter de usar todo o dinheiro arrecadado para pagar funcionários, e não aplicá-lo na prestação de serviços. “Não há segurança, hospitais não funcionam. Não sobra dinheiro para a população. O estado gasta uma estupidez para manter o funcionalismo e o serviço é ruim”, enfatiza.

A diferença de remuneração, por vezes, chama a atenção. A agente socioeducativa Juliana Corrêa, 31 anos, formada em direito desde 2008, conta que não encontrou oportunidade rentável no mercado formal e, por isso, buscou o serviço público. “Eu me senti frustrada com as ofertas do mercado de trabalho. Na ponta do lápis não compensava”, relata. Há cerca de três anos, conseguiu um cargo comissionado na Secretaria de Educação do GDF. “Mas, sabia que teria um tempo específico para sair e voltar à instabilidade”, desabafa. Por isso, decidiu prestar concurso em 2015. Foi aprovada e tomou posse em julho deste ano.

O papiloscopista Eduardo França, 25, foi efetivado em julho na Polícia Civil do DF. Graduado em relações internacionais, ele foi corretor de imóveis por quase três anos. “São dois mundos bem diferentes. Como autônomo, eu chegava a trabalhar dois ou três meses para conseguir vender um apartamento. Não dava pra saber como seria o dia seguinte. Agora, sei que no fim do mês o salário chega”, comemora.

Acima da média

De acordo com o IBGE, o servidor público brasileiro ganha, em média, R$ 3.272 mil por mês. Já o rendimento médio de um brasileiro empregado no setor privado com carteira assinada é de R$ 2.035 mil. No trabalho informal, a renda média é de R$ 1.206 mil. Dados do Índice Firjan de Gestão Fiscal da Federação (IFGF), elaborado pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, apontam que a folha de pessoal é a principal despesa das prefeituras brasileiras, tendo atingido 52,6% dos orçamentos dos municípios em 2016. Segundo o estudo, 575 dos 5.570 municípios ultrapassaram o limite legal para esse tipo de gasto.

10 thoughts on “Em um ano, 240 mil admissões no setor público

  1. É o sonho dourado da maioria dos brasileiros: estudar pra caralho passar num concurso prá não ter de trabalhar mais…

    1. Em primeiro lugar, não sei de onde você tirou que os servidores não trabalham. Os vagabundos que entram sem concurso apadrinhados políticos é que estragam tudo mas você é incapaz de compreender a diferença entre uma coisa e outra.
      Em segundo lugar, só consegue assumir um cargo público que tem capacidade de passar num concurso.

      1. “MAIORIA” se vc se magoou desolé mas o que interessa é que essas diferenciações vão acabar. Capacidade de “passar em concurso” só Vale alguma coisa nesse país atrasado.

        1. Não sou bem eu quem está magoado. “País atrasado” mesmo, principalmente existindo pessoas que pensam como você, infelizmente.
          E o pior é que tá cheio de gente assim que possui título de eleitor.

          1. Isso. Os bancos adoram caras como você. Estão loucos para se apossarem da folha de pagamento dos servidores e jogá-los em seus planos de previdência de araque.
            Os servidores contribuem sob o total da remuneração e não têm FGTS. Quem é celetista tem a contrapartida patronal. Se todos vão receber igua, entãol os servidores entrarão na Justiça e a entupirão de ações para receber a diferença de volta. Esqueça. Isso não vai acontecer. Essa “reforma” encomendada pelo mercado não será aprovada agora.
            Já que você gosta de História deveria saber que não devemos adotar o discurso daqueles que nos exploram.
            Os escravos quando eram alforriados compravam outros escravos para explorar.
            Esse é o mal do brasileiro. Sempre adotando o discurso de quem o oprime quando deveria fazer o contrário. Lute para melhorar e equiparar o que você ganha por alto e não tente rebaixar e gorar as conquistas dos outros porque você é muito ingênuo se acredita que existe déficit na Previdência. Vendem isso na mídia e você engoliu direitinho.
            Taxar as grandes fortunas e cobrar os bancos e grandes empresários do que devem à Receita Federal e sonegam já traria um superávit enorme nas contas públicas. E vc acreditando na cascata do governo. Governo que acha que estamos nos EUA onde todos devem ser empreendedores e não precisam de emprego pleno. Acorda! Estamos no 3.º, 4.º mundo!
            Deixe o preconceito de lado e pense com a própria cabeça. Não com a cabeça dos ricos ou dos banqueiros, ou dos atuais políticos e governantes que se venderam facinho.

          2. kkkk Esqueça. Isso não vai acontecer.
            Tá bom. Vamos nos aposentar todos com o mesmo valor.
            No dia seguinte os servidores entupirão os tribunais com ações. Isso porque eles contribuem para a Previdência sob o TOTAL da remuneração e não contam com a contrapartida patronal, como os trabalhadores celetistas. Tudo bem. Todos vão receber aposentadoria igual?
            Então os servidores devem entrar com ações para receber a diferença. Simples assim.

          3. Espere e verá. O leite da vaca tá no fim. De onde vc acha que vem o dinheiro que banca o funcionalismo mais caro e ineficiente do mundo? Das árvores? Não, é do suor de cada brasileiro que não é covarde e movimenta a nossa economia que vive sufocada por burocratas como vcs que só querem saber de proteger seus interesses como se não fizessem parte do povo brasileiro, como se fossem uma “elite” que se justifica só porque “passou no concurso “. Vai pros EUA Europa e vê se muda essa sua visão mesquinha e atrasada.

          4. “Desde a colônia, temos um Estado que nasce por concessão, no qual a instituição pública é usada em benefício próprio. A corrupção persiste no Brasil devido a essa estrutura de colonização” – Denise Moura, historiadora

          5. Concordo. Mesmo porque também sou historiador e dei aulas por 12 anos. Conheço bem a parte da colonização e como nosso Estado foi formado. De cima para baixo e com muitos privilégios.
            Porém, não são os servidores concursados que usam o Estado em proveito próprio. Eles materializam a figura do Estado no atendimento à população. Os Joesley da vida, sim. Esses acham que o Estado é deles. Hoje temos um Estado Patrimonialista, um capitalismo de Estado. Ex: Essa ministra de Direitos Humanos que quer ganhar R$60.000,00 e acha pouco. Uma vergonha! Devia ser demitida.
            Claro que existem maus servidores e aqueles que acham que são donos do Estado e estão lá para vender e obter vantagens. Esses devem ter punição exemplar.
            O problema é que você generaliza tudo. O que propõe? Privatizar tudo? Entregar tudo?Não conheço nenhum país desenvolvido que fez isso.

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